A coisa

cavak2.jpg

Já aqui o disse, e não estou só nesta convicção: a criatura é o que o regime democrático gerou de mais semelhante, em forma e conteúdo, à sinistriste figura de Américo Tomás. Na debilidade intelectual, na vacuidade do discurso, no bolor das palavras, mas também na hipocrisia, no rancor, na perversidade.

Dirão que exagero. Mas o discurso que o presidente de 2.231.956 portugueses debitou, na cerimónia evocativa do cinquentenário do início da guerra colonial, não permite outra leitura. Porque só uma alma penada de antanho se lembraria de exortar «os jovens deste tempo» a que «se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do País com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar».

É verdade que de um mísero professor vindo das profundezas do Poço de Boliqueime não se podem exigir grandes esforços cerebrais. Compreende-se que o desinfeliz foi formatado segundo parâmetros que já então tinham ultrapassado o prazo de validade. E é um facto que o carácter deste indivíduo não é de molde a que dele se possa esperar um gesto merecedor do respeito dos seus concidadãos – como se percebe pelas já célebres «observações» que, há 40 anos, fez questão de sublinhar à PIDE a propósito da mulher do sogro.

Exigia-se, porém e pelo menos, um pouco mais de dignidade institucional. E, já agora, algum conhecimento da realidade histórica que fosse um pouco além da leitura simples de um catequista de província. O presidente eleito de Portugal não pode, quase 37 anos depois de conquistada a democracia que lhe permite ocupar o cargo, vir enaltecer a guerra injusta que foi a razão primeira do derrube da ditadura. Afirmar que «é de toda a justiça distinguir a intervenção militar que permitiu que um país com a dimensão e os recursos de Portugal pudesse manter o controlo sobre três teatros de operações distintos, vastos e longínquos» não é só um insulto aos povos que lutaram pela independência. É também um ultraje a todos os que, em Portugal e fora dele, foram vítimas de um regime opressor, cinzento e castrador.

Porque, ao contrário do que supõe o sucessor do venerando almirante de Belém, os jovens de há 50 anos não fizeram a guerra por razões de «coragem», «desprendimento» ou «determinação». Fizeram-na porque a isso foram obrigados, mais de um milhão deles ao longo de 13 anos a quem só duas incertezas se colocavam como alternativa: a guerra ou o exílio. Ambas a precisar de coragem e desprendimento, mas carecendo a segunda de uma determinação suplementar específica, para a qual naturalmente nem todos os mancebos desse tempo estavam capacitados.

Posto isto, devo apenas acrescentar que sou de opinião de que os combatentes da guerra colonial devem ser objecto do afecto e da homenagem do país. Porque eles foram as primeiras e mais sofridas vítimas do conflito que devastou toda uma geração. Porque eles sofreram, mais do que o comum dos cidadãos, as consequências do lusofascismo. E porque um país tem, obviamente, de honrar devidamente os que sofreram e morreram em seu nome, independentemente das circunstâncias.

Por muito que nos doa, a guerra colonial não teve heróis, apenas vítimas. O que a partir daqui se queira dizer é reescrita da história, uma fantasia que tenta em vão dar brilho às trevas. Saloiamente, é por aí que o condómino da Travessa do Possolo insiste em caminhar, talvez convencido de que se dissermos muitas vezes que o sol é um repolho, ele passe efectivamente a sê-lo.
É claro que isto são coisas que o homenzinho jamais conseguirá entender. Falta-lhe ler muito mundo e alguns livros – e, mesmo que queira, creio que já não vai a tempo.


PS (salvo seja) – Um título num noticiário das 13 horas de hoje, talvez ajude a compreender melhor o neurónio do sujeito de que falamos. Dizia assim: «Presidente ouve Passos». É, há casos em que é por aí que se começa. A seguir começará a ouvirá vozes, e sabe-se lá onde é que a coisa pode chegar…

Mais sugestões de leitura

  • Esquecer AbrilOpen or Close

    Ao escolher os seus entrevistados, é nítido que o autor teceu uma teia de afectos que nos enreda à medida que vamos mergulhando neste livro com o vagar das coisas que realmente dão prazer. Mais do que o papel do entrevistador, Viriato Teles encarna o mestre de cerimónias de uma festa que já só acontece na memória de quem aceitou sentar-se a falar. Como num encontro de velhos amigos, há ternuras e rancores antigos, confissões, relatos do que se passou desde o último encontro. E percebemos que os entrevistados, muitos deles protagonistas da revolução, formam um caleidoscópio de palavras que é também a memória que o perguntador quer pintar da «sua revolução». Jornalista e poeta de generosidades, Viriato Teles só pode relatar o seu 25 de Abril nas palavras dos outros e fá-lo com arte e minúcia próprias de mestre ourives. Se vamos esquecer Abril, que seja com este livro.

    Ler Mais
  • Chávez: alguns factosOpen or Close

    “Fez algumas coisas boas, mas destruiu a economia”. É este o tom de alguns comentários que podem ler-se um pouco por toda a parte a propósito do falecimento de Hugo Chávez. Como não gosto de falar de cór e guardo comigo algumas manias de velho repórter relativamente ao rigor informativo, sirvo-me da edição online do Expresso de hoje apenas para dar conta de alguns dados concretos sobre os 15 anos de “chavismo”.

    Ler Mais
  • Saudades de ZecaOpen or Close

    E vão 26 anos sem Zeca, mas sempre com ele - e hoje mais do que nunca. Um pretexto tão bom como qualquer outro para retomar uma prosa incluída na edição mais recente d'As Voltas de um Andarilho:

    A minha memória mais antiga de Zeca Afonso vem do início dos anos 60 do século passado quando, ainda miúdo, ouvia na rádio o «Menino d’Oiro». A televisão era um luxo a que as gentes da classe média desse tempo não podiam dar-se – e, fosse como fosse, ele não frequentava os saraus de variedades que o electrodoméstico transmitia por esses tempos. (...)

    Ler Mais
  • Um poeta na varanda dos deusesOpen or Close

    «Lisboa é como a vida: nós queixamo-nos, mas é muito bom andar por cá.» Dono de um aguçado sentido crítico e de um humor por vezes implacável, Alberto Pimenta reflecte em toda a sua obra uma grande atenção aos problemas do mundo actual, expressa com um rigor de linguagem que faz dele um dos nomes mais importantes, mas também mais incómodos, da poesia portuguesa contemporânea.
    «A cultura é o desporto da classe média», afirmou uma vez. Ainda hoje, há quem não lhe perdoe esta irreverência e a frontalidade dos gestos e das atitudes.

    Mini International | Março 2007

    Ler Mais