O Parque da ilusão

Ainda não há muitos anos, qualquer forasteiro de passagem por Lisboa não conseguia divertir-se a sério sem passar pelo Parque Mayer. Durante décadas, este lugar vizinho da central Avenida da Liberdade foi a alma da boémia lisboeta. Actores e fadistas, coristas e intelectuais, jornalistas e vadios misturavam-se em doses desiguais nos teatros, bares e cabarets que davam cor àquele espaço.

As novas ofertas lúdicas entretanto colocadas à disposição dos lisboetas, ditaram o declínio do Parque, mas não mataram a sua mística. Espaço privilegiado do coração da cidade, tem despertado ciclicamente a cobiça dos especuladores imobiliários e também dos líderes políticos que, em cada disputa eleitoral, o usam como argumento no espectáculo da caça ao voto.

Ao longo dos tempos, o Parque foi mil vezes redesenhado e serviu de inspiração a muitos criadores, que para ali idealizaram diferentes projectos que nunca passaram do papel. Dos portugueses Carlos Ramos e Vieira de Almeida ao britânico Norman Foster e ao canadiano Frank Gerhy, muitos foram os arquitectos que já imaginaram um novo Parque Mayer. Em vão: mesmo decadente, o Parque resiste à mudança. Ou outros resistem por ele.

O princípio

A história do Parque remonta ao princípio dos anos 20 do século passado, quando o autor e empresário teatral Luís Galhardo adquiriu o Palácio Lima Mayer, um majestoso edifício ladeado de um não menos imponente jardim, construído em 1902 e distinguido com o primeiro Prémio Valmor de Arquitectura.

Galhardo sonhava criar em Lisboa um novo local de espectáculos e o parque adjacente ao palácio parecia reunir as condições ideais para o efeito. Além disso, o espaço tinha já antecedentes lúdicos: anos antes, tinha funcionado no palácio o Clube Mayer, dedicado ao jogo e aos espectáculos de variedades.

E foi assim que, em conjunto com outros empresários lisboetas, inaugurou em 1922 um recinto de diversões que recebeu o nome de Avenida Parque. Mas, para os lisboetas, o lugar ficou sempre ligado à memória do seu primeiro proprietário, e a designação Parque Mayer acabou por se impor naturalmente. Até hoje.

O teatro

O primeiro teatro que surgiu no Parque Mayer é também o último a permanecer de pé. Foi o Teatro Maria Vitória, que abriu as suas portas poucas semanas após a inauguração do Parque, e por cujo palco passaram alguns dos maiores mitos o teatro português, e não só: a fadista Amália Rodrigues, por exemplo, cantou pela primeira vez com o xaile negro que se tornou a sua «imagem de marca» num espectáculo do Maria Vitória, em finais dos anos 30, quando era ainda praticamente uma desconhecida.

O Teatro Variedades, o Capitólio, o Teatro Recreio e o ABC, surgidos nos anos seguintes, ajudaram a consolidar a fama do Parque Mayer como centro do teatro popular. A «pequena Broadway portuguesa», como provincianamente houve quem lhe chamasse.

A principal actividade artística do Parque foi sempre o «teatro de revista», um género de vaudeville característico de Lisboa. Mas não só. Foi também aqui, no Teatro Capitólio, que em 1974 Lisboa assistiu a um clássico do cinema porno, «Deep Throat», cuja exibição, no contexto da então recém-conquistada democracia, foi vista por muita gente como uma verdadeira celebração da liberdade.

O presente e o futuro

As ideias de renovação do Parque Mayer não são de agora. Os primeiros projectos de transformação deste espaço surgiram passados escassos vinte anos sobre a sua criação. Uma proposta de 1940 previa o alargamento do Jardim Botânico de Lisboa, e nesse sentido apontava para a demolição da totalidade das construções do Parque, à excepção do Capitólio. Este teatro, desenhado pelo arquitecto Cristino da Silva em 1929 e inaugurado em 1931, foi a primeira construção modernista de Portugal e o primeiro edifício de Lisboa a utilizar estruturas de betão.

Ao longo dos anos diversas outras propostas se sucederam, mas o facto de ser um espaço público pertencente a uma empresa privada impediu que algumas das ideias mais interessantes (mas certamente menos lucrativas do que outras) pudessem ser postas em prática.

E é assim que o Parque Mayer dos dias de hoje surge perante o olhar do visitante como um lugar arruinado, onde apenas sobrevivem dois restaurantes, um teatro e a casa de Mário Alberto – cenógrafo e pintor que é desde há anos o único habitante do recinto. A mística do lugar, porém, permanece. Para o escritor Baptista-Bastos, é «uma reserva de mitos», espécie de memorial da era dourada do teatro português. E os lisboetas continuam a olhar para o Parque como um lugar de fronteira entre o excesso e a temperança, a fantasia e a realidade, o pecado e a virtude.

Com o declínio natural do teatro de revista – actualmente confinado ao Teatro Maria Vitória – e o fim inevitável da antiga boémia, o Parque Mayer perdeu o brilho de outras eras e não falta quem o julgue condenado a desaparecer. Puro engano: afinal, este foi sempre um lugar de imaginação. Que, como se sabe, é coisa que nunca morre.

Mini International | Março 2007

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