Na morte de Luís Pignatelli

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Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Luís de Andrade

«O Luís Pignatelli faz aqui muita falta», lamentava-se, uma destas tardes, o Armando Baptista-Bastos ao balcão do Expresso, um dos últimos lugares de convívio do largo a que deram o nome de Trindade Coelho, mas que há-de ser sempre da Misericórdia, por maioria de razão popular. Naquele espaço por onde os afectos ainda vão circulando, disfarçados de imperiais e cariocas de limão, a falta que o Luís faz é particularmente sentida.

E o lamento do Bastos nem sequer precisa de ter resposta, todos sabem que é verdade. Sente-se nas conversas, quer sejam contra o Cavaco ou em glória de um soberbo frontispício feminino que vai passando pelo largo onde os pombos promoveram uma ocupação selvagem.

As mulheres que passam são, a par dos ditos pombos e do Albertini, surrealista popular e cantor de rock saxofónico, o que de melhor tem o Largo da Misericórdia. A algumas nem o Bastos nem o Luís nem sequer o ora escrevente desdenhariam a hipótese de uma condecoração no 10 de Junho. «As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental», diria mestre Vinícius, de quem o Luís também gostava e com quem estava em grande sintonia na apreciação do lado fêmea da humanidade.

O Luís faz falta por todas estas pequenas coisas e por muitas outras. As histórias, sobretudo as histórias que ele sabia contar como poucos mais -- a não ser, claro, o Manuel da Fonseca, de quem também se fala muito ali pelos lados do Café Expresso. Das histórias do Luís Pignatelli, e são muitas, não me permito aqui dar conta: são património privado de quantos com ele conviveram tardes e noites avulsas, construindo juntos sublimes manifestações espontâneas de escárnio e bem-dizer.

Se querem saber mais procurem o António Assunção, que não gosta dos pombos, mas nem por isso deixa de ser um sonhador digno de D. Quixote. Ou indaguem junto do Zetho Gonçalves, a quem o Luís cedeu algum do seu talento para as páginas de um sonho de que, provavelmente, os leitores nunca terão ouvido falar -- chama-se «O Eugénio» e é um dos poucos calhários de poesia que teimam em publicar-se em Portugal. Das histórias do Luís Pignatelli poderiam falar, ainda, e certamente bem melhor do que eu, o Pepe e o Júlio Pinto, o Janita e o Vitorino, o Luís Carlos Patraquim e o pintor Ferreira da Silva, o Carlos Soares e a galega Dona Emília. E todos os Amigos, uns mais públicos, outros mais anónimos, igualmente unidos pela dor enorme do vazio.

É sabido que um poeta morto tende a ser transformado num poeta cómodo, mesmo quando se trata de alguém que, em vida, quis ser tudo menos apenas mais um. E é assim que, nessas alturas, surge toda uma legião de «amigos» que nunca ninguém soube que existiam. «Tinha os seus defeitos, mas era um gajo porreiro», dizem, carregando o ar compungido que devem ter as carpideiras.

Neste aspecto, creio, o Luís teve alguma sorte: ignorado por muita gente em vida, continuou a sê-lo depois de morto, como se viu pela quase nenhuma atenção que os periódicos lhe dedicaram. Parece que não, mas pode ser um bem -- pelo menos assim evitam-se todas as vergonhas que a necrologia mediática propicia.

Em alguns casos, o título «amigo de» funciona como uma espécie de diploma e dá mesmo direito a figurar no respectivo currículo. A diferença está em que, enquanto os «amigos» encenam o carnaval da morte, os Amigos, esses, remetem-se geralmente ao silêncio com que procuram remediar uma ausência que sabem ser irremediável.

É por isso que o Bastos e os outros conviventes habituais de Luís Pignatelli sentem a sua falta mesmo quando não dizem nada. Porque de facto a amizade possui um valor superlativo que se exprime mais por actos do que por palavras. O que dói mais na ausência é o espaço vazio, a frase suspensa de uma resposta impossível, aquele não-sei-quê que deveria fazer-nos rir ou chorar no momento exacto. O que mais custa na morte é precisamente o seu carácter de ausência permanente, a certeza do não retorno.

Do lado dos vivos restam as lembranças dos momentos partilhados. Ou, como o Luís escreveu, nuns versos sublimes que o Janita Salomé se encarregou de cantar daquele jeito tranquilo e misterioso que só ele conhece:

O que ficou no ar parado
era um cristal partido
pela tua boca soprado
ou era um pássaro ferido

por uma seta lado a lado?
era uma rosa de frio
na solidão do sentido
do teu vestido rasgado

ou era um cavalo espantado
batendo os cascos no vidro
de encontro às grades do medo
o que ficou no ar parado?

O Luís marchou discretamente, num dia igual a tantos, sem tempo sequer para uma última imperial no Solar dos Galegos, «the last one for the road», como diria o Patraquim, também poeta e igualmente conhecedor dos segredos das estrelas. Morreu sem alarido, este Pignatelli, tão discreto como viveu, provavelmente deixando a meio uma conversa sem tempo com o Herberto Hélder, outro habitante acidental do Bairro Alto.

Imagino-o agora sentado ao lado do Zeca Afonso e do Adriano, provavelmente sentados os três numa esplanada do céu, à espera do Manuel da Fonseca. O Luís resmungará que está cheio de sede, enquanto vai desfiando um rosário de histórias para quem o quer ouvir.

Enquanto isso, no Largo da Misericórdia há um enorme espaço vazio que nem os pombos amestrados conseguem disfarçar. Na memória, além da saudade, permanecem as palavras. A certeza de que «não é fácil o amor, melhor seria / arrancar um braço, fazê-lo voar / dar a volta ao mundo, abraçar / todo o mundo». O Bastos é que tem razão: fazes aqui muita falta, pá!

Revista MPP | Julho 1994

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