zekpc350.jpg

Nestes dias em que tanto se fala de José Afonso e do seu génio, gosto sobretudo de recordar que, para além da música, o Zeca era acima de tudo um homem. Um homem empenhado nas grandes lutas do seu tempo, com certeza, que procurou viver de modo integral – o que só se alcança quando se assume viver com as fragilidades, as virtudes, os defeitos, as grandezas e as contradições comuns a todos os homens.

Há hoje uma tendência, por parte de alguns dos seus/meus amigos (e porventura ainda mais dos que nunca o conheceram, à parte umas quantas adultas e descompassadas bestas que ainda não desistiram de demonizá-lo como perigoso agitador comunista), uma tendência, dizia, para um certo culto da memória de Zeca Afonso que tende a transformá-lo numa «unanimidade nacional» ou, pior ainda, numa espécie de «santo de madeira», como diria Nicanor Parra. E isso é mau e injusto – uma inverdade, como agora se diz em linguagem jornalístico-parlamentar – porque o Zeca nunca quis ser unânime. Ele escolheu conscientemente o lado da vida onde queria estar, mesmo sabendo que isso implicava um preço a pagar. E pagou-o, com juros elevadíssimos, como bem sabemos.

O Zeca era um homem preocupado como poucos com os problemas dos seus iguais. O que não o impedia de ter um sentido de humor frequentemente sibilino, de que aliás há testemunho em várias das suas canções ou em pormenores que fazia incluir nos discos – fossem as estrambólicas introduções improvisadas de temas como Senhor Arcanjo ou Rio Largo de Profundis, ou detalhes imperceptíveis a olhares menos atentos – e deixem só que lembre, de passagem e porque a propósito, a ficha técnica da edição original do álbum Coro dos Tribunais (Orfeu, 1974) onde, a par dos vários instrumentos, incluiu uma subtil referência aos «gases e flatulências» executados, digamos assim, no estúdio por ele próprio, pelo Adriano, o Fausto e o Carlos Moniz – o que ainda hoje é recordação gaudiosa, como bem se entende…

zek83_300.jpgO José Afonso que conheci era um homem que conjugava uma grande aptidão para o diálogo com uma inamovível capacidade de indignação. E era, claro, um indivíduo complexo, por vezes difícil, intransigente consigo mesmo e com os outros, mas também capaz da complacência, com muito mais dúvidas do que certezas. E é essa dimensão que faz dele um ser de excepção, para lá do genial poeta e compositor e cantor que foi – e continua a ser. Ou, se quisermos, como escreveu Baptista-Bastos sobre Che Guevara: «havia nele qualquer coisa de divino porque era simplesmente um homem».
Recordemo-lo assim, então, porque é assim que se mantém vivo tudo aquilo que nos legou.

Mais sugestões de leitura

  • O samba que veio do morroOpen or Close

    «O samba é uma das músicas mais fortes do mundo, porque é o resultado de três raças: o africano, o português e o índio brasileiro. É por isso que o samba tem uma coisa que nenhuma outra música tem: um ritmo fora do comum, aliado a uma melodia e uma harmonia geniais. E isso deve-se à união maravilhosa entre a melodia portuguesa, o fado – que é um lamento lindo! – com o ritmo africano. O samba é mulato...» Baden Powell, Lisboa, 1982.

    Ler Mais
  • Elogio da inocênciaOpen or Close

    Naquele tempo éramos todos imortais. Havia mais mundos para lá do mundo que nos era dado conhecer e onde nos era permitido viver. E nós sabíamos. Era o tempo das coisas inevitáveis, como a realidade imaginada, a noite a descobrir, o sonho, a urgência das coisas para viver. E nós vivíamos. E inventávamos sons e momentos, da mesma forma rigorosa e apaixonada com que fazíamos crescer os silêncios até o seu clamor invadir tudo. Foi nesse tempo e dessa forma que o Geraldo se tornou meu irmão. Ele era imortal, como eu, e os imortais sabem sempre reconhecer os da sua laia.

    Prefácio a Cravos com Espinhos, de Geraldo Alves | 2003

    Ler Mais
  • A vida em alta velocidadeOpen or Close

    O homem que agora se senta à minha frente está destinado a vencer a morte. Fala muito e em ritmo acelerado, mas nunca fala por falar. Os olhos não param quietos, mesmo quando se dirigem para nós. Pontua a conversa com gestos largos, próprios de quem sabe o que quer e tem pressa de o concretizar. A sua vida é um corrupio de cenas e emoções, poemas e paixões, amigos e bebedeiras. Olho-o e penso que poucos actores conseguem aguentar um ritmo de trabalho tão intenso como este Mário Viegas, mas menos ainda são capazes de que a essa intensidade corresponda uma tão grande dose de prazer.

    Ler Mais
  • Viagem à Utopia do CheOpen or Close

    (...) um livro singular escrito por um português raro: o jornalista Viriato Teles é o repórter que vai ao interior da utopia para dela nos dar conta no portentoso A Utopia segundo Che Guevara, editado pela Campo das Letras. (...) E Viriato Teles está em todo o lado, com o melhor que isso tem: em Havana, captando, para nos oferecer, as cores e os sons seculares; na Sierra Maestra, interpretando o berço e a mística da revolução mais romântica da História; junto dos que privaram com Che, ouvindo-os para nos dar a ouvir o que têm a dizer; na garupa de todos os ecos do guerrilheiro para nos convidar à reflexão; (...) na elegância das palavras, a um mesmo tempo objectivas e apaixonadas, que enformam uma prosa ardente para fazerem deste livro um objecto de culto.

    Ler Mais