Uma vida aos quadradinhos

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Publicou a primeira história em quadradinhos com 14 anos, mas começou a fazer fanzines aos oito. Simples na forma de estar, mas rigoroso até à exaustão de pormenor no trabalho que executa, é assim que encontramos José Ruy, «um duplo amador» que bem pode dizer-se em actividade há seis décadas e uma das poucas unanimidades da banda desenhada lusitana.

Nasceu na Amadora, em 9 de Maio de 1930, e aqui vive desde sempre, à excepção de um período de poucos anos que passou em Lisboa, onde estudou, em Belas Artes e na António Arroio, onde concluiu o Curso de Artes Gráficas. Tem publicados 34 álbuns de banda desenhada, sem contar com as centenhas de histórias aos quadradinhos que publicou no Papagaio, n'O Mosquito e no Cavaleiro Andante. Tem uma simplicidade do tamanho do mundo e chama-se José Ruy.

Foi ele o primeiro autor a receber o Troféu Zé Pacóvio e Grilinho de Honra, na edição um do Festival Internacional de BD da Amadora, em 1990. Mas antes disso já a sua obra estava suficientemente divulgada. E produtiva, também. Foi a sua adaptação para bd da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, o impulso primeiro que levou Fausto Bordalo Dias, ainda na infância, a interessar-se pela obra original - que, por sua vez, veio a inspirar o músico para a construção desse incomparável trabalho musical e poético que é Por Este Rio Acima.

«Fiquei muito contente quando o Fausto disse que a 'minha' Peregrinação lhe tinha despertado o interesse para o livro de Mendes Pinto. É gratificante ver a projecção e a utilidade que estas coisas podem ter», diz José Ruy, naquele seu jeito humilde que lhe é característico. Como quando conta o modo como, desde a mais tenra idade, se sentiu atraído pelos «bonecos»:

«Aos oito anos já tinha aquilo a que hoje se chama um fanzine, exemplar único, que circulava pela minha família e amigos que, para o lerem, tinham que pagar meio tostão», diz. «Mais tarde, por volta dos dez anos, tive um jornalzito feito em copiógrafo que o António Cardoso Lopes [o Tiotónio, director d'O Mosquito e autor das personagens Zé Pacóvio e Grilinho, que dão nome aos troféus anuais do Festival da Amadora] me ensinou a fazer. Era mais completo e vendido também a meio tostão. E depois tive outro, já em litografia, pelos 12 ou 13 anos, quando já andava na António Arroio». Assim: «Um dia fui à Litografia Sales e vi lá umas pedras, restos de pedras amontoados aos bocados. Perguntei se mos davam e, com aquilo, fiz um fanzine com preto e uma cor litografada, que chegava a ter 30 ou 50 exemplares. Isto no número 1, porque o número 2 ficou-se pela capa.»

O ritmo dos jornais

A autodisciplina que José Ruy pratica leva-o a publicar dois álbuns por ano, um em cada seis meses. «Quando estou a acabar um, já estou a pensar noutro», diz. Entretanto vê, revê, estuda, pede opiniões alheias. «Tem de haver a humildade suficiente para saber pedir conselhos a quem sabe aquilo que o público procura. Às vezes, pormenores como a cor da capa são muito importantes.»

© José RuyPara isso, insiste, há que criar um ritmo de trabalho rigoroso, o que não significa necessariamente um sistema rígido: «Durante muitos anos trabalhei na banda desenhada só à noite», conta. «Só há 15 anos comecei a fazer um trabalho com mais desenvolvimento e por isso agora faço os tais dois álbuns por ano.» A melhor escola e o seu 'segredo profissional' foram os anos da sua colaboração regular em jornais e revistas: «O ritmo que os jornais exigem do autor tem que ser bem aproveitado.»

Aliás, José Ruy sabe que os jornais desde há muito foram o ponto de partida para muitos autores trabalharem em histórias que, mais tarde, são transpostas para álbum. Foi o que aconteceu a autores como Fernando Relvas ou Nuno Saraiva, para José Ruy um exemplo de como é possível tirar um bom partido das situações que a realidade nos impõe.

Com 69 anos e 34 álbuns no activo, José Ruy pretende continuar fiel ao rumo que traçou para si mesmo há seis décadas: «Vamos fazer uma nova edição d'Os Lusíadas, que já vendeu 70 mil exemplares desde 1984», diz. «E vamos tratar de novas edições, provavelmente também em espanhol e em inglês.»

Actualmente, a edição de álbuns de BD é uma parte natural da vida de José Ruy. Mas nem sempre foi assim: «Quando quis editar a 'Peregrinação' em álbum não havia praticamente nada de autores portugueses editado. A Maribérica tinha publicado o 'Eternus 9', do Vítor Mesquita, mas foi para dizer que era mais do que uma delegação dos franco-belgas. Mas a verdade é que a 'Peregrinação' estava esgotada ao fim de oito meses.»

A paixão dos filmes

Mas a BD não é tudo na vida de José Ruy. Outra paixão são os filmes, mas o que pouca gente sabe é que ele é um cineasta amador de longo curso, com muitas dezenas de películas realizadas:

«Quando era miúdo, eu ía muito ao cinema com os meus pais", lembra. "Depois arranjava quadradinhos de filmes que os cinemas punham fora, juntava-os e fazia filminhos com uma 'lanterna mágica'. Mais tarde, já casado, tive a oportunidade de comprar um máquina de 8 milímetros. E ía filmando, nas viagens que fazia, aqui na Amadora. Depois fazia a montagem daquilo tudo, arranjava uma banda sonora à parte, que sincronizava com o filme, que depois passava para a família.»

Mais tarde passou ao formato super 8 e, depois, aderiu ao vídeo. Tem imagens do Japão, de Casablanca, de Macau, de toda a Europa. Mas foge sempre ao «documentário familiar», prefere «aquilo que rodeia, as curiosidades.» No fundo trata-se de uma outra forma de tirar apontamentos, que depois vem a ser útil nas suas histórias: «Desta maneira captam-se imagens que, de outra forma, nos passariam despercebidos. No ano passado, por exemplo, estive em Bombaim, Goa, Cochim e Delí e fiz uma série de imagens, nomeadamente de um barco de pescadores onde a rede é movimentada com recurso a uma série de contrapesos de pedra. É uma prática de pesca artesanal, antiquíssima, que ainda se mantém. E essas imagens serviram-me já para a história do Pero Vaz de Caminha.»

A Amadora ocupa, naturalmente, um lugar privilegiado na vasta «cinematografia» de José Ruy: «Estou na Amadora desde sempre e tenho umas coisas, sim. Por exemplo uns filmes de quando a minha filha era pequena, feitos na encosta da Mina. Naquela altura ainda não havia aqueles prédios e, dali, via-se a Amadora inteira. Mas isto agora está tudo diferente...»

Grande Amadora | 1999

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