A democracia do baralho

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Vivemos, ao que consta, num país democrático. Sui generis, sem dúvida, mas democrático. Mais do que isso: pluralista e cristão, como mandam as regras da convivência ocidental.

É claro que a revolução foi p'ró galheiro, graças à «originalidade». É claro que os pides, os bombistas e os ministros de Salazar se encontram em liberdade enquanto um punhado de antifascistas morre aos poucos nas prisões. É claro que a polícia de choque bate (para nos livrar da subversão), o Governo prepara leis pré-históricas (para defender a instituição) e o povo tem fome (para manter a tradição). Mas a essência da pátria mantém-se democrática, encantadora, bem portuguesa.

O leitor duvida? Maldade sua. Ainda há bem poucas semanas, o primeiro-ministro deu uma prova deste espírito, no decorrer de uma breve e inesperada visita que efectuou, de passagem, ao lugar do Soalhal, na vila de Ílhavo. Do facto nos dá conta uma breve notícia publicada no jornal da terra, que refere a presença de Pinto Balsemão numa taberna da localidade, onde conversou com alguns dos presentes «que se entretinham, para passar o tempo, a jogar a sueca».

Segundo a folha ilhavense, o chefe do Governo demonstrou «a maior simplicidade, conversou com os assistentes, perguntou, indagou e, confraternizando, quis beber ‘vinho do lavrador’ com as pessoas que lá se encontravam e com os seus acompanhantes. (...) Passado cerca de meia hora, os visitantes retiraram-se, tendo o dr. Pinto Balsemão pago todas as despesas e prometido que enviaria baralhos de cartas, para substituir as já muito usadas pelos jogadores.»

Acrescenta a notícia que, algum tempo depois, o proprietário do estabelecimento em causa recebeu uma carta, assinada pelo chefe do gabinete de Balsemão, através da qual o primeiro-ministro agradecia «os bons momentos que lhe proporcionaram neste curto mas agradável convívio e a forma como o receberam». Junto vinham dois novíssimos baralhos. Comentário final – e convicto – do articulista: «Ora isto sim, é que é democracia.»

Cá por mim, nem sequer me atrevo a duvidar. É, de facto, uma democracia do baralho.

O Jornal | 2.Jul.1982

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