O país obtuso

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O que se passou nos dias que se seguiram à Greve Geral de dia 14 é exemplificativo do país obtuso em que Portugal se tornou nos últimos meses. As reacções em cadeia de membros do governo, deputados da maioria e do próprio presidente da República, não deixam margem para dúvidas. A crer neles, o País está acossado por “terroristas” (viu-os um parlamentar do CDS) e “pessoas apostadas na destruição” e “que querem destruir a sociedade” (Cavaco dixit).

Os episódios marginais de violência, no final da concentração frente ao parlamento, serviram para que, de modo nada inocente, políticos, comentadores, alguns jornalistas e outros expertos momentâneos concentrassem neles o foco do discurso, desviando as atenções do essencial que se passou naquele dia de luta. Durante as horas que se seguiram, o facebook (que o inquilino de Belém tanto aprecia para comunicar) foi palco de efervescentes discussões em volta da justeza ou falta dela havida no modo de actuação da polícia.

Como de costume, divertiram-me sobretudo os opinantes mais ciosos do seu estatuto de «comentadores responsáveis», um dos quais se interrogava: «Bateram em pessoas que jamais tinham atirado uma pedra? É possível. O que não é possível é ser de outra maneira; o que não é possível é, durante uma carga, um polícia que esteve sob uma tensão enorme durante horas, indagar e interrogar-se sobre a justeza da sua acção. Isso é lírico.» Depois do sorriso das vacas, só nos faltava o stress dos polícias-de-choque.

Houve também alguns opinantes, mais lúcidos, que insistiram no que esteve à vista de todos, mas muitos não quiseram ver: que a carga policial era desnecessária, pelo simples facto de que toda a gente sabia de onde vinham as pedras e quem as arremessava, logo teria sido muito fácil neutralizar os “provocadores” sem tanto aparato. No fim-de-semana foi, de resto, noticiado que era esse o plano inicial dos agentes «infiltrados» entre a multidão, mas que se terá gorado porque as indicações superiores foram noutro sentido, ordenando a carga generalizada sobre os manifestantes.

Por outras palavras: a polícia bateu nas pessoas porque alguém quis que ela batesse. Da razão desta mudança de planos não ouvi ainda ninguém falar, mas não duvido que, também aqui, o poder quis deixar um recado à populaça – reforçado, aliás, pelas declarações avulsas de alguns dirigentes – bem ao velho estilo lusitano: o respeitinho é muito bonito, e quem se mete connosco, leva. Os próximos tempos dirão se tenho ou não razão.

Mas a greve geral serviu, também, para Cavaco fazer prova de vida, mesmo se, dos problemas mais globais, aos costumes disse nada. Aliás, desde há meses que nada diz, ou, quando diz, melhor fora que continuasse calado. Saracoteando entre estes fait divers, assistimos a declarações ultrajantes de gente como um tal Ulrich (na verdade um borges como os outros, apenas convencido de que o apelido lhe dá algum pedigree) e a tolices como as da tia Jonet sobre o empobrecimento e a miséria e a fome. Fome, sim, senhores! Os números são oficiais: mais de dez mil crianças portuguesas vão para a escola em jejum; há cada vez mais pessoas a recorrer aos serviços de assistência; os suicídios dispararam – ainda que isso não seja notícia, entre outras coisas porque existe um consenso entre a classe no sentido de que os suicídios não devem ser, por regra, noticiados, para evitar o efeito de repetição.

Este lado mais negro da realidade portuguesa actual, porém, não sensibiliza os grandes actores da vida pública. E não merecem, do presidente, sequer um post no facebook. Ainda assim, nestes últimos dias dei-me conta de uma outra intervenção pública do venerando chefe de Estado. Foi na sequência do tornado algarvio, quando o homem veio apelar à «coragem» e ao «espírito de sacrifício» das vítimas. Uma declaração pungente, que bem poderia ter rematado com um «tenham paciência» ou um guterriano «é a vida.»

Esta vulgaridade já nem sequer me espanta. Não propriamente porque o homem até está ali pro bono e não se lhe pode exigir mais do que aquilo que pode fazer um pobre reformado que não ganha para as despesas. Mas sobretudo porque sei que foi exactamente com ele, e graças a ele, que começou o desinvestimento na produção e na auto-suficiência do País. Em nome dos valores da competitividade e da modernidade e da construção europeia, destruiu-se o tecido produtivo nacional. Deu no que está à vista.

Jornal do Fundão | 22.Nov.2012

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