Elogio e memória do Parque Mayer

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Isto que aqui vedes já foi um lugar sagrado. Não que aqui se adorasse uma divindade qualquer, ou que houvesse neste intramuros espaço para o sacrifício de que os deuses, todos, parecem sempre tão sequiosos. Não. Por aqui passaram gerações inteiras, aqui se viveram muitos momentos de ilusão e de glória, que são, como se sabe, faces irmãs da mesma moeda.

A casa que, teimosa, insiste em manter-se de pé no meio deste quase-nada em que o Parque Mayer se transformou é um símbolo vivo desse tempo. Aqui mora ainda hoje o Mário Alberto, pintor e cenógrafo, anarquista e lutador, militante do prazer e sumo-sacerdote da vida. Com sorte poderíamos cruzar-nos com ele numa qualquer tarde – nunca de manhã, que essa fez-se para aplacar o corpo e preparar a alma para a noite que se seguirá – subindo ou descendo a Avenida, em passo lento mas firme e determinado, olhando as mulheres que passam.

O Mário Alberto é o último habitante do Parque, e a sua casa é o templo que sobejou dos dias em que Lisboa fervilhava aqui dentro. Uma catedral a que só alguns eleitos têm acesso, e onde as relíquias dos amores passados se misturam com as marcas dos amigos presentes. Uns e outros são, para o Mário, a razão de ser de tudo. E por uns e por outros fez questão de se manter aqui, como um capitão que só abandona o barco a naufragar depois de todos os outros terem partido.

E, daqui, já partiram quase todos. Uns fizeram-no seguindo as implacáveis leis da vida e da morte, outros foram-se embora em busca do seu caminho para lá destas paredes. Destes e daqueles ficaram as memórias. Dos artistas de outros tempos, mas também dos mais novos, que deram aqui os primeiros passos nas artes de palco. Nos quatro cantos do Parque ecoam os passos de nomes que fizeram história no teatro e no cinema como Vasco Santana, João Villaret, António Silva, Humberto Madeira. De certo modo, todos eles continuam vivos. Na memória dos que ainda por cá andam, e também na herança que deixaram aos de agora.

Hoje, o Parque reduz-se a pouco mais do que o Teatro Maria Vitória – ele próprio renascido das cinzas, depois de um incêndio que quase apagou do mapa este último espaço teatral mayeriano – e a um par de restaurantes que se recusaram a morrer. Noutros tempos, para além de «A Gina» e «O Manel», que atravessaram mais ou menos incólumes os tempos da crise e continuam abertos ao convívio e à degustação, era possível comer bem e beber melhor em casas que tinham nomes que são, eles também, símbolos das várias eras que aqui se viveram: «O Manecas», «Chico Carreira», «Bariedades», «Dominó». À volta da mesa falava-se muito de teatro, mas discutia-se sobretudo a vida, em todas as suas cambiantes.

O restaurante da Dona Mimi, por exemplo, «O Retiro da Amadora», era o poiso preferido de mestre Jorge Amado nas suas passagens por Lisboa. Na verdade, o pai de «Gabriela» tornou-se desde há décadas um ente querido da grande família do Parque, composta por artistas, escritores e vagabundos em proporções diversas, e nem sempre em rigoroso pé de igualdade. Desse tempo contam-se ainda hoje as histórias de Beringela, actor secundário de muitos filmes e artista principal das noites de boémia, que acabou os seus dias como sem-abrigo com tenda montada nos fundos do Parque, refeições garantidas n’«O Manel» e um sentido de humor de que nunca abdicou.

Nesse tempo, o Parque Mayer era um mundo. Pelas suas ruas e vielas, entre as barraquinhas de farturas e de tiro-ao-alvo, o «Cantinho dos Artistas» e vários tascos avulso, passearam-se os maiores mitos do Teatro português. Ainda hoje é impossível falar deles sem pensar imediatamente no Parque e nas mil-e-uma fantasias que aqui nasceram.

Se fordes agora ao Parque, perguntai por Ivone Silva e Eugénio Salvador, Henrique Santana e Luísa Barbosa, Neves de Sousa e Vasco Morgado, Linhares Barbosa e Hermínia Silva. Todos eles são parte integrante deste lugar, todos eles continuam de algum modo vivos na memória das pedras e dos teatros. Tal como vivos continuam os escritores Alexandre O’Neill e Manuel da Fonseca, protagonistas de muitos convívios, porque o Parque foi sempre isto, um lugar de convívio entre poetas, artistas e gente anónima, e é por isso que hoje o Parque já quase não existe, porque já não é um lugar de encontro.

Outros há que ainda aí estão para contar, melhor do que eu, como eram esses dias: falai com actores como Raul Solnado e Maria do Céu Guerra, com autores como Mário Rainho e Francisco Nicholson, com cantores como Anita Guerreiro, Simone de Oliveira, Fernanda Baptista, Maria José Valério, com empresários-de-artistas como Hélder Freire Costa. Eles vos dirão. Ou, se preferirdes, ouvi o que têm para dizer os da última geração de artistas e boémios criada aqui e que continuam empenhados em manter viva a tradição: Maria João Abreu, José Raposo, Alice Pires, Fátima Severino, Paulo Vasco, João Brás, para citar apenas alguns daqueles que põem de pé o único espectáculo actualmente em cena no Parque.

E há as casas, as que sobraram: restos de teatros, como o Variedades e o Capitólio, o finado restaurante de Dona Mimi, os escombros das barracas-de-feira que ajudavam a animar os dias e sobretudo as noites sem igual do Parque Mayer. Todas elas têm histórias que dariam para horas intermináveis de conversa. Todas elas, e as outras, as que já não existem a não ser na memória de quem nelas viveu e amou e sofreu.

E é por isso que a casa, esta que insiste em manter-se de pé no meio deste quase-nada, a casa do Mário Alberto, parece existir para provar que há homens e mulheres que nunca se rendem. Para lá dos risos e das lágrimas, o Parque Mayer é um mundo de lembranças várias. E, à semelhança da Lisboa de que faz parte, também ele não deixará nunca de ser o que é, mesmo já não sendo o que foi. Sim, este espaço já foi um lugar sagrado. E, se calhar, ainda é.

Zoot | Primavera 2006

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