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Infelizmente, ainda não foi desta. Apesar de anunciado com algumas centenas de anos de antecedência, o fim do mundo que muitos esperavam voltou a ser adiado. Pelos vistos, os maias são como a Maya e o sinistro Gaspar: não acertam uma.

E como eu gostava que o mundo tivesse acabado. Não propriamente o meu, nem o dos caríssimos leitores, mas este mundo imundo de coelhos e relvas e cavacos e portas e borges e merkls e troikas. E também o dos (in)seguros, dos idiotas, dos patos-bravos, de todas as adultas e descompassadas bestas que tresmalham as nossas vidas e assassinam os nossos sonhos.

Sou da geração privilegiada que é suficientemente jovem para ter vivido Abril ainda na flor da idade e antiga quanto baste para continuar a ter memória plena da repressão fascista. Ou seja: sou daqueles que têm consciência de que a Liberdade não é um dado adquirido e irreversível, e que por isso é necessário tomar conta dela e defendê-la todos os dias, a vida inteira.

E a verdade é que nunca, desde a restauração da Democracia, a sensação de um iminente regresso ao passado se me fez sentir de um modo tão forte como nos dias que correm. Com um governo, uma maioria e um presidente apostados em reduzir a Constituição a uma simples figura de retórica, o País regride a um ritmo avassalador, cada dia que passa.

Contra isto, o que se pode fazer? Nada, diz o governo colaboracionista, empenhado em fazer-nos crer que a miséria e a fome são tão inevitáveis como a noite que segue ao dia e que só assim Portugal conseguirá sair do buraco negro para onde o empurraram. Muito pouco, diz a oposição soft-left, ciosa do seu «sentido de responsabilidade» e do papel que lhe cabe enquanto poder-que-segue-dentro-de-momentos. Tudo, dizem os outros, e são cada vez mais, cientes de que só com uma alteração radical das estruturas do poder e da economia, em Portugal e na Europa, será possível voltar a acreditar num mundo melhor.

A gravidade da situação faz com que em causa não esteja já uma mera divisão da sociedade entre as perspectivas tradicionais da Esquerda e da Direita, mas antes entre as pessoas de bem e as outras. Por isso são cada vez mais as vozes que, de distintos e por vezes antagónicos sectores da vida pública, se levantam contra a irracionalidade vigente. Mas Passos e o resto do bando, do alto da imensa arrogância que é característica dos medíocres, continuam a acreditar que a melhor maneira de ajudar um náufrago é obrigá-lo a nadar para longe da costa. E o pior é que são bastantes os que, mesmo entre os já quase afogados, acham que o caminho só pode ser esse. Não é preciso ser sobredotado para perceber que, de tão mal contada, esta história só pode acabar mal. Muito mal.

A responsabilidade pelo acriticismo conformista que tomou conta de parte significativa da população reparte-se em doses proporcionais pelos sucessivos (des)governos, os agiotas e os sabujos de todos os matizes que diariamente nos entram casa adentro a anunciar a inevitabilidade do apocalipse. Mas cabe também aos jornalistas que trocaram o quarto poder pelo quarto do Poder, aos empresários manhosos para quem os fins justificam todos os meios, aos professores que aceitam sem resistência ser meras correias-de-transmissão da ideologia dominante, aos conformados e desistentes de todas as cores e feitios.
Para travar esta alucinante descida aos infernos, talvez seja mesmo necessário acabar de vez com este mundo e, desse desejado dilúvio, construir enfim uma outra realidade em que o Homem volte a ser a medida de todas as coisas. Vai doer, claro, como é próprio de qualquer processo de crescimento. Mas não há outra maneira.

Jornal do Fundão | 27.Dez.2012

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