A liberdade, ainda

b_500_400_16777215_00_images_actual_o-brigada4.jpg

A urgência das palavras e dos cantos, a premência das vontades e dos sentidos, porque tudo era realizável, e nós sabíamos. Naqueles dias, era assim.

Nascida do afogo imposto pela realidade imediata, a Brigada Victor Jara surge como reflexo desse sentir colectivo. Desde logo pelo nome, que evoca a resistência e uma voz maior da canção popular, assassinado no Chile de Pinochet escassos meses antes de Portugal espoletar a festa de Abril. 

A génese da Brigada está nas campanhas de dinamização cultural do MFA, acções memoráveis de partilha e de procura, acções concretas de construção de uma realidade nova – e porventura a mais generosa das iniciativas do processo revolucionário então em curso.

Viviam-se os meses quentes de mil novecentos e setenta e cinco. Lembro-me de os ouvir num que terá sido, com toda a certeza, dos primeiros espectáculos do grupo – já não sei se em Aveiro, ou em Ílhavo, ou em Coimbra, ou no Porto, lugares que então eu frequentava de modo desigual, mas regular – e que muito provavelmente terá acontecido no âmbito de qualquer iniciativa política ou cultural. Ou ambas, pois que era assim que as coisas funcionavam, e não havia nisso nenhum mal, já que política e cultura são duas coisas imprescindíveis e integrantes das nossas vidas – mesmo das dos mais incultos e dos que não se metem em política, os quais são aliás frequentemente os mesmos, mas isso é conversa que não vem ao caso.

Fixemo-nos então, pois que é isso que por agora mais importa, na proposta musical da Brigada Victor Jara e no que ela significou nas últimas quatro décadas.  Parte dessa história está, muito bem contada e cantada, nos discos todos que a Brigada gravou.

É importante perceber, por exemplo, que até 1974 a música tradicional mais amplamente divulgada era a dos «ranchos folclóricos» do SNI, que tinham o condão de transformar a riquíssima diversidade musical portuguesa num pastelão igual de norte a sul – o mesmo acordeão no vira minhoto e no corridinho algarvio, as mesmas vozes esganiçadas em toda a parte.

No lado oposto, havia sobretudo e principalmente o trabalho de amor e persistência de Michel Giacometti (a quem se deve a maior parte da nossa memória musical colectiva) e a Brigada começa justamente por ir buscar a esse imenso património já recolhido – por Giacometti, mas também por Louzã Henriques e pelo GEFAC, por exemplo – os temas que estão na origem da música que lhe conhecemos.

Mais do que reproduzir os temas tradicionais, a Brigada soube desde o início refrescá-los sem os descaracterizar, renová-los sem os desfigurar, encontrar as características específicas de cada um e criar a partir daí um som que, sendo outro, não deixa de ser o mesmo.

Esse trabalho foi-se apurando de disco para disco, num processo de crescimento que acompanhou as próprias mudanças verificadas num grupo por onde passaram já algumas dezenas de músicos, mas que ainda assim soube, no essencial, manter-se fiel a uma genuinidade cada vez mais incomum. Mais do que um grupo, a Brigada Victor Jara é uma atitude. E uma inquietude.

A Brigada nasceu num tempo de imperativos – históricos, políticos, culturais – marcados por um luminoso ideal de esperança. Uma esperança que, muitos de nós, erradamente tomámos por certeza, mas que afinal, 40 anos passados, desaguou no mar de incertezas que são os dias de hoje.

De Abril, diz-se, já resta pouco. Mas ainda assim não tão pouco. Porque há vontades que não se vergam, paixões que nunca acabam, vivências que permanecem. E há a liberdade, ainda, origem e razão de ser deste grupo e da música que ele faz.

De todas as esplendorosas criações que a Revolução dos Cravos permitiu, a Brigada Victor Jara é com certeza uma das mais duradouras. E quer-me parecer que assim será, ainda, por muitos anos mais. Porque a massa de que esta Brigada é feita vem de longe e vai para longe. E nós com ela.

Incluído em Ó Brigada - colectânea comemorativa dos 40 anos da Brigada Victor Jara | Ed. Tradisom 2015

Mais sugestões de leitura

  • Uma vida de risco(s)Open or Close

    Agora, o Relvas já é mais do que lenda. Ele é uma referência – porventura a mais irreverente, com certeza das mais relevantes – fundamental para quem quiser conhecer a evolução da banda desenhada em Portugal nos últimos 50 anos. E se, apesar de tudo, é hoje mais fácil para um jovem artista criar e divulgar o seu trabalho, isso em muito boa parte se deve ao Relvas – ao talento dele, sim, mas sobretudo à sua persistência homérica e à intransigência perante a mediocridade que sempre o acompanhou.

    Catálogo de Retrospectiva/Outra Perspectiva, de Fernando Relvas | 2017

    Ler Mais
  • As sandálias do pecadorOpen or Close
    O que a seguir se oferece tem o mesmo sentido da partilha bíblica do pão e do vinho. Tinto corrente ou néctar do bom, de preferência com o conduto de uma morcela da Beira ou de um chouriço de Barrancos, que o Mário não se faz rogado. E movimenta-se com o mesmo à-vontade nos salões mais elegantes ou nas tascas mais ordinárias. Sempre com os amigos por perto, como se impõe. Os amigos "que são tristes com cinco dedos de cada lado", como diz Herberto. Os amigos que o Mário torna alegres e que cultiva como rosas delicadas, quer sejam poetas famosos ou bêbados anónimos, mulheres distintas ou putas de rua, actores de seis assoalhadas ou figurantes sem abrigo. À nossa!
    O IVAngelho II Mário Alberto
    Edições Sojorama 2002
    Ler Mais
  • O homem que queria ser comumOpen or Close

    Não fosse a intervenção do dr. Salazar e provavelmente a obra de José Afonso não teria atingido a dimensão que alcançou e que fez dele um dos grandes vultos da música popular do século XX. Dito deste modo, pode soar a provocação. Mas a verdade é que foi por ter sido expulso do ensino, por ordem do governo da ditadura, que o criador de «Grândola» se profissionalizou como músico e passou a gravar com regularidade. Deus a escrever direito por linhas ínvias, diriam os crentes. Curiosas ironias da História, dirão os outros.

    QI | Diário de Notícias | 28.Abril.2012

    Ler Mais
  • Bom dia, tristezaOpen or Close

    É uma cidade triste cheia de gente triste. Tão triste como o odor que se sente nas ruas, intenso e incomodativo. «Cheira a ciganos e a comunistas», explica-me Mihaela, com um sorriso igualmente triste. Como Viorel, Alexandru, Alma ou Teodor, Mihaela tomou parte activa na revolução de Dezembro e sente, agora, a desilusão própria de quem vê frustrados os seus sonhos. Uma viagem pela Roménia pós-comunista, em tempo das primeiras eleições livres. Ou quase.

    O Jornal | 1.Jun.1990

    Ler Mais