Silêncios sem preço

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Uma exposição com um livro, ou um livro com uma exposição?

Este é um daqueles casos em que a ordem dos factores não é nada arbitrária, já que é de um livro que, em primeiro lugar, é suposto aqui falarmos.

Mas o certo também é que, se olharmos em volta, vamos descobrir uma série de pequenas pinturas.* E é igualmente certo que, tanto o livro como as imagens que hoje e aqui o rodeiam, têm a mesma origem, são criações do mesmo criador: o António Ferra, que hoje nos reúne para nos apresentar um livro que tem o significativo título de Silêncios Comprados, muito apropriado a este nosso tempo em que quase tudo se compra e se vende.

É um livro composto por três pequenas histórias suburbanas, que nos dão o retrato de alguns instantes de vidas de gente comum.

Tal como nos quadros que pinta, o António procura sempre, nas histórias que conta, dar uma particular atenção aos aspectos que mais facilmente escapam à vista de quem está demasiado ocupado com o quotidiano para poder dar a necessária atenção à vida.

Este livro é o continuador de uma série minimalista que o António Ferra iniciou, aqui há uns três anos, com uma outra história, essa chamada O Vermelho e o Negro, numa curiosa evocação de Stendhal - que no entanto não tem nada a ver com o clássico oitocentista, a não ser talvez o método de caracterização psicológica das personagens.

Depois desse livrinho, seguiu-se um outro - Olhar o Silêncio - onde o António Ferra retomou a abordagem dos temas que lhe são caros: a convivência dos humanos comuns consigo próprios e uns com os outros, as nem sempre fáceis relações que se estabelecem, dentro e fora das cabeças e dos corpos que as completam.

Agora, António Ferra propõe-nos estes Silêncios Comprados. São, como disse, três histórias de subúrbios e de gente igual a toda a gente. Neste livro há personagens que vivem «entalada[s] entre marquises de alumínio» em bairros onde os passeios «estão cheios de carros mal intencionados», há imigrantes ucranianos e brasileiros e sãotomenses, uma mulher mal-casada com um tecnocrata (o que até é capaz de ser um bocado pleonástico...), um cão à chuva, gente à procura dos significados do amor nas escadas intermináveis de um prédio de Lisboa. São gente sem rosto, mas com nome, afinal gente igual a toda a gente, com as mesmas angústias, os mesmos medos, as mesmas dúvidas.

Comecei por dizer, há pouco, que tanto este livro como os quadros que temos à nossa volta são obras do mesmo artífice. Insisto neste ponto, porque a verdade é que não sei se gosto mais do António pintor ou do António escritor. Porque um e outro se completam e traduzem, naquilo que fazem, a mesma preocupação com o mundo. Tanto nas imagens como nas palavras, este António que é só um sabe traduzir com um talento raro as inquietações do quotidiano, por vezes tão aparentemente sem importância que preferimos não pensar nelas. E no entanto elas existem, às vezes movem-se, e nunca passam por nós sem deixar marcas.

O António sabe como é o funcionamento de certas coisas, desde as mais pequenas às mais grandiosas. E daquelas que não sabe, não desiste enquanto não aprender. E é isso que transmite aos seus quadros e as seus textos com uma honestidade desarmante.

Porque esta é uma arte com pessoas, e não apenas para pessoas. E é por isso que gostei tanto de ler estes Silêncios Comprados.Quanto mais não fosse, porque são mais uma prova de que, afinal, ainda há coisas que não estão à venda, nem dinheiro nenhum do mundo pode comprar.

«Perdi-te sem saber se era possível o amor como se foras cavalo alado num sonho», diz uma das personagens, no final da última história. Uma história talvez sem moral, num livro onde há mais perguntas do que respostas. Mas afinal se calhar é isso mesmo que vale a pena.

Apresentação de Silêncios Comprados, de António Ferra | Livraria Fábula Urbis, Lisboa | 10.Nov.2007
* Este texto foi escrito para a apresentação do livro Silêncios Comprados, de António Ferra, que deveria ter incluído também uma mostra de pintura do autor. Afinal, não houve exposição, só livro, o que levou a uma alteração improvisada no momento. Optou-se por manter aqui a prosa original, porque tudo o que se diz sobre o pintor António Ferra continua a ser verdadeiro

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