O ano de (quase) todos os Zecas

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Com a edição de “Com As Minhas Tamanquinhas”, neste final de 2012, ficam desde já disponíveis oito das onze edições que integram o plano de remasterizações em curso da obra de José Afonso. Um “lote” que abrange a totalidade dos álbuns gravados para a editora Orfeu, de Arnaldo Trindade, entre 1968 e 1981, ou seja: onze discos de originais num total de 14, o “essencial” da obra gravada do cantor.

O trabalho de remasterização, assinado por António Pinheiro da Silva – não só um dos mais competentes engenheiros de som do nosso País, mas também um músico atento – é por vezes surpreendente. E permite alguns “reajustes” do som, aproximando-o mais do original e corrigindo erros de corte das matrizes e/ou de prensagem do vinil que marcaram algumas das edições originais de José Afonso – como, aliás, se percebe pelo “bilhete” cujo fac-simile é reproduzido nesta reedição de “Com As Minhas Tamanquinhas”, uma nota de Zeca dando indicações para «tentar nova matriz no Valentim [de Carvalho] ou em Espanha, paga por mim».

É do conhecimento geral que a relação de José Afonso com os seus próprios discos nunca foi pacífica, pelo menos nesta área. Até aos anos 70, pesem embora os esforços de músicos e de técnicos de reconhecida competência (como José Fortes, Moreno Pinto ou Hugo Ribeiro, que assinaram a captação de som de alguns discos de Zeca) os recursos dos estúdios de gravação existentes em Portugal estavam muito abaixo dos padrões da altura.

É esta razão que leva José Afonso, a partir de 1970, a optar pelas gravações no estrangeiro – em Londres, primeiro, onde faz “Traz Outro Amigo Também”, depois em Paris (“Cantigas do Maio”), Madrid (“Eu Vou Ser Como a Toupeira”), novamente Paris (“Venham Mais Cinco”) e outra vez Londres (“Coro dos Tribunais”). É só em 1976 que Zeca volta a gravar um disco seu em Portugal, nos estúdios Polysom, em Campolide: precisamente “Com As Minhas Tamanquinhas”, que também não foi isento de quid pro quos de carácter técnico.

De facto, é sobretudo a partir de finais dos anos 70 que começam a surgir, em Lisboa, estúdios alternativos aos da Valentim de Carvalho e da Rádio Triunfo, que até aí dominavam o mercado das gravações discográficas. No entanto, a prioridade, então, era a “acção directa” que os cantores desenvolviam no turbulento cenário político da época. E é desta realidade que José Afonso se faz eco em “Com As Minhas Tamanquinhas”, um registo esplendoroso dos anos do PREC e, na verdade, o primeiro disco inteiramente livre de José Afonso – pois que, sendo embora “Coro dos Tribunais” gravado já após a revolução, este incluía ainda apenas temas escritos anteriormente e nunca antes registados, embora alguns deles tivessem sido conhecidos ainda no tempo da ditadura, como “O Que Faz falta”, que terá tido a sua première em Aveiro, no III Congresso da Oposição Democrática, em Março de 1973.

O conjunto de reedições já disponibilizado – a que se seguirão, nos primeiros meses de 2013, “Enquanto Há Força”, “Fura Fura” e “Fados de Coimbra e Outras Canções”, a completar o conjunto de gravações de Zeca para a Orfeu – contou com o trabalho apurado do jornalista Gonçalo Frota, que, através dos depoimentos de vários dos intervenientes, traça o perfil minucioso das circunstâncias em que ocorreu cada um das gravações. Um pouco à semelhança do que, para assinalar estas reedições, tem acontecido com os “especiais” que a Antena 1 está a transmitir, e para os quais outro jornalista, António Macedo, foi ouvir muitos desses antigos companheiros de Zeca, incluindo Carlos Correia (Bóris) e Luís Filipe Colaço, os dois instrumentistas que acompanharam Zeca à viola em “Traz Outro Amigo Também” e que há muitos anos tinham desaparecido da vida pública.

Pena é que o grande rigor do trabalho de Gonçalo Frota no sentido de enquadrar cada um dos discos não tenha sido levado até às últimas consequências pela editora para o conjunto fac-similado de documentos que igualmente acompanha estes CDs, e sobre os quais pouco ou nada é dito. Entre estes papéis agora recuperados para a história, podemos ver a cópia de um contrato, notas soltas, cartas, uma folha de produção, bilhetes avulso de Zeca. Mas também, por exemplo, uma informação sobre o cantor passada à PIDE por um zeloso “chefe de posto” (da GNR, presume-se) denominado Fernando José Waldeman do Canto e Silva, que dá conta das “inúmeras reuniões clandestinas” convividas por José Afonso (que “actua provocando sempre extraordinário clima de agitação e ódio”, dizia o delator), dos seus hábitos e das suas “frequentes viagens ao estrangeiro, principalmente a Espanha, onde diz ir gravar discos”. Um mimo.

Tudo isto acrescenta alguma coisa a tudo o que já se sabe sobre Zeca, a época em que viveu e o modo como viveu. Esta reedição, depurada e quase integral, da discografia de José Afonso é, assim, não apenas uma revisitação em grande da sua obra, mas também um serviço prestado à preservação da memória – da repressão, da resistência e da libertação. Quem foi que disse que a história não se aprende a cantar?

QI | Diário de Notícias | 15.Dez.2012

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