O silêncio é uma forma de censura

«E posto que viver me é excelente, cada vez gosto mais de menos gente.» A frase é do Professor Agostinho da Silva, mas Paulo de Carvalho adoptou-a como sua, e até já a pôs em música - numa canção que há-de fazer parte de um disco a sair daqui por algum tempo. Com 58 anos de idade e 43 de cantigas, este autor e intérprete de tantos temas fundamentais da música portuguesa continua activo e cheio de projectos, apesar do ostracismo a que nos últimos tempos se sente votado pelas rádios e televisões. E recusa-se a alinhar no espectáculo deprimente de uma sociedade onde tudo se vende por qualquer preço. Sem papas na língua, não se socorre de meias palavras para dizer o que lhe vai na alma. Porque se recusa a perder a capacidade de indignação e, olhando em volta, não gosta daquilo em que o seu país se transformou, mais de 30 anos passados sobre uma revolução que teve como primeira senha uma canção cantada por ele. Mas faz questão de manter inalterado o sentido de humor, que o leva muitas vezes a rir-se de si mesmo, que "é uma das formas de irmos vivendo com uma certa saúde mental".

- "Cores do Fado", o teu disco mais recente, saiu há quase um ano, mas não me parece que tenha sido muito falado...

- Nenhum dos meus últimos discos foi muito falado. E posso dizer que mais ou menos de dois em dois anos são editados discos meus. Um dos melhores discos que eu fiz até hoje chama-se "Mátria" e foi editado em 1999. Foi um disco pelo qual me pagaram bastante dinheiro provavelmente para o terem na prate-leira, porque não fizeram a mais pequena promoção. A casa que o quis comprar - porque era uma edição de au-tor, e depois houve uma editora multinacional que quis o disco - pagou-me bem: não só o dinheiro já gasto na produção, mas também um bom adiantamento. E nem promoção lhe fizeram!

- Como é que essas coisas se explicam?!

- Não faço ideia. Aliás, minto: faço ideia, só que não tenho provas para dizer a ideia que faço. Depois desse saiu um outro, quando fiz 40 anos de profissão, um disco muito bonito, muito bem tratado, editado pela Movieplay com comentários de várias pessoas e músicas escolhidas pelo José Niza - e também não se passou nada. E em Outubro de 2004 saiu este "Cores do Fado", que tem alguns fados feitos propositadamente para esse disco, e outros que fiz para outras pessoas e que recantei, diga-mos assim. Também saiu sem que qualquer tipo de promoção fosse feita. E portanto é complicado as pessoas gostarem do que eu estou a fazer, porque não conhecem...

- E as rádios, hoje, passam pouquíssima música portuguesa...

- O José Gil (que é um pensador que eu leio e que deve estar a escrever umas coisas que são verdades porque está a ser muito atacado) diz uma coisa parecida com isto: como é que as pessoas, não gostando de si próprias, podem gostar umas das outras? Eu revejo-me nesse pensamento há muitos anos. A rádio não passa? Pois não. E porque é que rádio há-de passar?! Então, ao fim destes anos todos, a malta que está nas rádios, de um modo geral, tem menos de 30 anos, o 25 de Abril foi há 31 e a maior parte do pessoal que tem hoje 15-16 anos não faz ideia do que isso foi nem para que é que serviu... Então porque é que a rádio há-de passar música portuguesa? Claro que não passa! Passa aquela que negoceia com as editoras. Daí que, quando nós vamos ouvir a pouca rádio que passa alguma música portuguesa, vemos que são sempre os mesmos quatro ou cinco! Ou na área do fado ou da dita música ligeira, são sempre os mesmos...

- Aqui há uns anos foi feita uma primeira lei dita de protecção da música portuguesa que nunca foi regulamentada...

- Eu estava lá, era um dos - salvo erro - treze que estavam nas bancadas da Assembleia. E acho muita graça: o que é que pretendem fazer com esta? A outra já está feita e nunca foi cumprida!

- ... e houve até um director de uma rádio - na altura uma estação pública - que disse várias vezes para quem o quis ouvir que não ia cumprir a lei...

- E nunca foi preso! Agora, o que é estranho é que, de repente, voltámos ao mesmo tipo de conversa, parece que estou a ver quase as mesmas pessoas a falarem dos mesmos problemas... Há dias ouvi um debate no Canal Parlamento e só não me desatei a rir porque é realmente uma coisa muito triste: são os mesmos problemazinhos, as mesmas conversas... Isto é um problema que, em meu entender, é complicado de se resolver por obrigação. O Zeca Afonso só passa na rádio quando faz anos que morreu, ou o então o "Grândola, Vila Morena" de 24 para 25 de Abril! Andamos a falar de quê? Obrigatoriedade? Baixar o IVA nos discos, por exemplo, isso sim! Não pôr os instrumentos como artigos de luxo, isso sim! E depois não me venham dizer que existe música "pimba". O país, neste momento, é que está "pimba"! Portanto, é natural que a maioria da música se aproxime de qualquer coisa que, culturalmente, tem um nível muito baixo. Porque as pessoas precisam de ganhar a sua vida, e facilitam - até porque, hoje em dia, a qualidade dos músicos mede-se pelo número dos discos vendidos. E, não entrando por esses caminhos - porque não quero entrar - não me mostro: não estou nos sítios, não estou nas revistas, não faço nada por isso...

- E também não apareces na televisão...

- Pois não, porque a televisão hoje em dia não paga aos artistas. Ora, se não me pagam para ir trabalhar, se não me respeitam, eu vou dar o quê às pessoas? Há um ou dois programas que ainda é possível discutir em termos de um cachet, reduzidíssimo. Mas o problema não é a quantidade de dinheiro, é o acto em si: pagar pelo nosso trabalho, sobretudo quando vou cantar - ou, pior ainda, fingir que canto, a questão do playback... Se vou preencher um tempo que depois é pago com rios de dinheiro da publicidade, e vou preenchê-lo com o meu trabalho, têm de me pagar. Isso faz de mim uma pessoa não grata? Pois faz. Perco muitas coisas com isto? Não sei se perco se ganho, quando o balanço final for feito logo se vê se perdi ou se ganhei. Agora, imediatamente, sei que estou a perder. Tenho as dificuldades inerentes a uma pessoa que tem pouco trabalho, por exemplo. E não o escondo, não me armo em "artista" nem venho dizer que está tudo bem, está tudo maravilhoso. Não, não está. Está tudo mais ou menos bem para meia dúzia. O resto tem problemas complicados de trabalho, e deve haver muita gente que já anda aí mesmo aflita.

- Dá-me a impressão de que o Paulo de Carvalho está com algum desencanto...

- Não há desencanto, eu sou é realista. Há pessoas que dizem que estou amargo, que estou azedo, pessimista... Ora eu creio que o pessimista é um optimista, só que com experiência. Eu falo do que me rodeia, e o que me rodeia não são coisas muito bonitas, só não vê quem não quer...

- O país ficou cinzento?

- O país não está cinzento, está parado. Estou numa fase que tem muito a ver com o pensamento de um dos portugueses de que mais gosto, o Professor Agostinho da Silva, que dizia o que eu digo agora de Portugal: "Nós não estamos para nadar, estamos para boiar." Porque os que tentam "nadar", neste momento, são aqueles a quem interessa aparecer nas capas das revistas, os que fazem aquilo a que nós chamamos "fugas para a frente". E que vivem de uma forma que não me parece que seja a mais correcta. Eu não alinho nessas coisas, e por isso não ando a exibir os filhos e a casa nas revistas - a não ser que faça sentido em termos profissionais. E isto paga-se, não é? Paga-se pelo silêncio, que é a nova forma de censura.

- E depois há a crise, que também chegou aos espectáculos...

- Nós temos aquilo a que eu costumo chamar "uma classe média em promoção", que pensa que está a viver melhor, mas que afinal está atulhada no crédito. E isso leva-nos a este mal-viver colectivo: se as pessoas não têm dinheiro para o bife logicamente a última coisa que querem é assistir a espectáculos. E, por outro lado, as principais entidades contratadoras do trabalho que eu faço são as câmaras municipais. E essas habituaram as pessoas a que não se paga para ver espectáculos. Pagam-se rios de dinheiro para ver, na maioria dos casos, um péssimo espectáculo de futebol (e eu sou insuspeito porque adoro o jogo de futebol), mas não se paga para ver um espectáculo. A não ser que venha aí uma grande vedeta estrangeira, daquelas que é "fino" ir ver.

- A tua faceta de autor é muito relevante, mas para a maioria das pessoas o Paulo de Carvalho é sobretudo o intérprete, "A Voz"...

- É. Ou então o "Sinatra português", que é uma coisa que me deixa pior que estragado. Aí se vê logo como não gostamos de nós...

- Ninguém diz que o Sinatra é o "Paulo de Carvalho americano"...

- Mas porque é que ao fim deste tempo todo eu sou conhecido como o fulano que canta, o intérprete, quando já fiz tanta música, tão popular, na voz de tanta gente - e até na minha? Por exemplo: neste momento vai sair um dvd sobre o "Live 8", e devo ser o único português que lá tem uma música: a que a Mariza cantou. Se eu fosse uma pessoa que se "orientasse" melhor ou que andasse pelos corredores do poder, se calhar isto já tinha sido notícia em 40 jornais. Mas eu aproveito para dizer aqui, porque estamos a falar na nossa revista, e porque não faz sentido dizê-lo noutros lados...

- Quais são os teus planos para os próximos tempos?

- Neste momento, a minha principal aposta - não sei se vou conseguir - é emigrar...

- Emigrar?!

- Sim. Não porque esteja zangado com a minha terra, de que gosto muito - isto é um mau momento que nós estamos a viver - mas o facto é que eu vejo a nossa entrada para a Europa como um alargamento de mercado. Daqui para lá e não de lá para cá. E acho que tenho a obrigação de tentar essa possibilidade. Sobretudo porque na maioria dos países da Europa tratam bem as pessoas com mais idade, uma coisa que aqui não acontece: aqui uma pessoa com 30 ou 35 anos já é visto como velho...

- Mas estás a pensar ires-te embora?

- Não, não é viver lá fora, é trabalhar lá fora. Eu chamo-lhe emigração para se perceber melhor o que estou a dizer, é uma emigração que não tem nada a ver com aquela por onde eu também andei e que conheci e com que contactei bastante. E, isso, estou cada vez mais próximo de conseguir.

- E, em termos de discográficos, o que é que vem a seguir?

- Quero fazer - e vou fazer, nem que seja em edição de autor - um disco só com textos do Professor Agostinho da Silva. Já tenho três cantigas feitas, e até já as dei a companheiros de profissão que gostaram delas e vão cantá-las - por exemplo, o Ivan Lins já ouviu duas delas e gostou bastante. E isto porque o Professor foi uma pessoa que numa dada altura da nossa vida colectiva esteve na moda, porque queriam fazer um aproveitamento daquilo que ele era, e agora está a ser esquecido. Mas é um dos portugueses que vale a pena lembrar.

- Sentes-te de bem com a vida?

- Muito bem, sinto-me muito bem com a vida. Tenho uma companheira que adoro, tenho uns filhos muito bons, tenho uma família - ainda que seja curta do meu lado mais directo - que é uma boa família. E sinto-me muito bem com a vida. Gostaria, se fosse possível, de economicamente poder dizer que atingi a autonomia, mas toda esta nossa conversa leva a concluir que não faço muito por isso...

Autores | Jul-Set 2005

Mais sugestões de leitura

  • O sonhador de amigosOpen or Close

    Um homem está debruçado sobre a cidade, sereno e tranquilo e atento a todas as imagens e às outras que não estão lá, e nos seus olhos há um sonho que se constrói com mãos e com alma, como é próprio das coisas belas. É um alguém urgente, de cabeça solta no delírio dos pássaros que estrebucham no rasto de loucos espalhado pela cidade à sua frente. Ali em volta rodopiam mulheres quase invisíveis de cabelos luminosos como nos poemas banais, e ouve-se um som ligeiro, definido apenas quanto baste para ilustrar as lembranças duradouras dos mundos todos que o homem traz dentro da cabeça.

    Movimentos Perpétuos
    Oficina do Livro 2003

    Ler Mais
  • Elogio da inocênciaOpen or Close

    Naquele tempo éramos todos imortais. Havia mais mundos para lá do mundo que nos era dado conhecer e onde nos era permitido viver. E nós sabíamos. Era o tempo das coisas inevitáveis, como a realidade imaginada, a noite a descobrir, o sonho, a urgência das coisas para viver. E nós vivíamos. E inventávamos sons e momentos, da mesma forma rigorosa e apaixonada com que fazíamos crescer os silêncios até o seu clamor invadir tudo. Foi nesse tempo e dessa forma que o Geraldo se tornou meu irmão. Ele era imortal, como eu, e os imortais sabem sempre reconhecer os da sua laia.

    Prefácio a Cravos com Espinhos, de Geraldo Alves | 2003

    Ler Mais
  • Zeca em livro ao vivoOpen or Close

    O José Afonso faria agora 80 anos. Mas este livro do Viriato Teles, em boa hora publicado em edição revista e actualizada pela Assírio e Alvim, não é uma homenagem póstuma. É um livro de José Afonso ao vivo, essencial para conhecer a vida, as ideias, a obra, (...) essencial para conhecer um homem singular: José Afonso. O homem que sonhava em cada esquina, um amigo, em cada rosto, igualdade. E a utopia de uma cidade sem muros nem ameias, capital da alegria.
    Leiam, divulguem, tratem bem este livro. O Viriato Teles e o José Afonso merecem.

    Ler Mais
  • O estado do sítioOpen or Close
    Com o País no estado em que está e a Europa no ponto aonde chegou, não vejo como é que alguém de bom senso consegue manter o optimismo. No entanto é isso que o (des)governo da nação continua a exibir,...
    Jornal do Fundão | 2.Ago.2012
    Ler Mais