Percursos do marginal de sucesso

juliop1.jpg

Vocês são todos antifascistas pelo menos desde 1383.
Andaram a matar pretos, mas o que se podia fazer? Eles não morriam sozinhos.

Júlio Pinto, Rol Provisório de Assassínios, inédito

Júlio António Baptista de Araújo Pinto nasceu numa família pequeno -burguesa de Oliveira de Azeméis em 13 de Junho de 1949. Estudou no Colégio dos Carvalhos, onde não aprendeu nada de essencial.

Militante do PCP desde estudante, quando chegou a altura de ir dilatar o império e a fé na guerra colonial, desertou e entrou na clandestinidade. Foi apanhado pela Pide numa paragem de autocarros do Porto, submetido à estátua da praxe na Rua do Heroísmo e mandado de castigo para a Trafaria, de onde veio a fugir alguns meses depois, aproveitando uma saída precária.

No 25 de Abril era funcionário do PCP e um dos responsáveis pela organização do partido no Norte. Durante o PREC trabalhou no gabinete de Correia Jesuíno, ministro da Comunicação Social do IV Governo Provisório. No Verão Quente de 75 casou-se com Sara Ferreira da Silva, sua companheira e cúmplice desde os «tempos da clandestinagem». Passou a lua-de-mel a defender a sede do PCP de Oliveira de Azeméis, atacada por bandos de fascistas.

Após o 25 de Novembro, fez parte da equipa fundadora de O Diário, jornal oficioso do PCP, dirigido por Miguel Urbano Rodrigues. Ali conseguiu fazer publicar, entre outras coisas, uma polémica entrevista com Mário-Henrique Leiria, uma das suas referências literárias essenciais. Outras seriam Alberto Pimenta, Josá Cardoso Pires ou Herberto Helder, com quem gostava de conviver, ao fim da tarde, no Bairro Alto.

Em 1980, a 1 de Outubro, nasceu o seu filho, João. No ano seguinte, entra em conflito com a direcção do PC: a publicação, no semanário O Jornal, de um texto de solidariedade com Carlos Antunes, dirigente do PRP que estava preso e em greve da fome, foi o pretexto para o kafkiano processo político-jornalístico que então se desenrolou e ficou conhecido como «o caso Júlio Pinto».

Despedido de O Diário e expulso do PC perante a passividade da maioria dos seus ex-camaradas e a solidariedade activa dos poucos que sobejaram, vagueou pelos jornais possíveis: O Jornal, O Ponto e O Bisnau, primeiro; o Expresso e o Jornal de Notícias, depois; o Diário Popular, onde se tornou no primeiro jornalista português proprietário de um urso a sério.

Correu Lisboa e a noite de lés-a-lés em busca dos «espaços para a circulação dos afectos». Escreveu poemas que nunca foram publicados. Vendeu enciclopédias e pediu dinheiro emprestado. Sem jornal onde trabalhar, dedicou-se à publicidade. Primeiro na Onken, em Sintra, depois na Comunicar, em Lisboa.

Com os amigos mais cúmplices, fez a Ovelha Negra, suplemento do mensário Combate durante seis números, até que algumas feministas da Rua da Palma acharam que uma piada sobre um «general morto na cama por excesso de generosidade» era uma prosa machista.

© Miguel CasanovaDepois, fundou e dirigiu O Inimigo, «semanário satírico-dependente» que se publicou durante 48 semanas de insónia e desvario. Nas suas páginas deu a conhecer ao povo que «Salgueiro Maia foi condenado a título póstumo» e propôs a construção de uma «estátua ao desertor», entre outras atitudes menos recomendáveis.

Acabado O Inimigo, em 1994, passou a "cronista de escárnio e maldizer" na TSF, ofício que praticou até ao fim da série, em 1998. Na mesma rádio foi um dos animadores do programa «O Estado do Tempo». Trabalhou no Círculo de Leitores como copywriter e colaborou na revista Ler. Pelo meio, inventou a Filosofia de Ponta, com desenhos de Nuno Saraiva, que foi a grande revelação da BD portuguesa nos anos 90, com direito a uma adaptação ao teatro e a um projecto de animação televisiva.

«Marginal de sucesso», como a si mesmo passa a definir-se, parece ter então o devido reconhecimento público. A Bedeteca de Lisboa é inaugurada com uma exposição sobre a Filosofia de Ponta. O ministro Carrilho confessa-se seu admirador. Eduardo Prado Coelho convida-o para almoçar. Ganha prémios que não recebe porque não é "um autor fácil".

N'O Independente, escreveu no «Almanaque», pôs a nu vaidades balofas no «Gremlin Literário», praticou sobre os políticos o humor mais corrosivo em crónicas semanais. À Filosofia, sucedeu-se Arnaldo, o Pós-Cataléptico. E a Guarda Abília. E, mais recentemente, a Missão Portugal e País à Banda. Assinava também uma página semanal de humor no Tal & Qual e escrevia textos para o programa de Nicolau Breyner na RTP. E alimentava projectos, de vida e de trabalho, que já não teve tempo para concluir.

Anarco-gramsciano primeiro, liberal de extrema-esquerda depois, marxista tendência Groucho sempre, participou em lutas avulsas: trabalhando na candidatura de Lurdes Pintasilgo quando aí parecia haver uma nova esperança à esquerda; apoiando o PSR, onde havia uns gajos com piada; ou dando força a João Soares na altura em que percebeu que o presidente da Câmara de Lisboa era algo mais do que um filho do pai.

Continuou, enquanto pode, a frequentar os amigos de sempre: no Largo da Misericórdia, o último reduto tertuliano de Lisboa, na Associação de Moradores de Santo António de Cavaleiros, onde era mestre na arte da sueca, ou em São Martinho do Porto, o seu refúgio dos últimos tempos.

Morreu de hipercalcémia ao fim da tarde de 5 de Outubro de 2000, no Instituto Português de Oncologia, poucos meses depois de lhe ser diagnosticada uma neoplasia. Calçava 43 e foi sepultado no cemitério de Carnide, no dia 7, entre aplausos.

Grande Amadora | 13.Out.2000

Mais sugestões de leitura

  • Saudosa tertúliaOpen or Close

    Verdadeiro mestre de apresentações, Viriato Teles elabora, antecedendo as entrevistas, a descrição das personalidades, define-as biograficamente e expõem-nas no efeito que, presencialmente, lhe provocam . Também no decorrer das entrevistas, para além dos assuntos tratados, o jornalista faz o retrato dos entrevistados, retratos humanos totais, com alegrias e desencantos, projectos e nostalgias, ganhos e perdas. Como o autor já nos habituou, a prosa é quente, reveladora e cúmplice do leitor, como se também este fosse conhecido de Viriato Teles; mais um mistério só possível quando se tem a intuição de um grande escritor.

    Ler Mais
  • A coisaOpen or Close

    Já aqui o disse, e não estou só nesta convicção: a criatura é o que o regime democrático gerou de mais semelhante, em forma e conteúdo, à sinistriste figura de Américo Tomás. Na debilidade intelectual, na vacuidade do discurso, no bolor das palavras, mas também na hipocrisia, no rancor, na perversidade.

    Ler Mais
  • Que grande pedraOpen or Close

    Pela leitura da última edição do Expresso, ficámos a saber que «o Presidente Jorge Sampaio propôs na última semana aos líderes dos quatro maiores partidos a realização de um almoço comum contra a droga.»
    Confesso que a notícia me encheu de curiosidade, quanto mais não seja porque, apesar de já ter assistido a corridas contra o racismo, manifestações contra as propinas, e até a marchas contra os canhões, nunca tinha imaginado que fosse possível fazer almoços contra a droga.

    TSF | 14.Jan.1998

    Ler Mais
  • Chávez: alguns factosOpen or Close

    “Fez algumas coisas boas, mas destruiu a economia”. É este o tom de alguns comentários que podem ler-se um pouco por toda a parte a propósito do falecimento de Hugo Chávez. Como não gosto de falar de cór e guardo comigo algumas manias de velho repórter relativamente ao rigor informativo, sirvo-me da edição online do Expresso de hoje apenas para dar conta de alguns dados concretos sobre os 15 anos de “chavismo”.

    Ler Mais