Ler, ouvir e contar

opmag250.jpg

De todos os registos discográficos editados este ano em Portugal, poucos terão suscitado tão grande expectativa como «A Ópera Mágica do Cantor Maldito». Desde logo pelos nove anos que o separam do anterior disco de originais de Fausto, «Crónicas da Terra Ardente», mas também pelo sigilo que rodeou a sua preparação. Na verdade, só mesmo os amigos mais próximos do compositor sabiam há muito que havia um novo trabalho na forja, mas mesmo entre estes poucos saberiam do que realmente se tratava.

Discreto, como é seu timbre, Fausto Bordalo Dias passou a maior parte do ano que está prestes a findar na preparação deste disco. Um cuidado que se compreende, tendo em conta toda a sua obra passada e o nível de exigência que fez de Fausto um dos nomes mais respeitados da música popular portuguesa. E que se justifica também pela temática deste novo trabalho, pela complexidade que o envolve e pela forma como se desenvolve.

Muitos serão tentados, até pelo título, a imaginar este disco como uma obra de cariz autobiográfico. Puro engano, ainda que não um engano inocente. Na realidade trata-se de uma história em dezasseis capítulos, tantos quantas as canções que integram o CD, com três personagens centrais (o «cantor maldito», a «filha do coronel de lápis-azul» e o «agiota») que se cruzam em diversos cenários e em diferentes tempos.

Esta «Ópera Mágica» começa como um filme, onde nem sequer falta um pré-genérico («O Redil») que nos remete para as «insanas madrugadas» do nosso passado recente. A história propriamente dita surge a partir do segundo tema («Era uma vez um cantor maldito», onde Fausto traça um resumo de todo o enredo), contada a várias vozes (o cantor, a mulher, o agiota, os coronéis-de-lápis-azul), de acordo com as diferentes perspectivas de cada um.

Há, ao longo de todo este disco, um olhar distanciado, mas nunca distante, sobre a história portuguesa dos últimos trinta anos: as lutas, os desencantos, as ilusões, a formatação das consciências, os pós-modernismos vazios de sentido, a submissão ao pensamento único, as modas mais ou menos fugazes. E há, também, claro está, alguns ajustes de contas: com os novos censores, com os arrependidos do sonho, com os mangas-de-alpaca da cultura neo-liberal. E mais uns quantos, que talvez nem se dêem conta de que estão aqui.

Trata-se, como o autor explica na contracapa do libreto, de «pura ficção», já que «qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência». Uma ficção em que Fausto se reencontra com o passado, marcada por uma dose não dispicienda de humor (o «comunicado aos trabalhadores», reproduzido na abertura do CD, ilustra bem o espírito reinante na época dourada da canção de intervenção) e também, como é costume em Fausto, por um extremo rigor de linguagem musical e poética.

Como acontece com todos os seus registos anteriores, também este é um disco que não permite desatenções. E que, além de ser ouvido, deve igualmente ser lido com cuidado, sob pena de o essencial ficar por perceber. Porque, está claro, este não é um disco fácil, nem vocacionado para os espíritos mais simples. Mas não será esse, afinal, o grande fascínio da obra de Fausto Bordalo Dias?

Jornal de Letras | 24.Dez.2003

Mais sugestões de leitura

  • Maria Teresa HortaOpen or Close

    Uma mulher que gosta de ser mulher e por isso não se conforma com aquilo que dizem ser o destino das mulheres. E por isso luta, e por isso escreve, e por isso grita. Eis Maria Teresa Horta, mulher e escritora que a partir dos anos 60 se afirmou como uma voz central da poesia portuguesa, pela coragem de romper com estereótipos e tabus que pareciam inquestionáveis.
    O corpo, o prazer, o sexo, eram então coisas sobre as quais uma senhora não deveria falar, muito menos em público. E por isso quando, em 1972, se junta a Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa para a publicação das Novas Cartas Portuguesas, o escândalo foi tremendo: o livro foi apreendido e as autoras levadas a julgamento.

    Ler Mais
  • Crise? Qual crise?Open or Close

    Para além do disco de 1975 dos Supertramp, a interrogação que dá título a esta crónica remete-nos também para o episódio que constituiu a gota de água para a demissão, há 30 anos, do primeiro-ministro britânico James Callaghan. A Grã-Bretanha vivia então o seu “inverno do descontentamento” e a frase, utilizada em título de primeira página pelo The Sun e atribuída a Callaghan, provocou a ira de milhares de ingleses que sentiam na pele os efeitos da crise económica que se arrastava desde os primeiros anos da década de 70. Dois meses depois, o governo de Big Jim sucumbia a uma moção de censura no parlamento, e os trabalhistas teriam de esperar quase duas décadas para regressarem ao poder.

    Zoot | Verão 2009

    Ler Mais
  • A culpa é do ManelOpen or Close

    Num tempo em que se abatem inutilmente tantas árvores para dar à estampa as mais incríveis aberrações paraliterárias, sabe bem ler uma prosa tão escorreita, tão depurada e sobretudo tão honesta como a deste Daniel Abrunheiro. Que navega com igual à-vontade no registo poético de «Pomba» como no tom vagamente surreal de «Máscara», atento à realidade sem se tornar seu escravo, capaz de ordenar o mundo de trás para a frente sem que o mundo deixe de fazer sentido.
    Estes textos de Daniel Abrunheiro revelam um autor que conhece bem o valor dos silêncios que tantas vezes se escondem por trás das palavras. E que sabe, tal como diz uma das suas personagens, que o ruído não é mais do que «o silêncio que não sabemos ler». Aprendamos, então.

    Posfácio a Cronicão, de Daniel Abrunheiro | 2003

    Ler Mais
  • Portugal dos pequeninosOpen or Close

    No dia em que morreu Óscar Lopes (...) na «mensagem de pesar» enviada à família do filólogo e mestre maior da língua pátria, o dr. Cavaco Silva refere-se-lhe como «historiador», relegando para segundo plano a sua obra maior como linguista, professor e crítico literário. Compreende-se: Óscar Lopes foi autor, com António José Saraiva, da mais importante História da Literatura Portuguesa. Cavaco, com o seu saber wikipédico de leitor de badanas, limitou-se a somar dois mais dois.

    Ler Mais