O homem que aprendeu a voar

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Um dos sítios mais bonitos do meu mundo fica nas Astúrias, numa aldeia de Villaviciosa, a norte da Cordilheira Cantárbica, aonde se chega atravessando longos quilómetros de túneis e de névoa. Perdida entre as montanhas e o mar, que não se vê dali mas está perto, Labares é um pedaço escondido do paraíso, deixado intacto pelo Criador para lembrar aos homens que é possível viver em harmonia.

Ali, por artes que só os locais conhecem, a maçã do pecado original transforma-se na mais saborosa sidra de que há conhecimento. O segredo não está tanto na bebida em si, mas nos rituais mágicos que a acompanham e que fazem das bodegas da região verdadeiros locais de celebração da amizade e de partilha de afectos, simbolizada no copo que roda entre os presentes e de que se verte sempre o resíduo final, em jeito de deferência para com o bebedor seguinte. Disso sabe o velho Manolín, grande figura de Villaviciosa e conhecedor como poucos de todos os mistérios líquidos do principado, com quem erguemos a primeira taça.

Estamos com José Luis Posada*, cubano nascido nas Astúrias, lutador lendário, pintor em plena actividade e homem de muitas memórias que reencontrei em Labares. Foi aqui, numa antiga escola primária, com vista para uma paisagem de montes e de silêncios, que Posada construiu o seu lugar de recolhimento do mundo, após 70 anos de andanças e de sonhos. Em Labares guarda as suas lembranças originais, sem rancor mas com nitidez. Muita da sua pintura regista as imagens e as sombras da guerra civil, metade da aldeia fuzilada pelas tropas franquistas, a fuga com o pai, soldado republicano, primeiro para França, depois para Cuba, junto com centenas de outros refugiados.

Só voltou a Espanha depois da morte de Franco, era então já um cubano assumido e orgulhoso, nome feito nas artes do seu país de adopção e projectado além fronteiras, a vida cheia de histórias. Agora, José Luis Posada passa alguns meses por ano em Villaviciosa e o resto do tempo em Havana. E não se arrepende de nada do que fez: os amores que teve, as opções de vida, as lutas a que se entregou. Podia ter sido um rico homem de negócios, mas preferiu ser pintor. Militante da frontalidade, disse sempre o que pensava, mesmo quando os burocratas tentaram dar outro rumo à revolução de que se orgulha e em que participou.

Posada fala-me das suas histórias sem artifícios nem falsas grandezas, mas com a consciência de quem sente que fez o que tinha a fazer. Por isso não abdica de ser um homem de dois lugares, ambos seus por direito e por afecto. Em Villaviciosa convive com Manolín e outros amigos que cultiva com empenho, mas pode passar dias a fio sozinho, a pintar ou simplesmente a olhar em volta. Em Havana vive de modo semelhante, no seu apartamento da Praça da Catedral, onde tem por vizinhos Gabriel García Márquez e La Bodeguita del Medio, o mais famoso bar das Caraíbas. Por isso conhece tão bem os segredos do arroz moro, base da cozinha cubana, como os da fabada, orgulho da gastronomia asturiana.

É sabido que pertencemos aos lugares onde nos sentimos bem. Em Labares ou em Havana, Posada está bem porque é um homem tranquilo. Ele sabe que o mundo já não é o que era, está consciente de que o tempo do sonho acabou e de que os vindouros vão enfrentar lutas ainda mais difíceis do que as dele. E reconhece, olhando para o que viveu junto dos seus: «Fizemos muitas coisas tontas, fomos ingénuos, frequentemente falhámos...» Mas é com um brilhozinho nos olhos e uma tranquila firmeza, que o ouço rematar a conversa:

«Mas nós voámos!»

Tempo Livre | Maio 2002

* José Luís Posada nasceu em Villaviciosa, Astúrias, a 10/2/1929, e faleceu em San Antonio de los Baños, Cuba, a 25/1/2002

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