Para acabar de vez com a decência

Longe vai o tempo do fado à solta em Alfama e na Madragoa, vadio e real como a amargura. A civilização ocupou as ruas e os becos, transformou as tascas em restaurantes e «pubs», iluminou a noite com vidrinhos coloridos, transformou as violas e as guitarras em potentes estereofonias.
Do fado livre e vadio restam um ou dois sítios no Bairro Alto e a memória dos mais velhos. E restam as fantasias, os mistérios e as solidões do nosso quotidiano, sonhos apressados de pequena metrópole.

Hoje, Lisboa é assim. E mesmo a noite, eterno refúgio dos boémios que teimam em continuar vivos, mesmo ela começa a perder as cores naturais para se vestir com as «spot lights» da Lontra ou do MonteCara. E mesmo ai, correndo por vezes o risco de se vender às modas mais ou menos intelectuais (de esquerda, claro) que aparecem de quando em quando, em surtos, como a gripe. Claro que nem tudo é desesperante. Para os apreciadores do verdadeiro «entretenimento», há o Michel, no «Cocote» e no «Musaico», onde também é possível ver e ouvir esse esplêndido chileno chamado Julián del Valle.

O Julián, exilado antifascista, é, actualmente, um dos músicos mais repartidos pelas salas vaso-dilatadoras desta Lisboa. No «Musaico», no «J'Aime», no «Romance de Cordel» ou no «Peanuts» da Cova da Piedade, ele insiste. Com músicas de Violeta Parra, Atahualpa Yupanki, Victor Jara e dele próprio, Julian del Valle oferece-nos um pouco da alma e da luta da sua América Latina. Da mesma América Latina onde Sérgio Godinho se encontra prisioneiro em nome da «justiça» brasileira.

Nos fins-de-semana do «Bate Papo», canta o António Carlos Martins. É o culto de Chico Buarque e de Caetano Veloso. Colonização cultural? Talvez. A música vale a pena, embora fosse preferível que o António Carlos partisse à descoberta do nosso próprio país. Mas, se não conhece, deverá ir ver rapidamente.

Samuel e José Jorge Letria animam as quintas e sextas-feiras da «Clave de Tó», em Alfama, onde também se pode encontrar o Carlos Alberto Moniz e a sua «música p'ra pular portuguesa». Para quem goste. Se prefere o Country, vá ao Malanga e ouça a Nani. Acredite que vale a pena. Os amantes do jazz têm um espaço próprio, o Hot Clube, enquanto os defensores do fado terão que optar entre as «casas típicas» do Bairro Alto (e, aqui, muito cuidado que o «plástico» abunda) ou as duas ou três tasquinhas teimosas que por ali há. Uma sugestão: vá à «Mascote», na Rua da Barroca, onde a cantiga (ainda) pode acompanhar-se com um tintinho dos verdadeiros.

E, para fim de noite, há o Monte Cara, claro. O Bana lá estará, com o calor das «mornas» de Cabo Verde, para cantar e fazer cantar.
As hipóteses de escolha são muitas, mas nem sempre sedutoras, é verdade. Tentemos, portanto, enfrentar o que ainda existe dessa noite sonhadora, refúgio de uma solidão cada vez mais alargada e mais triste. Torça-se o pescoço à decência. Acabe-se com a «vergonha». Porque vai sendo tempo de acabar com os excessos de «moral» que andam por este Pais.

Se7e | 8.Dez.1982

Mais sugestões de leitura

  • O fim do mundoOpen or Close
    Infelizmente, ainda não foi desta. Apesar de anunciado com algumas centenas de anos de antecedência, o fim do mundo que muitos esperavam voltou a ser adiado. Pelos vistos, os maias são como a Maya e o sinistro Gaspar: não acertam uma. E como eu gostava que o mundo tivesse acabado. Não propriamente o meu, nem o dos caríssimos leitores, mas este mundo imundo de coelhos e relvas e cavacos e portas e borges e merkls e troikas, de todas as adultas e descompassadas bestas que tresmalham as nossas vidas e assassinam os nossos sonhos.
    Jornal do Fundão | 27.Dez.2012
    Ler Mais
  • Para acabar de vez com a decênciaOpen or Close

    Longe vai o tempo do fado à solta em Alfama e na Madragoa, vadio e real como a amargura. A civilização ocupou as ruas e os becos, transformou as tascas em restaurantes e «pubs», iluminou a noite com vidrinhos coloridos, transformou as violas e as guitarras em potentes estereofonias.
    Do fado livre e vadio restam um ou dois sítios no Bairro Alto e a memória dos mais velhos. E restam as fantasias, os mistérios e as solidões do nosso quotidiano, sonhos apressados de pequena metrópole.

    Se7e | 8.Dez.1982

    Ler Mais
  • A certeza das dúvidasOpen or Close

    «Ter sempre a certeza das dúvidas / por via das dúvidas saber o que achar», diz o Sérgio numa das muitas canções definitivas que já escreveu. Esse é provavelmente o mais acertado resumo da obra dele e a razão porque tantas vezes nela nos revemos e encontramos: esta inquietação tranquila de quem não desiste de querer saber hoje um pouco mais do que sabia ontem, consciente de que isso é ainda assim menos do que saberá amanhã.

    Catálogo da exposição Sérgio Godinho - Escritor de Canções | 2017

    Ler Mais
  • Cântico de alegria e raivaOpen or Close

    Em 2005, o Chile ainda tinha cinco presos políticos: Hardy Peña Trujillo, Claudio Melgarejo Chávez, Fedor Sánchez Piderit e Pablo Vargas López, encarcerados na vigência do primeiro governo democrático... por terem atentado, anos antes, contra a ditadura militar. Ao mesmo tempo, apesar de já não estar no poder, Augusto Pinochet ainda se passeava pelo mundo. Foi assim que, a partir de Santiago, o poeta Luís Ariasmanzo lançou um apelo à solidariedade de escritores de vários países. O resultado foi o manifesto poético El Verbo Descerrajado, uma antologia que contou com a participação de oito dezenas de poetas das Américas e da Europa.

    El Verbo Descerrajado
    Ediciones Apostrophes 2005

    Ler Mais