O arco da governação

© Sandra Bernardo

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Não nos bastavam o arco-íris, o Arco do Cego, o arco da Rua Augusta, Paço d’Arcos e Arcos de Valdevez. Agora temos também o arco da governação. Trata-se de um curioso conceito gerado no seio do regime democrático, uma espécie de lei-de-murphy para totós segundo a qual o exercício do poder está reservado aos cérebros iluminados do PS, do PSD e, em caso de necessidade para arredondar as contas, do CDS. Não sei em que ignorado artigo da Constituição está escrito que o poder só pode ser exercido pela direita – ou pelo menos à direita, na vã suposição de que ainda reste ao PS uma qualquer vaga consciência original. Deve ser um dos muitos obscuros desígnios do Senhor, que já provou ser capaz de tudo.

Pois dizem-nos desta vez os expertos, analisando uma singular sondagem da Intercampus para a TVI, divulgada esta semana, que «a maioria dos portugueses prefere um governo de coligação». E as contas, feitas pelo Público, não deixam de ser curiosas: 22,8 por cento gostariam de ter um governo PSD/CDS, 24,2 por cento preferiam um governo PSD/CDS, e 25,6 por cento desejariam que fosse apenas um partido a governar. Há ainda 17,7 por cento que apostariam antes num «governo de coligação alargado, com os partidos do arco da governação», a saber, o PS, o PSD e o CDS, naturalmente. Porquê? Porque sim.

Isto tudo devido a que, explica outro experto, professor e politólogo ilustre, «as opções eleitorais são feitas em função daquilo que é razoável esperar». Nomeadamente uma coligação de centro-direita, conclui a redactora da notícia. Porquê? Porque sim, uma vez mais.

De fora do «arco da governação» ficam, dos partidos representados no parlamento, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português (e abstenho-me de incluir os Verdes, para que não digam que não levo isto a sério), duas agremiações que, em quase 37 anos de democracia, nunca governaram o país. Mas exercem ou exerceram o poder em numerosas autarquias (o PCP, principalmente) e com resultados muito satisfatórios durante bastante tempo. Também aqui, claro, os vícios e as deformações de qualquer presença prolongada no poder se fazem hoje sentir, mas ainda assim é consensual a boa qualidade geral do trabalho em prol da comunidade desenvolvido nas autarquias governadas à esquerda do PS. Apesar disso, o BE e o PCP não contam quando se fala do tal «arco da governação». Porquê? Ora, porque sim, naturalmente.

Confesso que me diverte esta facilidade com que tantos e tão diversificado expertos procuram fazer-nos passar por parvos. Tentando, por exemplo, fazer-nos acreditar que a diferença entre os partidos «do arco da governação» e os outros está no «sentido de responsabilidade» de que alegadamente só os primeiro são detentores. O «sentido de responsabilidade» que os levou a ignorar tudo aquilo que já desde há 30 anos tem sido sobejamente alertado – por gente com certeza irresponsável e sem currículo à altura: que o dinheiro não cresce nas árvores e não se produz riqueza sem tecido produtivo; que o estrangulamento da economia real do país, efectivado a partir dos anos 80 em nome da integração europeia (e sob o impulso de um cinzento habitante da Travessa do Possolo, já agora), levava inevitavelmente ao colapso da economia virtual gestora das nossas vidas.

Angustia-me, porém, a passividade com que tantos e tão alarmantes disparates são escritos, publicados, lidos e aceites como se se tratasse de verdades elementares e irrefutáveis. Como um rapaz conselheiro do dos passos-de-coelho, um tal Qualquer-coisa Moedas, que depois de garantir que «aumentar o IVA [na eventualidade de o PSD ser governo] é um caso totalmente hipotético», atira as culpas da crise para o governo e seus ministros, que «nunca apostaram na produtividade do país.» O moço disse isto em público e ninguém se riu nem o presenteou com um lindo e sobejamente merecido par de estalos.

Algures entre o divertimento e a angústia, o arco da governação está sempre presente. No meio dos políticos, como dos jornalistas, onde tanta gente continua a confundir o quarto poder com o quarto do poder. É nisto que não consigo deixar de pensar ao ler a notícia da apresentação da biografia do coelho doméstico escrita por Felícia Cabrita, a conhecida jornalista independente que até já crismou o homem de «o Obama de Massamá». O evento contou com numerosas presenças, com natural destaque para Mário Crespo, detentor durante os últimos meses do título nacional de paladino da liberdade de expressão, ex-æquo com uma ex-deputada do CDS, e tal como ele jornalista independente, denominada Manuela Moura Guedes.

Lá está: tudo jornalistas do arco da governação, i.e., dotados de um apurado sentido de responsabilidade, ao contrário deste que se assina. Para que, sendo embora outra coisa, tudo continue como é. O que promete, para os próximos meses, muitas coisas do arco-da-velha…

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