A democracia do baralho

dembar2.jpg

Vivemos, ao que consta, num país democrático. Sui generis, sem dúvida, mas democrático. Mais do que isso: pluralista e cristão, como mandam as regras da convivência ocidental.

É claro que a revolução foi p'ró galheiro, graças à «originalidade». É claro que os pides, os bombistas e os ministros de Salazar se encontram em liberdade enquanto um punhado de antifascistas morre aos poucos nas prisões. É claro que a polícia de choque bate (para nos livrar da subversão), o Governo prepara leis pré-históricas (para defender a instituição) e o povo tem fome (para manter a tradição). Mas a essência da pátria mantém-se democrática, encantadora, bem portuguesa.

O leitor duvida? Maldade sua. Ainda há bem poucas semanas, o primeiro-ministro deu uma prova deste espírito, no decorrer de uma breve e inesperada visita que efectuou, de passagem, ao lugar do Soalhal, na vila de Ílhavo. Do facto nos dá conta uma breve notícia publicada no jornal da terra, que refere a presença de Pinto Balsemão numa taberna da localidade, onde conversou com alguns dos presentes «que se entretinham, para passar o tempo, a jogar a sueca».

Segundo a folha ilhavense, o chefe do Governo demonstrou «a maior simplicidade, conversou com os assistentes, perguntou, indagou e, confraternizando, quis beber ‘vinho do lavrador’ com as pessoas que lá se encontravam e com os seus acompanhantes. (...) Passado cerca de meia hora, os visitantes retiraram-se, tendo o dr. Pinto Balsemão pago todas as despesas e prometido que enviaria baralhos de cartas, para substituir as já muito usadas pelos jogadores.»

Acrescenta a notícia que, algum tempo depois, o proprietário do estabelecimento em causa recebeu uma carta, assinada pelo chefe do gabinete de Balsemão, através da qual o primeiro-ministro agradecia «os bons momentos que lhe proporcionaram neste curto mas agradável convívio e a forma como o receberam». Junto vinham dois novíssimos baralhos. Comentário final – e convicto – do articulista: «Ora isto sim, é que é democracia.»

Cá por mim, nem sequer me atrevo a duvidar. É, de facto, uma democracia do baralho.

O Jornal | 2.Jul.1982

Mais sugestões de leitura

  • Um homem de carácterOpen or Close
    José Vilhena, o mais importante humorista português contemporâneo, fez recentemente 85 anos. Mas, com excepção da meia dúzia de amigos e admiradores que estiveram presentes numa pequena homenagem organizada em Lisboa pelo Museu da República e Resistência, quase ninguém se deu conta da efeméride.
    Jornal do Fundão | 19.Jul.2012
    Ler Mais
  • Putas à europeiaOpen or Close

    Uma recente sondagem encomendada pela SIC e pelo Tal e Qual demonstrou que a esmagadora maioria dos portugueses considera que a prostituição deveria ser legalizada. Estarão os brandos bons costumes lusitanos em irremediavel processo de dissolução, ou será este apenas um primeiro sinal da nossa integração no pelotão da frente da União Europeia?

    TSF | 17.Set.1997

    Ler Mais
  • Esquecer AbrilOpen or Close

    Ao escolher os seus entrevistados, é nítido que o autor teceu uma teia de afectos que nos enreda à medida que vamos mergulhando neste livro com o vagar das coisas que realmente dão prazer. Mais do que o papel do entrevistador, Viriato Teles encarna o mestre de cerimónias de uma festa que já só acontece na memória de quem aceitou sentar-se a falar. Como num encontro de velhos amigos, há ternuras e rancores antigos, confissões, relatos do que se passou desde o último encontro. E percebemos que os entrevistados, muitos deles protagonistas da revolução, formam um caleidoscópio de palavras que é também a memória que o perguntador quer pintar da «sua revolução». Jornalista e poeta de generosidades, Viriato Teles só pode relatar o seu 25 de Abril nas palavras dos outros e fá-lo com arte e minúcia próprias de mestre ourives. Se vamos esquecer Abril, que seja com este livro.

    Ler Mais
  • O grito de guerra dos genesOpen or Close

    Ernesto Guevara, chamado o Che, era um homem complexo e dinâmico — diferente de outros, lineares, cinzentos, sempre iguais de tão monotemáticos. Não falo do revolucionário, nem do homem de Estado, nem do pai de família, nem do amante, nem do aventureiro; falo do homem que continha em si todos esses homens... Repito: era um homem complexo, profundo, crítico e sumamente vital. O Che morreu muito jovem, mas morreu obcecado com a vida que ainda poderia construir-se; Fidel agarra-se à vida com unhas e dentes, ainda que apenas fale de morte.

    Ler Mais