O grande poeta menor

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Torrencial, apaixonado, firme, exuberante, truculento, corajoso. Qualquer destes adjectivos cabe em José Carlos Ary dos Santos, mas nenhum deles chega para qualificar plenamente o homem, o poeta, o militante. Em Ary, o todo é sempre mais do que a soma das partes, e estas nunca são estanques entre si: Ary foi o poeta que foi por ser o militante que era, e não poderia ser uma pessoa diferente sem trair tudo aquilo que constituía a sua própria razão de ser.

Nascido no seio da alta burguesia lisboeta, Ary decidiu muito cedo que esse não era o lado da vida onde queria estar. Os primeiros livros revelam um poeta inconformado, mas foi através das canções que se destacou como o mais profícuo autor do seu tempo, com mais de 600 letras escritas.

Evidenciou-se sobretudo pelo papel activo que desempenhou no movimento de renovação da música portuguesa desde finais dos anos 60 do século passado. Portugal era, não o esqueçamos, um país bisonho, e um par de versos simples como «quem faz um filho / fá-lo por gosto» eram suficientes para perturbar as almas pudendas do regime. Para o espírito rebelde e provocador de Ary, esse era um desafio aliciante.

Depois de Abril, Ary assumiu de corpo inteiro a militância comunista. Mas, a par de poemas inflamados e marcados pelo tom aceso do período revolucionário («As Portas Que Abril Abriu» ou «Bandeira Comunista», por exemplo), escreve alguns dos mais belos textos da música portuguesa. Temas como «Estrela da Tarde», «Namorados de Lisboa», «Os Putos», «O Cacilheiro» ou «Quando um Homem Quiser» são já obras essenciais do nosso património colectivo.

Letrista de excepção e «grande poeta menor» (parafraseando Fernando Assis Pacheco a propósito de Vinícius), Ary dos Santos foi também – ou sobretudo – um homem empenhado, um militante afectivo e efectivo, sem nunca deixar de ser um espírito livre. «Poeta castrado, não» – sublinhava. E assim foi até morrer. Essa rebeldia libertária, expressa nas canções que escreveu e presente na memória dos que o conheceram, é afinal o melhor do seu legado.

Diário de Notícias | 18.Jan.2014