O pássaro da ilha

zmd1.jpg

O Zeca é um pássaro. Ele canta, encanta, inventa e reinventa, sem nunca cansar quem o ouve – e que o vê. Porque ver o Zeca é tão importante como ouvi-lo. Há quem o compare a Tom Waits, mas em palco ele faz sobretudo lembrar Jacques Brel – na entrega, no modo inteiro como interpreta as suas canções de amor e mágoa, esperança e desencanto e saudades de um futuro em que não desiste de acreditar, mesmo se o presente tantas vezes parece empenhado em desmenti-lo.

Há um par de anos, quando publicou Cinefilias e Outras Incertezas – e, depois, esse admirável Torna-Viagem, muito justamente coroado com o Prémio José Afonso – houve quem se espantasse com este talento. Como se o Zeca fosse um novato nestas andanças, como se só agora lhe tivesse dado para se pôr a escrever e a cantar coisas tão belas. Este espanto, confessado publicamente até por alguns intelectuais que tinham mais do que obrigação de estar atentos ao que de melhor se vai fazendo neste nosso país de tantas ingratidões, só pode ser compreendido à luz de uma inexplicável desatenção perante as coisas boas do mundo.

Porque a verdade é que os dotes de compositor e intérprete de José Medeiros já são do domínio público há pelo menos um quarto de século – desde que deu corpo (e alma) a um projecto que dava pelo nome de «Rosa dos ventos» e se traduziu num disco a que, também na altura, poucos deram atenção: Rimando Contra a Maré, um notável conjunto de canções onde Zeca ensaiava já aquele que iria ser, fatalmente, o seu caminho na música.

Artista multifacetado, com obra feita na Televisão, no Teatro e no Cinema, o Zeca nunca canta a mesma canção duas vezes da mesma maneira. Fá-lo com a voz portentosa e única que recebeu dos deuses, mas também com as mãos, o rosto, o coração – o corpo todo, afinal, porque tudo nele é música.

Depois – last but not least – o Zeca é, provavelmente, o mais autêntico dos cantores da sua geração. Aquilo que se ouve e vê, nunca é apenas aquilo que parece ser – é mesmo aquilo que é e que ele transporta para o palco como mais ninguém. É por isso que sabe tão bem ouvi-lo –e é por isso que é tão importante vê-lo cantar.

Ainda por cima, o Zeca é uma das melhores pessoas que me foi dado conhecer e ter como amigo, o que não é nada despiciendo nestes tempos em que a honra e a verticalidade são tão desprezadas, em contraponto com a leviandade e a hipocrisia, convertidas em valores instituídos da sociedade do faz-de-conta em que nos querem fazer viver. Porque o Zeca é um homem do mundo e da música – mas que nunca nos dá música, e isso é o mais importante. Tudo o resto são cantigas.

Texto de introdução ao espectáculo de José Medeiros no Teatro Micaelense, Ponta Delgada, Açores, 28.7.2007

Mais sugestões de leitura

  • Crime e castigoOpen or Close

    A notícia da detenção, em Londres, do antigo ditador chileno Augusto Pinochet tornou-se no principal acontecimento deste fim-de-semana – e por pouco não conseguiu secundarizar o discurso de duas horas e meia de Fidel Castro no comício de solidariedade com Cuba, em Matosinhos.

    RCS | 19.Out.1998

    Ler Mais
  • O silêncio da terraOpen or Close

    «Não acredito muito nos pessoas que apenas se comovem quando ouvem falar de coisas de carácter político. Não basta fazer canções sobre a paz ou sobre a guerra, é preciso ter em conta também uma outra poesia que nos fale da beleza das paisagens, dos rios que correm, da natureza que se manifesta.» Em Março de 1985, Atahualpa Yupanqui esteve em Portugal para realizar dois concertos únicos por iniciativa da Embaixada da República Argentina. Nos palcos da Aula Magna, em Lisboa, e do Rivoli, no Porto, acompanhado apenas pela sua guitarra (“a la guitarra grave y honda que jumbrosa estremecida y soledosa, desvelada quiero referirme”), deu-se-nos, durante cerca de duas horas, o trovador maior das pampas, “payador” que foi perseguido e nunca desistiu de se interrogar, a ele próprio e a quantos o ouvem, a propósito dos sentidos possíveis da vida.

    Ler Mais
  • O cherne da questãoOpen or Close

    Quando a mulher do ora primeiro-ministro tomou à letra o apelo do poeta e lançou a única frase que teve eco na campanha (à parte as considerações anatómicas em volta da "mão de Ferro" do PS e do "braço direito" do CDS) não faltou quem achasse que meter o Cherne ao barulho era coisa típica da peixeirada em que se converteram não apenas as campanhas eleitorais mas a generalidade dos episódios que dão cor à vida política portuguesa. Aliás, só com muito boa vontade é que alguém pode ver no líder do PSD algo mais do que uma simples boga, mas já se sabe: o amor é cego.

    Alface Voadora | Abril 2002
    Ler Mais
  • Cantares de um homem livreOpen or Close

    Se Mário Mata fosse um pássaro seria com certeza um melro ou um pardal ou mesmo uma gaivota. Nunca poderia ser um canário, pela simples razão que não seria capaz de sobreviver numa qualquer gaiola, por mais dourada e confortável que fosse.
    O Mário é um homem livre, e dessa condição não prescinde, mesmo quando essa opção dói. E geralmente dói.
    É disto tudo que nos fala neste disco: de si e dos outros, da vida e das coisas simples, de Lisboa e do mundo, de portugueses burocráticos e neuróticos, mas também dos que ainda não desistiram.

    Introdução ao CD Sinais do Tempo, de Mário Mata | 2012

    Ler Mais