O homem e as cidades

Era uma vez um homem que gostava de cidades. A biografia de Manuel Graça Dias, arquitecto nascido em Lisboa no ano de 1953, podia começar assim. E não apenas pelo livro que acabou de publicar, justamente intitulado O homem que gostava de cidades, onde reúne uma mão cheia de crónicas que fez para a TSF durante muitas dezenas de semanas.

“Eram temas que me interessava divulgar e discutir, muitas vezes não são situações muito profundas ou de grande complexidade, mas são situações relativamente óbvias para nós, arquitectos, mas que se tornam um pouco herméticas para quem está de fora. A minha tentativa foi a de mostrar que as coisas não são tão complicadas quanto isso.” Divulgar as questões da arquitectura de todos os dias, eis uma das suas ambições, que o levara já a reunir outro conjunto de crónicas sob o título A vida moderna.

Para o arquitecto, esta é quase como que “uma extensão do trabalho como professor”, funções que exerce desde 1985, altura em que se iniciou como assistente da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa. Actualmente lecciona como professor convidado na Faculdade de Arquitectura do Porto, na Universidade Autónoma e no Politécnico de Milão.

A relação da arquitectura com o homem deve ser uma coisa natural, harmónica  e condizente com o tempo em que se vive. É nesta perspectiva que Manuel Graça Dias desenvolve o seu trabalho, paulatinamente, desde que se licenciou, na ESBAL, no já longínquo ano de 1977. Tem horror ao lugar comum, no discurso como na prática:

“Todos nós vivemos em cidades, as pessoas beneficiam do facto de viverem em grupo, mas muitas vezes as ideias que se transmitem são perfeitamente banais. É como quando se fala da ‘selva de betão’. São expressões que, de tão repetidas, acabam por ser usadas um pouco acriticamente. É evidente que as cidades têm muitos defeitos, mas também têm muitas virtudes, e é estas que é preciso descobrir para que as pessoas não vivam a pensar que está sempre tudo mal, ou que há um sítio qualquer maravilhoso num lugar do universo sem nunca gozarem plenamente aquilo que efectivamente temos.”

É no seu atelier, Contemporânea, que criou em 1990 com o seu antigo aluno e actual sócio – Egas José Vieira, nove anos mais novo – que Manuel Graça Dias desenvolve as ideias que tem para os lugares. O primeiro grande projecto que ambos desenvolveram, em 1989, foi para o Pavilhão de Portugal para a Expo 92, em Sevilha, um espaço inovador que suscitou paixões e polémicas em idêntica proporção. Mas, apesar do carácter efémero da obra, o principal ficou: a afirmação do talento de dois arquitectos então ainda bastante jovens.

De então para cá, a Contemporânea não parou. Juntos, Graça Dias e Egas Vieira fizeram o projecto da nova sede da Associação dos Arquitectos Portugueses, no edifício emblemático dos Banhos de São Paulo, em Lisboa. Autores do polémico “estudo de reconversão urbana do estaleiro da Lisnave”, em Almada, os dois arquitectos ocupam-se actualmente dos projectos do novo campus universitário privado do Monte da Caparica e do Teatro Municipal de Almada, um conjunto habitacional de 427 fogos em Guimarães e o novo edifício sede do semanário Expresso, em Lisboa.

“Toda a gente vive em casas e a maior parte das casas estão nas cidades”, afirma Manuel Graça Dias. “E toda a gente tem ideias sobre as casas, ideias de arquitectura. A arquitectura limita-se a tentar organizar a vida das pessoas. Quando, em casa, arrumamos as peúgas numa gaveta e as camisas noutra está-se a fazer um acto de racionalização da vida para que, de manhã, não seja tão penoso andar à procura da roupa. A arquitectura é essa lógica de racionalização para organizar as nossas vidas.”

Uma lógica que, diz o arquitecto, às vezes é vítima de “alguns equívocos”. Um exemplo: “a questão do funcionalidade, de que hoje se fala muito”, aponta. “E as coisas nem sempre passam por aí, embora a arquitectura tenha que funcionar, evidentemente. O que nós fazemos é clarificar isso, com a consciência de que há outras coisas que entram em linha de conta. Há a influência de inúmeros factores que interferem neste trabalho, desde o local, o espaço em volta, as características de cada lugar, e é isso que faz da arquitectura um ofício muito interessante – porque se fundamenta muito na capacidade de sintetizar os problemas todos, as variáveis todas que ele contém, e conseguir construir um objecto que responda ao grosso das questões, valorizando até umas que possam ser desvalorizadas por outras pessoas.”

Relativamente ao panorama nacional da construção e da arquitectura, duas faces de uma mesma questão que, no entanto, nem sempre se coordenam como deviam, Graça Dias tem uma visão muito clara e tranquila: “O mercado do imobiliário, neste momento, está muito entregues não a arquitectos mas a construtores civis, a desenhadores, a engenheiros, a uns arquitectos manhosos”, afirma. “O grosso que é posto no mercado são coisas sem grande interesse. E no entanto a cozinha está perto da sala, a casa de banho funciona e é possível viver ali. O que nós dizemos é que, era possível fazer uma situação mais interessante, com as mesmas coisas, o mesmo dinheiro, o mesmo esforço.”

Status (Semanário Económico) | Out/Nov 2001

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