Um coração sobre o mundo

cpar250.jpg

Em rigor não me lembro de quando e como conheci Carlos Paredes. Porque, em rigor também, é como se o tivesse conhecido desde sempre, como se a música das suas mãos mágicas me acompanhasse desde que comecei a despertar para a vida e para o mundo.

Agora, que definitivamente partiu para a eternidade, vêm-me à memória as muitas horas de conversas que partilhámos, sempre naquele seu jeito atento, mas nunca venerador, com que ouvia aqueles de quem gostava, num ritual de partilha de ideias e ideais. Lembro-me da modéstia que o impediu de aceitar os reiterados desafios de Paco de Lucia para uma gravação conjunta: «Ele é um grande músico, como é que nós podíamos gravar um disco? Ele esmagava-me, oh amigo!»

Lembro-me também do espanto de Léo Ferré depois de ter ouvido pela primeira vez os «Verdes Anos» e de ter sabido que aquele homem trabalhava como arquivista de radiografias num hospital. Lembro-me de episódios que não vou contar, porque foram apenas nossos e como tal não devem ser expostos à curiosidade pública. E lembro-me também dos outros: histórias de monumentais distracções, que alimentam a sua lenda de homem que vivia num outro universo, onde havia lugar para tudo menos para o ódio.

E no entanto Carlos Paredes foi, sempre, um ser atento à realidade. Basta ouvir-lhe as músicas, que são o maior e mais autêntico reflexo da alma lusitana. Ou ler os seus textos (e como escrevia bem, este Paredes!) em que, detalhada e apaixonadamente, reflectia sobre as mais diversas questões da vida. Ou tê-lo visto alguma vez em palco, onde construía um permanente diálogo com quem o escutava, com a humildade de que só os grandes génios são capazes.

Quando, há uns anos, foi condecorado pelo então Presidente da República, Mário Soares, por ocasião de um 10 de Junho, fui encontrá-lo, discreto, no foyer do São Carlos, depois da cerimónia, distribuindo abraços, daquela forma sincera que o caracterizava. «Isto é bom: sempre se encontram uns amigos», disse-me então, alheio à snobeira bacoca que sempre rodeia estes momentos.

Os amigos. Para Paredes, eram o mais importante de tudo, razão de ser de toda uma existência dedicada à procura daquilo que de melhor existe nos seres humanos. Os amigos que povoavam o seu mundo e com quem gostava de partilhar as coisas mais simples. Os amigos que respeitava, mesmo quando não estava de acordo com eles.

Porque Carlos Paredes foi, também, um homem de convicções firmes, e de que nunca desistiu, nem mesmo quando o sonho socialista em que acreditava se revelou, afinal, um pesadelo: «O ideal não morreu e verifica-se que há determinadas coisas que só um sistema avançado pode resolver», afirmou há uma dúzia de anos, numa entrevista. «Mas não pode ser de uma forma mecânica; é preciso ver, meditar e sobretudo ter um grande respeito pelos outros.»

Um grande respeito pelos outros. Esta é, talvez, a característica fundamental da personalidade de Carlos Paredes. Que nunca deixou de se espantar com o mundo e se manteve sempre aberto à possibilidade de novas descobertas. Era um homem de paixões, a que se entregava de corpo e alma, com o fascínio de um adolescente e a grandeza de um sábio. Foi assim, nas causas e nos amores, também eles lendários. Foi assim, afinal, na vida toda, que viveu com uma intensidade incomum.

Mais de dez anos após o silêncio a que foi condenado por uma doença particularmente injusta e de todo imerecida, Carlos Paredes partiu. Deixou-nos a música, é verdade. Uma arte única e irrepetível, que vai continuar a emocionar-nos. Mas que não chega para preencher o vazio provocado pelo seu desaparecimento.

Porque, embora doente e por isso afastado do mundo desde há muitos anos, Paredes tinha-nos habituado à sua presença. No fundo, todos sabíamos que o fim já tinha chegado, mas recusavamo-nos a admiti-lo. Como se tivéssemos a vaga esperança de que talvez um dia Deus se arrependesse de tão cruel destino e lhe concedesse a imortalidade.

Agora, que Paredes se foi embora, estamos todos um pouco mais pobres. Pela música que ele já não conseguia fazer, mas sobretudo pelo homem que amámos e com quem aprendemos tanto sobre a vida e o mundo e o amor. Quero imaginá-lo num qualquer jardim do Céu, recebido em festa pelo Zeca e pelo Adriano, certamente com o Fernando Assis Pacheco e o Cardoso Pires de permeio. E nem me custa a crer que tenha até pedido desculpa pela demora: «Perdi-me pelo caminho, os meus amigos sabem como é...»

A Capital | 24.Jul.2004

Mais sugestões de leitura

  • Entrevista a A CapitalOpen or Close

    Um autor português de 47 anos já não sabia muito bem onde estava o 25 de Abril e resolveu fazer «contas à vida». À sua e à de nós todos. Juntou pontos - e não só de interrogação -, fez cálculos, recuperou memórias, e, após ser desafiado por uma editora, pôs mãos à obra. O livro está desde hoje nas livrarias com o título Contas à Vida - histórias do tempo que passa. São vinte conversas com vinte personalidades da vida pública portuguesa que têm algo a dizer - e dizem! - sobre o 25 de Abril.

    Ler Mais
  • Que há-de ser de nós?Open or Close

    Éramos muitos, mais de um milhão. Éramos jovens e pensávamos que mudar o mundo era uma tarefa ao alcance das mãos. A poesia estava na rua, ali mesmo ao nosso lado, e a revolução era para já.

    Combate | 1996

    Ler Mais
  • Versos na margem da folhaOpen or Close

    Quem abra o livro e leia o prefácio afectuoso de Fernando Alves, não está preparado para um murro no estômago. Que não é um murro anónimo, tem título: Três Olhares sobre Manágua, um elogio à loucura nas noites claras de outro continente. (...) Mas neste livro de quase um cento de páginas, Viriato Teles visita a noite de muitas cidades, reencontra amigos enquanto desencontra revoluções e outros sonhos transgressores.

    Ler Mais
  • Percursos do marginal de sucessoOpen or Close

    Tinha 51 anos, era casado com a Sara e pai do João, calçava 43 e só não participou no Maio de 68 porque não estava lá. Era o Júlio Pinto e morreu no dia de aniversário da República. Abaixo o 5 de Outubro!

    Grande Amadora | 13.Out.2000

    Ler Mais