Ler, ouvir e contar

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De todos os registos discográficos editados este ano em Portugal, poucos terão suscitado tão grande expectativa como «A Ópera Mágica do Cantor Maldito». Desde logo pelos nove anos que o separam do anterior disco de originais de Fausto, «Crónicas da Terra Ardente», mas também pelo sigilo que rodeou a sua preparação. Na verdade, só mesmo os amigos mais próximos do compositor sabiam há muito que havia um novo trabalho na forja, mas mesmo entre estes poucos saberiam do que realmente se tratava.

Discreto, como é seu timbre, Fausto Bordalo Dias passou a maior parte do ano que está prestes a findar na preparação deste disco. Um cuidado que se compreende, tendo em conta toda a sua obra passada e o nível de exigência que fez de Fausto um dos nomes mais respeitados da música popular portuguesa. E que se justifica também pela temática deste novo trabalho, pela complexidade que o envolve e pela forma como se desenvolve.

Muitos serão tentados, até pelo título, a imaginar este disco como uma obra de cariz autobiográfico. Puro engano, ainda que não um engano inocente. Na realidade trata-se de uma história em dezasseis capítulos, tantos quantas as canções que integram o CD, com três personagens centrais (o «cantor maldito», a «filha do coronel de lápis-azul» e o «agiota») que se cruzam em diversos cenários e em diferentes tempos.

Esta «Ópera Mágica» começa como um filme, onde nem sequer falta um pré-genérico («O Redil») que nos remete para as «insanas madrugadas» do nosso passado recente. A história propriamente dita surge a partir do segundo tema («Era uma vez um cantor maldito», onde Fausto traça um resumo de todo o enredo), contada a várias vozes (o cantor, a mulher, o agiota, os coronéis-de-lápis-azul), de acordo com as diferentes perspectivas de cada um.

Há, ao longo de todo este disco, um olhar distanciado, mas nunca distante, sobre a história portuguesa dos últimos trinta anos: as lutas, os desencantos, as ilusões, a formatação das consciências, os pós-modernismos vazios de sentido, a submissão ao pensamento único, as modas mais ou menos fugazes. E há, também, claro está, alguns ajustes de contas: com os novos censores, com os arrependidos do sonho, com os mangas-de-alpaca da cultura neo-liberal. E mais uns quantos, que talvez nem se dêem conta de que estão aqui.

Trata-se, como o autor explica na contracapa do libreto, de «pura ficção», já que «qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência». Uma ficção em que Fausto se reencontra com o passado, marcada por uma dose não dispicienda de humor (o «comunicado aos trabalhadores», reproduzido na abertura do CD, ilustra bem o espírito reinante na época dourada da canção de intervenção) e também, como é costume em Fausto, por um extremo rigor de linguagem musical e poética.

Como acontece com todos os seus registos anteriores, também este é um disco que não permite desatenções. E que, além de ser ouvido, deve igualmente ser lido com cuidado, sob pena de o essencial ficar por perceber. Porque, está claro, este não é um disco fácil, nem vocacionado para os espíritos mais simples. Mas não será esse, afinal, o grande fascínio da obra de Fausto Bordalo Dias?

Jornal de Letras | 24.Dez.2003

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