Que homem é este?

Com a campanha eleitoral para as Presidenciais a chegar ao fim, gostaria apenas de lembrar alguns dados relativos ao candidato Cavaco Silva, o mesmo que conseguiu dizer sem se rir que teríamos de nascer duas vezes para sermos mais honestos do que ele.

Este «homem honesto», reputado e ao que tudo indica mui competente professor de Economia, foi o mesmo que, há dez anos, fez um chorudo e bastante duvidoso negócio com a Sociedade Lusa de Negócios, ao tempo dona do famigerado BPN (onde pontificavam outros «homens honestos», como Oliveira e Costa e Dias Loureiro), a quem comprou um lote de acções a preço de saldo, revendidas (à mesma SLN) menos de dois anos depois com um obtuso lucro de 140 por cento – coisa que qualquer leigo estranharia, para mais tratando-se de acções não cotadas em bolsa. Mas Cavaco, reputado e competente professor de Economia, achou normal. Confrontado, em 2008 e agora, com esse episódio, não hesitou em afirmar: «Nunca comprei nem vendi nada do BPN.» Ah, pois não.

Foi também este «homem honesto» quem, há uma dúzia de anos, fez uma mais que duvidosa permuta de propriedades em que omitiu uma moradia em construção – por acaso apenas o elemento mais importante da «troca» e, afinal, a razão de ser do próprio negócio.

Foi, ainda, este «homem honesto» que, em plena campanha eleitoral, e quando confrontado por uma pobre mulher com uma das muitas situações de miséria que se vivem em Portugal, não hesitou em empunhar a esposa fiel como exemplo absurdo, chegando mesmo ao desplante de garantir que a sua Maria, coitada, só tem uma parca reforma de 800 euros, «apesar de ter trabalhado toda a vida como professora» – uma mentira manifesta, mas apenas mais uma.

Mas o mais revelador quanto ao carácter, ou falta dele, deste «homem honesto» aparece numa declaração feita à PIDE nos anos 60 – e entretanto divulgada pela revista Sábado e reproduzida abundantemente na Imprensa, na Televisão e na Internet. Não pela declaração em si (era um papel necessário para um qualquer assunto profissional, e decerto semelhante ao que foi preenchido por muitos milhares de cidadãos realmente honestos deste país), mas pela atitude do então jovem e ambicioso Aníbal, que fez questão de ir muito para além da formalidade exigida pela polícia política ao declarar, primeiro, que se sentia identificado com os princípios do fascismo (o questionário não lhe exigia tanto e bastava-lhe ter afirmado não ter qualquer actividade política, mas o rapaz quis que aos pides não restassem dúvidas, e tratou de acrescentar que era um homem «integrado no actual regime»), e depois – e este é o ponto em que a indignidade da criatura se revela em todo o esplendor – ao afirmar, sem que para tal fosse questionado, que «não privava» com a segunda mulher do sogro, logo de seguida identificada pelo nome completo. A isto chama-se um acto reles de bufaria elementar. Para o efeito, era irrelevante a relação do requerente com a senhora, mas Cavaco, para que não restassem dúvidas da sua fidelidade ao trinómio «deus, pátria, família», tratou logo de a denunciar a quem tinha por missão zelar pela moral e bons costumes da pátria, deixando muito claro que não mantinha com a esposa do sogro qualquer relacionamento, não fosse o diabo tecê-las.

A este «homem sério», que nunca se engana e raramente tem dúvidas, que não lê jornais e se recusa a responder às questões que a sua própria história lhe coloca, foge frequentemente o pé para o chinelo e a língua para a verdade. Foi o que aconteceu nessa altura, e voltou a acontecer agora, já na recta final da campanha, quando veio «alertar» o povo para os «perigos» que representaria para Portugal «na situação económica e financeira complexa em que se encontra, se prolongássemos por mais algumas semanas esta campanha eleitoral.»
Porque – Cavaco não se atreve a dizê-lo preto no branco, mas está implícito na sua declaração – isto da democracia é uma chatice, e o país pouparia um dinheirão se, em vez de eleições, nos dedicássemos todos mas era a produzir mais – e mais barato, para acalmar os mercados como se impõe.

Muito mais haveria para dizer sobre o carácter mesquinho e pouco sério deste «homem honesto», mas ficamos por aqui. Durante os últimos cinco anos, Cavaco deu provas suficientes da sua vocação para ser o Américo Tomás do regime democrático. Tal como o venerando almirante, também este mísero professor ocupará um dia um lugar de destaque no anedotário nacional. Pode até ser bom para os humoristas, mas por mim preferia ter um presidente que não me envergonhasse perante o resto do mundo. Será que é pedir muito?

 

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    Revista MPP | Julho 1994

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