Uma espécie de poema, por ser hoje

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Lembrança e afecto(a)ção de João do Rio Bizarro Teles, cidadão meu pai.
Escrito algures entre 1997 e 2001, de Ílhavo para Lisboa, ou vice-versa.

 

Do meu pai herdei uma tendência
para os calos e as hérnias. O jeito
para a inquietude, a miopia, memórias suaves,
sinais nas costas, um nome capaz. Como todas
as histórias, também esta poderia ser melhor, mas é sabido
que a vida real não condiz com a poesia,
e nem sempre o riso rima
conciso com siso
como se quer.

O meu pai morreu triste de ternura imoderada
e fiquei só
com os meus calos doidos e a vaga tendência
para as hérnias e o resto. Poderia, enfim, revisitar os dias úteis,
adormecer uma vez mais de estouvamento na Rua da Capela. Ou
ouvir-lhe a perpétua mansidão dos dedos indagando primaveras.

Talvez assim a vida fosse como nos livros,
e a dor que calo
não fosse o fim desta história
de calos e de hérnias e outros assins sem remédio.

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