A princesa das ilhas

hoess300.jpg

As melhores vozes portuguesas reveladas nos últimos anos são, sobretudo, vozes de mulheres. Isto não quer dizer absolutamente nada, mas é um facto. Esta inversão da tendência que, por força das circunstâncias, foi norma em Portugal desde a renovação musical iniciada por Zeca e Adriano nos anos 60, é digna de registo porque graças a ela ficámos todos a ganhar, quer como indivíduos, quer como país, quer como comunidade cultural.

A agitação criativa que acompanhou e se seguiu ao movimento “dos baladeiros” foi protagonizada essencialmente por autores e intérpretes masculinos – fruto também, com certeza, da diferenciação social então estabelecida entre os dois sexos oficiais – pesem embora algumas honrosas e saudosas excepções, desde Teresa Paula Brito a Antónia Vasconcelos, a inesquecível Tóinas do GAC. Mas foi só a partir dos anos 90 do século passado que as mulheres surgiram com todo o vigor como protagonistas de alguns dos projectos mais refrescantes da música popular portuguesa.

É neste contexto plural que Helena Oliveira apresenta este segundo disco. Três anos depois de “Helena Cant'autores Açorianos”, em que viajou pelas palavras de alguns dos melhores poetas atlantes, a cantora propõe-nos agora uma muito original revisitação da inspirada música tradicional da sua terra.

A música de um lugar reflecte sempre as características do povo que nele habita, e talvez por isso as toadas açorianas tenham por regra um toque de nostalgia muito próprio das ilhas, misturado com a força de quem se habituou desde sempre a conviver de um modo singular com as forças da natureza.

Dos picos de qualquer das nove ilhas mágicas que compõem este arquipélago, o horizonte tem sempre o tamanho do mundo. As gentes daqui vivem repartidas entre a escassez da terra e a largueza do mar, e é esse permanente dilema que dá forma às suas vidas e ao seu modo de ser e de estar.

Tudo isto se reflecte nos balhos, nas chamarritas, nas folias, charambas e sapateias, com aquela tranquila elegância que é característica destes homens e mulheres, onde se fundem a melancolia e o humor, a alegria e a tristeza, a vontade de partir e o desejo de ficar.

É essa essência que Helena persegue e alcança neste disco. À voz clara da cantora acresce a riqueza dos arranjos, vocais e instrumentais, a excelência da execução musical, o rigor da produção – a cargo de um músico sobre quem a proximidade familiar me impede de tecer grandes considerações, de resto desnecessárias: o trabalho está aí para que cada um possa avaliar. Basta saber ouvir.

Ciclicamente, os Açores têm sido berço de algumas das mais interessantes criações da música portuguesa, e este disco de Helena Oliveira honra esse estatuto, que é também o seu. A frescura das suas interpretações é um claro sinal de maturidade artística e um excelente presságio para aquilo que irá fazer daqui por diante.

A partir destas Essências, Helena Oliveira confirma-se em definitivo como uma das grandes cantoras portuguesas do nosso tempo, cumprindo a “promessa” já evidente no disco anterior. Com este conjunto de canções, Helena disponibiliza-se mais para partilhar do que para competir, que é como deve ser vivida a música por aqueles que a amam.

É, claramente, o caso de Helena, a princesa das ilhas a quem só podemos ficar gratos por ter recuperado para nós estas canções sem tempo, parcela fundamental de uma história que é a nossa. E, sobretudo, por o ter feito deste modo, transmudando cada uma destas velhas canções num tema novo, que apetece reaprender. Ela sabe que só entendendo o passado se pode preparar o futuro. E não está disposta a perder-se pelo caminho.

Introdução ao CD EssênciasAcores, de Helena Oliveira | 2011

Mais sugestões de leitura

  • Sexto andamento: do medoOpen or Close

    – Qual foi o teu pior momento em cima de um palco?

    – Foi em Vilar de Mouros, no segundo Festival de Vilar de Mouros. É uma história engraçada. (...) Quando cheguei ao palco... Só te digo que dificilmente a minha família terá sido mais insultada em toda a minha vida do que naquela noite! Mãe, pai, filhos – tudo o que era família minha foi insultada! Já para não falar dos insultos directos, mandarem-me com objectos estranhos... (...) Então passou-me uma coisa pela cabeça, olhei para os meus músicos e disse: «Vamos cantar uma canção, vamos cantar a Pedra Filosofal, vamos fazer aqui uma inversão.» Comecei a cantar, fez-se um silêncio enorme, calaram-se completamente, trautearam o final comigo e aplaudiram freneticamente. Aí, cheguei ao microfone e disse: «Vão bardamerda!». E fui-me embora.

    Ler Mais
  • O ovo da serpenteOpen or Close
    Notícia recente ouvida na TSF dava conta do peculiar «aconselhamento» que a polícia grega está fazer junto de cidadãos vítimas da crescente criminalidade produzida pelo agravamento generalizado das condições de vida da população. De acordo com a notícia, que cita uma reportagem do jornal britânico Guardian, agentes policiais helénicos estão a encaminhar queixas e queixosos para o partido neo-nazi que elegeu vários deputados nas últimas eleições, apresentando-se como «defensor do povo contra a escumalha imigrante».
    Jornal do Fundão | 11.Out.2012
    Ler Mais
  • Padre Mário de OliveiraOpen or Close

    Era capelão das tropas portuguesas na Guiné-Bissau, e nessa condição ousou pregar a Paz. Mas o tempo era de guerra, ainda que esta fosse uma guerra particularmente injusta. E Mário de Oliveira, o capelão pacifista, acabou com guia de marcha para a «metrópole», como então se chamava a Portugal continental. Não esteve mais de quatro meses no teatro de operações, mas foi o suficiente para perceber que, se queria espalhar a palavra de Jesus Cristo, teria de, como Ele, sujeitar-se à raiva e à incompreensão dos poderosos.

    Ler Mais
  • A certeza das dúvidasOpen or Close

    «Ter sempre a certeza das dúvidas / por via das dúvidas saber o que achar», diz o Sérgio numa das muitas canções definitivas que já escreveu. Esse é provavelmente o mais acertado resumo da obra dele e a razão porque tantas vezes nela nos revemos e encontramos: esta inquietação tranquila de quem não desiste de querer saber hoje um pouco mais do que sabia ontem, consciente de que isso é ainda assim menos do que saberá amanhã.

    Catálogo da exposição Sérgio Godinho - Escritor de Canções | 2017

    Ler Mais