Mais do que talento

Paco de Lucia (1947-2014)

Poucos saberão que, em meados da década de 80 do século passado, Paco de Lucia manifestou a alguns amigos o desejo de gravar um disco com Carlos Paredes. O mestre português da guitarra tinha publicado o Concerto em Frankfurt, e era uma das «jóias da coroa» da Polygram, tal como Paco – que já gravara, entre outras coisas maiores, Friday Night in San Francisco e Passion, Grace and Fire, ambos em conjunto com Al di Meola e John McLaughlin.

A ideia de Paco, admirador de Paredes, foi acolhida com entusiasmo pela editora, mas esbarrou na recusa definitiva do músico português: «Tocar com Paco de Lucia? Nem pensar. Ele esmagava-me, oh amigo!»

Podemos atribuir este receio à proverbial modéstia de Carlos Paredes, à forte personalidade artística de ambos, ou mesmo à manifesta dificuldade do criador de Verdes Anos em estabelecer parcerias criativas com outros músicos, mas a verdade é que o disco nunca aconteceu, e por isso nunca saberemos se os medos de Paredes tinham razão de ser ou se, à semelhança do que fez com Di Meola e McLaughlin, Paco de Lucia conseguiria estabelecer com o seu parceiro ibérico um diálogo perfeito de guitarras com diferentes sonoridades e memórias.

À margem deste episódio, porém, vislumbra-se o que julgo ser um dos traços distintivos do mestre do flamenco: uma vontade permanente de experimentar sons e partilhar sensações – o que conseguia sem retirar espaço aos outros, mas também sem nunca deixar de ser ele mesmo.

Foi um músico de talento transbordante. Mas foi mais do que isso. «Um bom homem, um grande instrumentista e um grande companheiro na partilha de palcos», disse, ontem, José Nuno Martins, que organizou e produziu o primeiro espectáculo de Paco de Lucia em Lisboa. Três razões que chegam para gostar dele. E ouvi-lo, agora e sempre.

Diário de Notícias | 27.Fev.2014

Mais sugestões de leitura

  • Silêncio, que vai falar um homemOpen or Close

    Venho duma época em que Portugal era, dizia-se, dominado por três éfes: Fátima, o futebol e o fado. Trinta anos passados sobre a manhã de todas as esperanças, a diferença é que o futebol se transformou numa nova religião, cujos deuses, mitos e interesses coabitam tranquilamente com os de Fátima. Ao fado, muitos querem que reste não mais que a função puramente recreativa. Não é esse, nunca foi, o caso de Carlos do Carmo, e por isso a sua música, sendo fado, é também uma música do mundo. E sendo universal, continua genuína e generosamente lusitana.

    Ler Mais
  • Apresentação em Lisboa e PortoOpen or Close

    João Paulo Guerra, em Lisboa, e Rui Pato, no Porto, foram os "mestres de cerimónias" dos lançamentos da nova edição revista e aumentada de As Voltas de um Andarilho nas duas principais cidades. Na capital, a sessão contou com a participação dos Couple Coffee, que cantaram vários temas de Zeca. No Porto, a intervenção musical esteve a cargo de João Teixeira - e do próprio Rui Pato.

    Ler Mais
  • Fausto Bordalo DiasOpen or Close

    É um homem discreto e um artista exigente. Gosta de estar com os amigos e não volta costas a um arroz de lampreia nem a uma boa conversa. A música que faz situa-se num patamar superior do espectáculo, em Portugal e no resto do mundo, mas não é isso que o faz correr. (...) É assim o Fausto. Sereno, leal, intransigente em tudo aquilo que considera ser o essencial, tanto na vida como na arte – sendo que a arte é simplesmente uma forma superior de vida. É um homem de convicções – políticas, humanas, estéticas – mas nunca quis ser um homem de certezas. Amigo certo e adversário temível, mantém desde sempre uma relação de distância tanto com o poder político como com o poder mediático, e nunca se vergou perante nenhum. Porque há homens que não têm preço nem querem perder a honra: os homens dignos, como este.

    Ler Mais
  • Oitavo andamento: da vida e da morteOpen or Close

    – A proximidade da morte aproximou-te mais da noção de Deus?

    – Não, continuo a pensar que Ele é um gajo porreiro, e mais uma vez me protegeu. Estou a falar de Cristo, é um tipo especial com quem eu dialogo, a gente dá-se bem um com o outro. Às vezes zango-me com Ele, quando vejo assim umas coisas feias à nossa volta, penso assim: «Eh, pá!, este tipo anda distraído!» E Ele depois conversa comigo e diz-me: «Ah, tu sabes que eu não chego para tudo, também preciso de descansar um bocadinho de vez em quando, não chego para as encomendas!» É um pouco irracional o que te estou a dizer, mas é o modo que eu tenho de funcionar. (...) Acho que Ele tem sido generoso comigo, não pertenço àquele grupo infindável dos que passam o tempo a lamentar-se.

    Ler Mais