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Nestes dias em que tanto se fala de José Afonso e do seu génio, gosto sobretudo de recordar que, para além da música, o Zeca era acima de tudo um homem. Um homem empenhado nas grandes lutas do seu tempo, com certeza, que procurou viver de modo integral – o que só se alcança quando se assume viver com as fragilidades, as virtudes, os defeitos, as grandezas e as contradições comuns a todos os homens.

Há hoje uma tendência, por parte de alguns dos seus/meus amigos (e porventura ainda mais dos que nunca o conheceram, à parte umas quantas adultas e descompassadas bestas que ainda não desistiram de demonizá-lo como perigoso agitador comunista), uma tendência, dizia, para um certo culto da memória de Zeca Afonso que tende a transformá-lo numa «unanimidade nacional» ou, pior ainda, numa espécie de «santo de madeira», como diria Nicanor Parra. E isso é mau e injusto – uma inverdade, como agora se diz em linguagem jornalístico-parlamentar – porque o Zeca nunca quis ser unânime. Ele escolheu conscientemente o lado da vida onde queria estar, mesmo sabendo que isso implicava um preço a pagar. E pagou-o, com juros elevadíssimos, como bem sabemos.

O Zeca era um homem preocupado como poucos com os problemas dos seus iguais. O que não o impedia de ter um sentido de humor frequentemente sibilino, de que aliás há testemunho em várias das suas canções ou em pormenores que fazia incluir nos discos – fossem as estrambólicas introduções improvisadas de temas como Senhor Arcanjo ou Rio Largo de Profundis, ou detalhes imperceptíveis a olhares menos atentos – e deixem só que lembre, de passagem e porque a propósito, a ficha técnica da edição original do álbum Coro dos Tribunais (Orfeu, 1974) onde, a par dos vários instrumentos, incluiu uma subtil referência aos «gases e flatulências» executados, digamos assim, no estúdio por ele próprio, pelo Adriano, o Fausto e o Carlos Moniz – o que ainda hoje é recordação gaudiosa, como bem se entende…

zek83_300.jpgO José Afonso que conheci era um homem que conjugava uma grande aptidão para o diálogo com uma inamovível capacidade de indignação. E era, claro, um indivíduo complexo, por vezes difícil, intransigente consigo mesmo e com os outros, mas também capaz da complacência, com muito mais dúvidas do que certezas. E é essa dimensão que faz dele um ser de excepção, para lá do genial poeta e compositor e cantor que foi – e continua a ser. Ou, se quisermos, como escreveu Baptista-Bastos sobre Che Guevara: «havia nele qualquer coisa de divino porque era simplesmente um homem».
Recordemo-lo assim, então, porque é assim que se mantém vivo tudo aquilo que nos legou.

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    – Foi muito grande. Muito maior do que aquilo que eu na altura teria entendido, hoje tenho essa dimensão. Repara que eu venho de um meio muito específico, que é o meio do fado. Na altura não se sabia, mas hoje está provado que, durante o período de gestação, o bebé recebe todas as influências da mãe. Todas. E a minha mãe, por razões conjunturais da vida dos meus pais, teve de cantar até ao oitavo mês de gravidez. Cantava de xaile para disfarçar a barriguinha, mas foi um período muito difícil na vida deles. Isto são histórias que me foram contadas por ela e pelo meu pai. Eu nasci em 1939, estava a começar a guerra na Europa, havia muito desemprego, e o meu pai, que era um brilhante livreiro, esteve um período sem trabalho, sem qualquer trabalho. E portanto era necessário alguém sustentar a família, e foi a minha mãe que o fez. E lá estava eu, dentro daquela barriguinha, a ouvir fado, até ao oitavo mês. Eu sou oriundo disto.

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    Carlos Antunes. Segredos e outras histórias de um guerrilheiro urbano.

    O Jornal Ilustrado | 19.Out.1990
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