O ovo da serpente

© Sandra Bernardo

Notícia recente ouvida na TSF dava conta do peculiar «aconselhamento» que a polícia grega está fazer junto de cidadãos vítimas da crescente criminalidade produzida pelo agravamento generalizado das condições de vida da população.

De acordo com a notícia, que cita uma reportagem do jornal britânico Guardian, agentes policiais helénicos estão a encaminhar queixas e queixosos para o partido neo-nazi que elegeu vários deputados nas últimas eleições, apresentando-se como «defensor do povo contra a escumalha imigrante».

Testemunhas citam «o caso de uma mulher que teve um problema com imigrantes albaneses no bairro onde vive e, ao ligar para a polícia, o agente disse-lhe para telefonar para o partido da Aurora Dourada» que, segundo relatos ouvidos pelo Guardian, «está cada vez mais a assumir o papel da polícia».

Ao mesmo tempo, imigrantes contam que «nas últimas semanas têm sido atacados por homens que à noite circulam de mota vestidos de preto». E acrescenta o jornal que «nos bairros mais pobres de Atenas, o partido neo-nazi parece estar a ganhar adeptos usando uma política de apoio à população grega com roupas e comida».

Num célebre filme de há 35 anos, que uso para titular esta crónica, Ingmar Bergman retratou, com objectiva e dilacerante frieza, a escalada da degradação humana e social que permitiu a ascensão do nazismo na Alemanha de Weimar. O que acontece hoje na Grécia tem assustadoras semelhanças com esse passado e deixa à vista de todos esse «ovo da serpente» através de cuja membrana se consegue distinguir com clareza o réptil em processo acelerado de formação, quase pronto para nascer.

Dizia Hegel que os grandes factos da história universal parecem repetir-se e Marx acrescentou: «uma vez como tragédia e a outra como farsa.» No caso da história europeia, ainda assim preferia que, apesar de todas as aparências em contrário, estivéssemos em maré de farsa.

É nesse sentido que aponta o circo de Bruxelas e Frankfurt, avalizado pelos governos de uma cada vez mais débil Europa, cujo sonho fundador parece já irremediavelmente esboroado na poeira voraz do ultra-economicismo dominante.

Portugal ainda não chegou aos níveis de indigência institucional da Grécia, mas, a continuar na rota por onde vai, temo que não tarde muito a alcançá-los. Os sinais estão aí, bem à vista de todos, e só não se preocupa com eles quem desconhece o mundo que existe para lá dos números.

O dr. Borges é uma dessas criaturas. O homem até hoje não acertou uma. As propostas que apresenta oscilam entre o risível e a obscenidade, mas têm o condão de conseguir a verdadeira unidade nacional: nem ricos, nem pobres, nem patrões, nem empregados, nem cultos, nem incultos – não há voz que se erga em seu apoio. Pelo menos em público, pois que em privado, já se sabe, a realidade nem sempre condiz consigo mesma.

E em privado, nessas reuniões entediantes capazes de envolver «redes de polícia secreta, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá!» (salut, José Mário Branco!), nesses ajuntamentos de cérebros (mal) formatados que Borges deve achar tão prazenteiros, é natural que ninguém se preocupe com minudências. Quem lida com tão altos valores não pode conceber que existam valores mais altos.

Este parece, aliás, ser o ponto de vista de um sr. Miguel Oliveira da Silva, presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, para quem é aceitável fazer o racionamento dos medicamentos mais caros para doenças como a sida ou o cancro. «Não só é legítimo como, mais do que isso, desejável», diz, convicto, este sr. Silva. Porque, acrescenta, «vivemos numa sociedade em que, independentemente das restrições orçamentais, não é possível, em termos de cuidados de saúde, todos terem acesso a tudo».

Sublinho uma frase: «independentemente das restrições orçamentais». Porquê? O éti(li)co-presidente responde, interrogando: «Será que mais dois meses de vida, independentemente dessa qualidade de vida, justifica uma terapêutica de 50 mil, 100 mil ou 200 mil euros?» Pelas contas deste pequeno borges, a resposta é óbvia. Pelas minhas, também, mas eu fui um péssimo aluno em Contabilidade.

Perante gente desta, não tenho dúvidas de que, a repetir-se a história, desta vez será, de novo e com toda a certeza, na modalidade de tragédia. O ovo está aí, já foi chocado, só espera um ninho. Está na hora de matar a serpente que tem dentro. Antes que seja tarde.

Jornal do Fundão | 11.Out.2012

Mais sugestões de leitura

  • Alberto PimentaOpen or Close

    Nasceu no Porto, viveu na Alemanha e está em Lisboa. Em 1977 deu-se em exposição numa jaula da aldeia dos macacos no Jardim Zoológico de Lisboa. Catorze anos depois colocou-se à venda, no Chiado, por conta de uma «divisão de recursos humanos do Estado». E catorze dias mais tarde fez um auto-de-fé de O Silêncio dos Poetas na Feira do Livro de Lisboa. De todos os seus livros, esse é aquele que os intelectuais dominantes mais levam a sério, e fazem mal. Deveriam ler também Labirintodonte, Os Entes e os Contraentes, Ascensão de Dez Gostos à Boca, Discurso Sobre o Filho-da-Puta, Terno Feminino, A Visita do Papa, Deusas Ex-Machina. E os outros, todos, que publica com a regularidade possível desde 1970.

    Ler Mais
  • O poder e o localOpen or Close

    Os portugueses foram a votos, desta vez para eleger os representantes do chamado «poder local» – designação que só se compreende se aceitarmos que há poderes não localizáveis, o que é tanto mais verdade quanto maior é a sua dimensão.
    Por exemplo: alguém sabe onde fica o FMI? E o Banco Mundial, alguém lhe conhece uma agência que seja, ou mesmo uma simples caixa de multibanco? E no entanto ninguém duvida de que são eles, os donos do dinheiro, quem realmente manda no nosso destino colectivo, deixando para gente simples como António Guterres e Pinto da Costa a ilusão de uma autoridade que já não existe sequer nas super-esquadras.

    TSF | 17.Dez.1997

    Ler Mais
  • Uma voz do mundoOpen or Close

    «A importância de um país avalia-se pela sua capacidade de tirar partido e proveito dos seus valores, nomeadamente os culturais. (...) A única autêntica maneira de um português se realizar é considerar-se de alguma forma estrangeiro, é distanciar-se da Nação, é agarrar-se com todas as suas forças a conceitos superiores de universalidade. Carlos do Carmo é uma voz do mundo – e por isso salvou-se. (...) E, com ele, salvou-se também uma parte importante da música portuguesa – o fado – que passou a ser do mundo!» Testemunho de António Victorino d'Almeida

    Ler Mais
  • Glossário básico skinOpen or Close

    Como todas as tribos, como todas as culturas, o universo skinhead possui uma linguagem própria, nem sempre imediatamente compreensível pelos cidadãos comuns. Foi na Grã-Bretanha que tudo começou. Em Londres, Liverpool, Birmingham, Newcastle. E em Glasgow, na longínqua Escócia, onde no final dos anos 60 a havia a maior concentração de mods (antepassados próximos dos skins), reputados pela violência e pela sua organização em gangs. Daí que a boa parte do léxico skin seja derivado do inglês.

    O Independente | 16.Abr.1999

    Ler Mais