Silly season

Dizem-me que a culpa é do tempo instável que se tem feito sentir. Talvez seja. Mas este mês de Agosto tem sido pródigo em novos conceitos e frases espirituosas de alguns actores da grande comédia que é o mundo actual. Não, não falo de George Bush nem da sua mais recente alarvidade - até porque, ao contrário do que sustentam os jornais, não foi uma gaffe: o presidente dos EUA quis mesmo dizer o que disse quando afirmou que «os nossos inimigos não param de pensar em formas de prejudicar o nosso país e o nosso povo, e nós também não». É o que se chama sinceridade.

Mas Bush é um homem simples. Não tem as subtilezas do pensamento de um Manuel Falcão ou de um José Manuel Fernandes, por exemplo,que no passado fim de semana deram mais um importante contributo para que a ciência política se aproxime dos actos de variedades, como é de bom tom na sociedade do espectáculo em que vivemos. Na revista Pública de domingo, estes dois antigos maoístas revelam finalmente ao povo o seu posicionamento político actual.

Falcão é, diz, «um anarquista de direita com preocupações sociais». Eu nunca conheci nenhum anarquista de direita, e ainda por cima com preocupações sociais, mas suponho que seja algo muito parecido com um benfiquista do Porto com preocupações sportinguistas: soa bem e não quer dizer rigorosamente nada, como convém nos dias que correm. Parabéns, Manel! Se continuas assim, não há-de faltar muito para seres ministro.

No entanto, o must da temporada cabe, até ver, ao director do Público. Diz Fernandes que, passados todos estes anos, já não é de esquerda nem de direita. Que «a esquerda privilegia mais a igualdade e a direita a liberdade» e, para ele, «a liberdade é um bem mais essencial». E assim, hoje, considera-se mais um homem do centro, mas não de um centro qualquer. O dele é o «centro radical», «reformista, mas não revolucionário». Onde fica tão insólito lugar, não sei, nem o Zé Manel explica. Mas suspeito que deve ter algo a ver com a «árvore ginecológica» de que falava há tempos, na Televisão, um louro comentador social...

Para Consumo da Causa | 18.Ago.2004

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