Isabel e a medalha

icarmo1.jpg

Nasceu no Barreiro, numa família marcada pelos valores da liberdade e do antifascismo. O pai, João do Carmo, era poeta e activista dos círculos locais de combate à ditadura. Dele herdou, talvez, o amor pelo sonho e o sabor da utopia, que a acompanham desde sempre. Tal como a vontade de ser útil, e participante activa nas lutas sociais e políticas do seu tempo.

Salazar eternizava-se no poder, e Portugal atrofiava na pequenez opressiva desses tempos. Muito cedo, Isabel do Carmo compreendeu que era tempo de agir: aos 17 anos já lutava contra a ditadura, e a Crise Académica de 1962 deu-lhe as primeiras notas de protagonismo.

Mas as formas de resistência que então se praticavam eram-lhe insuficientes. O alinhamento pró-soviético do PCP não lhe agrada, mas também não se revê nas correntes maoístas e trotskistas que começam a surgir. E é assim que, em 1970, ela está na primeira linha da criação das Brigadas Revolucionárias, ao lado de Carlos Antunes, que mais tarde há-de tornar-se o seu companheiro de muitos anos.

Depois veio Abril, e abriu-se a porta de todos os desejos. A poesia está na rua, e Isabel está com ela. Faz parte da direcção do PRP, força política que aposta nas organizações de base, nos movimentos de trabalhadores e de soldados, nas ocupações de fábricas e de casas.

Anos depois, vai pagar o preço desse empenhamento, cumprindo quatro anos de prisão no primeiro grande processo político em tempo de democracia. Acabou por ser absolvida de todas as acusações, mas pelo caminho ficaram as marcas de um período doloroso: o filho, Sérgio, passa os primeiros anos de vida em Custóias, ao lado da mãe; a filha, Isabel como ela, está na escola primária e assiste, impotente, à odisseia do cárcere, das greves de fome e do julgamento.

A família volta a reunir-se após a libertação de Isabel do Carmo e Carlos Antunes, em 1982. O processo arrasta-se em tribunal por mais alguns anos, mas Isabel não desiste de lutar por aquilo em que acredita. Envolve-se com movimentos alternativos, ecologistas e pacifistas. Escreve livros, relata as suas experiências. Completa o doutoramento e torna-se uma voz respeitada e escutada no meio científico.

Nos últimos anos, Isabel do Carmo dedicou-se sobretudo à Medicina, mas continua a estar atenta e a participar na vida social e política do país. Hoje, como nos anos quentes, acredita que mais vale lutar por uma causa perdida do que não ter causa nenhuma.

Trinta anos depois de Abril, o país está em paz com o passado, pelo menos o suficiente para reconhecer o contributo de pessoas como Isabel do Carmo na conquista da democracia. O Presidente da República distingue-a com a Ordem da Liberdade, numa cerimónia onde volta a ser protagonista sem querer. Porque, afinal, as vozes insubmissas nunca deixam de ser incómodas.

Sic 10 Horas | 5.Mai.2004

Mais sugestões de leitura

  • Grândola no mundoOpen or Close

    Grândola no mundo, a várias vozes e em diferentes ritmos.

    Porque Abril também se canta em estrangeiro.

    Ler Mais
  • Mãos de falaOpen or Close

    Tem uns olhos grandes, profundos, penetrantes. E as mãos. As mãos que, em palco, criam um espaço próprio dentro do cenário, tornam-se, à conversa, num elemento do diálogo, tão intenso como cada vocábulo, cada sorriso, cada momento. Tem uns olhos grandes e chama-se Juliette Greco. Ou Jujube, segundo a sua autobiografia. É uma latina orgulhosa, e canta. Boris Vian, Jacques Brel, Prèvet, Ferré. “Canto sempre aquilo de que gosto e, por isso, não tenho canções preferidas”, frisa.

    Ler Mais
  • Alípio ou O milagre da vidaOpen or Close

    Alípio Cristiano de Freitas era um homem vulgar que se entregou ao destino invulgar de proclamar a fé em Deus como inseparável da fé nos homens. Que são deuses, também, assim o queiram – mas poucos se atrevem. Alípio atreveu-se. Viveu, sentiu, sofreu e sonhou em grau superlativo, esteve nos lugares onde era preciso sempre que era preciso, e nos outros também. Não consta que se tenha arrependido.

    Palavras de Amigos para Alípio de Freitas
    Edições Pangeia, 2017

    Ler Mais
  • O fumo e o fogoOpen or Close

    Acabo de ler esta história, e apetece-me acender um cigarro. Não é politicamente correcto dizê-lo, e menos ainda fazê-lo: o higienismo e a lei, ou vice-versa, dizem que fumar mata. Claro que a vida também mata, e em meio século de existência ainda não conheci ninguém que lhe conseguisse sobreviver. Mas isso não é preocupação dos legisladores, empenhados que estão em conseguir que morramos todos cheios de saúde.
    Pouco importa. Este aparente desacerto da prosa vem a propósito de mais uma ficção que Nuno Gomes dos Santos agora dá a conhecer em forma de livro.

    Prefácio a Reserva de Fumo, de Nuno Gomes dos Santos | 2009

    Ler Mais