O primeiro dia

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A manifestação que no último fim-de-semana terá juntado para cima de um milhão de portugueses, metade deles em Lisboa, num gigantesco protesto espontâneo e generalizado contra as comprovadamente ineficazes medidas de austeridade do governo (e) da Troika, devolve-nos uma parte da esperança.

A partir de agora deixa de haver álibis para a cegueira do governo que, a coberto da tradicional ilusão dos «brandos costumes» lusitanos, o conduz ao maior servilismo perante todas as imposições do FMI, do BCE e da Comissão Europeia – a ponto de insistirem em «ir para além» daquilo que é prescrito por estes mandatários da agiotagem internacional, mesmo que já toda a gente tenha percebido que, para além disto, só há o abismo.

Por mais voltas em sentido contrário que procurem dar os analistas oficiais do regime, o protesto de sábado passado representa, de facto, uma nova atitude dos cidadãos perante aqueles que supostamente os representam nos órgãos do poder. Nesse sentido, a vindicação a que se assistiu foi dirigida a todos os actores do sistema político – do governo e da oposição, das organizações sindicais e das patronais, cá dentro como lá fora – e deveria merecer a atenção de todos e cada um deles.

Este 15 de Setembro foi um dos actos mais significativos da democracia portuguesa, em que ficaram provadas várias coisas – como, por exemplo, que o exercício da cidadania é possível, quando os cidadãos assim querem. E desfizeram-se alguns preconceitos, também. Por exemplo de que os portugueses estão «disponíveis para mais sacrifícios», como, num verdadeiro atentado ao pudor, proclama o ministro Gaspar. Ou de que as lutas políticas têm forçosamente de acontecer dentro dos círculos de poder e contra-poder dos partidos e das organizações tradicionais. Ou de que, faça-se o que se fizer, «isto» nunca vai mudar.

Vai, pois. Tem de mudar, porque de outro modo é a nossa própria vida que se torna insustentável. E ao falar de mudança não nos referimos apenas a operações de cosmética para eleitor ver, do género da que, ainda a manifestação decorria, foi anunciada pelo parceiro menor da coligação governativa. No estado a que chegámos, pouco adiantam as piedosas intenções, muito menos quando embrulhadas em justificações do género «nós não queríamos mas tem de ser» com que a classe política dominante procura iludir-nos. A única inevitabilidade é acabar de vez com esta política que, de degrau em degrau, conduziu o país ao charco.

O que mais assusta neste governo nem é a impudência com que se propõe desbaratar o País a troco de uns trocados que rapidamente se hão-de esfumar deixando-nos a todos numa situação ainda pior. Não, o que apavora é a magnânima ignorância da vida real de que Passos Coelho e a sua equipa todos os dias dão provas inequívocas. Para eles, o mundo resume-se a um formulário em excel, onde a realidade tem forçosamente que encaixar-se, pois que assim o determinam os números que o ornamentam, meticulosamente divididos em décimas, centésimas e milésimas.

O lugar onde vivem não é Portugal, é um país qualquer que inventaram e só existe no tremendo vazio das suas cabeças. É um mundo onde as pessoas são apenas um número do sistema fiscal, um mundo de contribuintes, mas não de cidadãos, a que se exige plena disponibilidade para manter as aparências que tornam Portugal apetecível para «os mercados». Nesse mundo em power-point que querem convencer-nos ser o lugar onde vivemos, basta parecer: parecer «competitivo», demonstrar «sentido de responsabilidade», «cumprir as metas do défice» – há quantos anos não ouvimos a mesma estafada argumentação destinada apenas a tolher as legítimas ambições de quem acha que a vida não pode ser vivida a posteriori.

Os portugueses – capazes de aguentar com aparente mansidão o que até agora lhes tinha sido pedido – atingiram o ponto limite de resistência ao sacrifício. Querem também ser pessoas, cidadãos de pleno direito do século XXI e não meros escravos de uma opulência alheia. Foi isso, afinal, que se disse no dia 15 de Setembro. Foi muito, mas foi apenas o princípio. «O primeiro dia do resto da nossa luta», como resumiu, ao fim da tarde, um dos muitos quase anónimos promotores do protesto, neste caso uma jovem promotora, falando para quem a quis ouvir.

O que acontecerá agora só em parte permanece uma incógnita. E vai depender muito do modo como os inquilinos de São Bento e de Belém conseguirão lidar com o som que vem da rua, mas também de como o farão as forças políticas que se propõem ser alternativas. No final, é claro, dependerá de todos nós. Porque, como já toda a gente entendeu, de pouco adianta mudar o palhaço se o circo continuar a ser o mesmo.

Jornal do Fundão | 20.Set.2012

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