O tempo, à esquina

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O que vão ler é obra de um poeta que tem um percurso singular: nascido e criado em Lisboa passou pelas mais importantes tertúlias artísticas dos anos 60 e 70, escreveu canções, pintou quadros, viveu e deu corpo a muitas lutas ao longo das últimas décadas. Ainda assim, leva mais de trinta anos que não se faz publicar em livro, sem que para tal haja explicação coerente. Aconteceu, é a vida. E a vida de João Videira Santos já leva muito que contar: da poesia, claro está, mas também dos encontros, dos empenhamentos, das viagens.

Foi, aliás, em viagem que nos conhecemos, a bordo de um avião que voava para Bucareste, em plena ebulição pós-comunista. Eu ia em reportagem para um grande jornal de Lisboa, ele como observador internacional das primeiras eleições realizadas na Roménia, após a queda de Ceausescu. Juntos, a princípio por razões de circunstância, depois por vontade mútua, percorremos com outros amigos boa parte do país.

Trago a viagem à conversa porque creio que esses momentos foram, tanto para mim como para o João, muito enriquecedores no que respeita ao conhecimento do mundo, das coisas e das pessoas. Tínhamos, há que reconhecê-lo, uma grande vantagem: a derrocada do «socialismo real» não constituía, para nós, propriamente uma surpresa e muito menos o fim de qualquer ilusão.

Duas ou três semanas que passamos em conjunto nos Balcãs foram realmente importantes nas nossas vidas, por tudo aquilo que ali nos foi dado conhecer – mesmo se, depois disso, qualquer de nós percorreu outros lugares, visitou outras cidades, conheceu outros povos e viveu outras experiências igualmente enriquecedoras. Se não fosse esse encontro – poético e realmente com início em pleno vôo – eu provavelmente não estaria agora aqui, prefaciando este livro do João Videira Santos.

Tudo isto para justificar o que os leitores perceberão sem dificuldade lendo os poemas que seguem: que o autor não é homem de escrever por escrever, e que escreve sobre aquilo que melhor conhece – a Vida (assim mesmo, com maiúscula) e os momentos que ela lhe proporcionou. Fá-lo com a mesma honestidade e o mesmo empenhamento que coloca em todas as coisas, que é a única maneira válida de estar no mundo. Chegou a vez de dar a conhecer a sua arte ao público brasileiro.

Deixemo-nos, pois, de conversa, e passemos ao essencial, que são estas «esquinas do tempo», na certeza de que este não é, em rigor, um tempo perdido. Agora, só queremos não ter de tornar a esperar muito para ler um novo livro do João Videira Santos. Ele merece, e nós também.

Prefácio a Esquinas do Tempo, de João Videira Santos | Ed. Thesaurus | Brasília, 2005

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