O que vem à rede

Algumas crónicas publicadas na internet desde 2010

Portugal dos pequeninos

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No dia em que morreu Óscar Lopes (...) na «mensagem de pesar» enviada à família do filólogo e mestre maior da língua pátria, o dr. Cavaco Silva refere-se-lhe como «historiador», relegando para segundo plano a sua obra maior como linguista, professor e crítico literário. Compreende-se: Óscar Lopes foi autor, com António José Saraiva, da mais importante História da Literatura Portuguesa. Cavaco, com o seu saber wikipédico de leitor de badanas, limitou-se a somar dois mais dois.

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Chávez: alguns factos

+  Chávez: alguns factos

“Fez algumas coisas boas, mas destruiu a economia”. É este o tom de alguns comentários que podem ler-se um pouco por toda a parte a propósito do falecimento de Hugo Chávez. Como não gosto de falar de cór e guardo comigo algumas manias de velho repórter relativamente ao rigor informativo, sirvo-me da edição online do Expresso de hoje apenas para dar conta de alguns dados concretos sobre os 15 anos de “chavismo”.

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Saudades de Zeca

+  Saudades de Zeca

E vão 26 anos sem Zeca, mas sempre com ele - e hoje mais do que nunca. Um pretexto tão bom como qualquer outro para retomar uma prosa incluída na edição mais recente d'As Voltas de um Andarilho:

A minha memória mais antiga de Zeca Afonso vem do início dos anos 60 do século passado quando, ainda miúdo, ouvia na rádio o «Menino d’Oiro». A televisão era um luxo a que as gentes da classe média desse tempo não podiam dar-se – e, fosse como fosse, ele não frequentava os saraus de variedades que o electrodoméstico transmitia por esses tempos. (...)

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ReservaZita

+  ReservaZita

Os vinhos anunciados estão longe de ser excepcionais, mas pelos vistos também não envergonham ninguém. Nem Zita Seabra, a antiga dissidente comunista reconvertida a bolseira da Jerónimo Martins - embora há muito se saiba que a vergonha não é um dos seus atributos. Ex-antifascista, ex-estalinista, ex-comungada e futura ex-neoliberal, a eclética e atlética figura ocupa agora o lugar de destaque na mais recente campanha publicitária do Pingo Doce.

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25 anos com Zeca

+  25 anos com Zeca

Nestes dias em que tanto se fala de José Afonso e do seu génio, gosto sobretudo de recordar que, para além da música, o Zeca era acima de tudo um homem. Um homem empenhado nas grandes lutas do seu tempo, com certeza, que procurou viver de modo integral – o que só se alcança quando se assume viver com as fragilidades, as virtudes, os defeitos, as grandezas e as contradições comuns a todos os homens.

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Louvor das Palavras e dos Amigos

+  Louvor das Palavras e dos Amigos

A banalização das palavras é um dos pecados mortais da comunicação dos nossos dias, sobretudo quando praticada por quem faz das palavras o instrumento principal do seu ofício. Porque as palavras não são nunca apenas aquilo que significam nos dicionários, mas sobretudo o que significam nas nossas vidas. ...Tudo isto a propósito dos 75 anos que o Fernando Assis Pacheco faria hoje...

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A solução para a crise

+  A solução para a crise

Para começo de ano mau, isto está bom. Em poucas semanas, o desgoverno dos comissários da troica conseguiu provar aos mais descrentes que não há mesmo limites para a criatividade. Se lhes desse para o bem, Portugal seria fantástico.

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Coisas que me chateiam

+  Coisas que me chateiam

Os ricos que não se cansam de roubar e os pobres que já desistiram de lutar, os jornalistas-pé-de-microfone e os assessores-pó-de-microfilme, a merda dos cães-de-caca que invadiu as ruas de Lisboa, e outras coisas que me chateiam.

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Nobre polvo

+  Nobre polvo

Um tipo que já apoiou, sucessiva ou concomitantemente, Durão Barroso e Mário Soares, o Bloco de Esquerda e a Causa Monárquica, António Costa e António Capucho, das duas, uma: ou é um caso exemplar de desdobramento de personalidade ou tem a coluna vertebral duma amiba.

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O arco da governação

+  O arco da governação

Trata-se de um curioso conceito gerado no seio do regime democrático, uma espécie de lei-de-murphy para totós segundo a qual o exercício do poder está reservado aos cérebros iluminados do PS, do PSD e, em caso de necessidade para arredondar as contas, do CDS. Não sei em que ignorado artigo da Constituição está escrito que o poder só pode ser exercido pela direita – ou pelo menos à direita, na vã suposição de que ainda reste ao PS uma qualquer vaga consciência original. Deve ser um dos muitos obscuros desígnios do Senhor, que já provou ser capaz de tudo.

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Uma espécie de poema, por ser hoje

+  Uma espécie de poema, por ser hoje

Lembrança e afecto(a)ção de João do Rio Bizarro Teles, cidadão meu pai

O dia em que nasci meu pai cantava
versos que inventam os pastores do monte
Fernando Assis Pacheco

Do meu pai herdei uma tendência
para os calos e as hérnias. O jeito
para a inquietude, a miopia, memórias suaves,
sinais nas costas, um nome capaz. Como todas
as histórias, também esta poderia ser melhor (...)

+ Uma espécie de poema, por ser hoje

A coisa

+  A coisa

Já aqui o disse, e não estou só nesta convicção: a criatura é o que o regime democrático gerou de mais semelhante, em forma e conteúdo, à sinistriste figura de Américo Tomás. Na debilidade intelectual, na vacuidade do discurso, no bolor das palavras, mas também na hipocrisia, no rancor, na perversidade.

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A alma da música

+  A alma da música

E alguém me pede: canta.
Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:
canta até te mudares em cão azul,
ou estrela electrocutada, ou em homem
nocturno.


Porque todos os pretextos são bons para trazer Herberto à conversa. E porque Mário Laginha criou um disco muito belo, idealizado e concretizado em visita à alma da música de Chopin na companhia de Alexandre Frazão e Bernardo Moreira. «Mongrel», o disco, teve o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores, e ainda bem. Partilhemos uma valsa.

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Que gente é esta?

+  Que gente é esta?

A agressão de que Manuel Rocha foi vítima, em Coimbra, é sobretudo reveladora do estado a que chegou não apenas o país, mas sobretudo o povo que vive nele. Os que nessa noite passaram ao largo da agressão ao músico são da mesma massa dos que, na véspera, voltaram a escolher o cinzentismo e a mesquinhez em formato presidencial. Não, não é contra Cavaco que estou. O que me irrita é mesmo esse «Portugal rançoso, supersticioso e ignorante, que tarda em deixar a indolência preguiçosa» de que fala o Baptista-Bastos. É essa, afinal, a mais triste evidência do episódio de Coimbra-B. A mão que elegeu Cavaco não foi a mesma que agrediu Manuel Rocha. Mas foi, com certeza, a que não se ergueu para o defender.

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Minha cabeça estremece

+  Minha cabeça estremece

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes. (...)

Herberto Helder

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Que homem é este?

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+  Que homem é este?

A campanha eleitoral foi marcada pela recusa de Cavaco em responder a quaisquer questões de algum modo melindrosas para a sua imagem. Interrogado pelos jornalistas sobre as dúvidas levantadas por alguns dos seus negócios, limitou-se a dizer que eram «calúnias». Tanta aparente cobardia só pode ter uma razão: a criatura tem mesmo telhados de vidro, e está com medo que os portugueses descubram a tempo de correr com ele de Belém. Mas esta campanha foi também reveladora quanto aos traços de carácter deste homem que se acha acima de todos os outros.

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Mais sugestões de leitura

  • Vaticano, SAOpen or Close

    A Pepsi e a Mercedes são duas das 23 empresas que custearam a mais recente viagem do Papa ao continente americano. Não tanto por fé em Deus, mas no Mercado, omnipresente como Ele. A notícia surgiu timidamente, diluída nos relatos da mais recente visita papal ao México, com passagem pelos EUA, como se os redactores e os editores dos diversos órgãos de comunicação não levassem muito a sério o facto em si e decidissem reduzi­-lo a um simples pormenor. E, no entanto, este pormenor é que é verdadeiramente a notícia da visita de Karol Woytila ao México. Uma visita que (ficámos a sabê-lo pela Antena 1 e pelo Diário de Notícias, dos poucos que ousaram dar conta do sucedido) contou com "o patrocínio da Pepsi Cola, da Mercedes e de mais 23 empresas privadas". Assim mesmo.

    Grande Amadora | 28.Jan.1999

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  • Filhos da pideOpen or Close
    Que em Portugal se passam coisas estranhas, difíceis de entender por qualquer cidadão de inteligência média, não é novidade para ninguém.
    Mesmo assim, de vez em quando não consigo deixar de me surpreender com alguns dos insondáveis desígnios com que a Divina Providência ou alguém por ela nos brindou.
    Só no curto espaço de um século tivémos, entre outras curiosidades, um milagre de Fátima, um ditador que criava galinhas no quintal, um primeiro ministro que não lia jornais e até um Alberto João para quem a Madeira mais do que um jardim, é uma autêntica coutada.
    TSF | 18.Fev.1998
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  • A poesia na RevoluçãoOpen or Close

    [A Utopia segundo Che Guevara] é um livro admirável, escrito num português admirável. O que não é nada despiciendo num país onde muitos escritores e outro tanto de jornalistas tropeçam no pronome, vacilam na preposição e estatelam-se no advérbio. Viriato Teles legitima a atitude de reactivar a reflexão sobre Guevara, respondendo à relação radicalidade/fascínio com argumentos que me parecem extremamente inovadores. (...) Um livro de reportagens, escrito por um dos grandes repórteres portugueses e, certamente, o melhor da geração a que ele pertence – tomando o conceito de geração com todas as precauções devidas. Viriato Teles faz parte do reduzido grupo que tenta reabilitar a grande tradição da Imprensa portuguesa: aquela que nunca enjeitou a «participação» afectiva sem desleixar a qualidade da prosa e sem ignorar a ética do ofício.

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  • Repórter no encalço do CheOpen or Close

    A gente conhece o Viriato Teles há muitas luas, ou não fosse ele um andarilho inveterado dos jornais e com diversos saltos pelos livros. Tudo o que o Viriato escreve é para ler. Homem da cepa séria dos jornalistas que não se perverteram... Daqueles que não se deixam arrebitar pelas alcatifas dos gabinetes ministeriáveis, daqueles que não iludiram a sua condição de ser de esquerda, da esquerda mais utópica, que é essa mesmo que vale para nós!
    Olho para o Viriato amigo e desato a pensar em todos os corifeus que após o 25 de Abril eram de esquerda – era bem – e hoje dão lições de social-democracia com copo na mão e pança avantajada assente na secretária. Por isso digo que os textos do Viriato são para ler na sua textura não serviçal. Autêntica. (...) Este é seguramente um livro que não interessa a certa gentalha, como aquele cavalheiro que preside ao CDS que há pouco tempo alcunhava o Che de terrorista.

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