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A minha memória mais antiga de Zeca Afonso vem do início dos anos 60 do século passado quando, ainda miúdo, ouvia na rádio o «Menino d’Oiro». A televisão era um luxo a que as gentes da classe média desse tempo não podiam dar-se – e, fosse como fosse, ele não frequentava os saraus de variedades que o electrodoméstico transmitia por esses tempos.

Foi, pois, pela rádio que tive o meu primeiro contacto com esta música, a sua música. Baladas ao jeito de Coimbra, ainda, embora já afastadas do tradicionalismo puro e duro que ainda ditava as regras entre a estudantada. Mas isso, claro, eram coisas que, nessa altura, eu desconhecia porque não passava duma criança a quem a minha mãe trauteava os versos ouvidos nas ondas hertezianas:
«O meu menino é d’oiro / é d’oiro fino / não façam caso que é pequenino…»

Pelos meus pais vim a saber mais tarde que o intérprete dessa melodia suave que embalava tantos dos meus sonos se chamava José Afonso. Melhor: Dr. José Afonso, por força da estratégia comercial da editora. O título académico marcava a origem coimbrã do cantor e distinguia-o dos cançonetistas vulgares. A verdade é que, aos olhos do povo, o dê-érre marcava a diferença, muito embora o próprio não apreciasse tais reverências. E também não foi por isso que ele passou a ser mais ouvido lá em casa. Foi mesmo pela música e pelo empenhamento político, duas coisas a que a tribo familiar atribuía grande importância.

Nessa altura também ainda não sabia que eu e o Zeca tínhamos várias outras coisas em comum, a começar pela proximidade geográfica: ele nasceu em Aveiro, a escassos cinco quilómetros da terra onde vim ao mundo. E foi na cidade da ria que nos cruzámos fisicamente pela primeira vez, num encontro quase sem história (e, para ele, decerto sem memória), pouco tempo passado sobre o 25 de Abril de 74, numa altura em que Zeca ali foi para um dos muitos milhares de convívios cantigueiros desse tempo em que tudo nos parecia possível.

Antes disso, porém, registo um pequeníssimo episódio que – fosse eu dado a essas crenças – quase poderia ser visto como um sinal premonitório dos encontros futuros. As minhas primeiras veleidades jornalísticas, chamemos-lhe assim, aconteceram com umas prosas ingénuas que vieram a lume nas páginas do suplemento juvenil do «República», corria então o ano de 1973. Ora acontece que um desses textos – não sei já se o primeiro de todos, mas pelo menos o mais antigo de que guardo registo – surgiu publicado, para orgulho meu e dos que me estavam próximos, lado a lado com uma foto de Zeca Afonso. Por nenhuma razão especial, apenas porque calhou ou porque o paginador quis que assim fosse.

Imagina-se, portanto, o meu orgulho desses dias: não apenas tinha uma prosa publicada em letra de forma, como ainda por cima vinha lado a lado com o retrato de tão ilustre cidadão. Convém esclarecer, para quem não saiba ou já não se lembre, que nesse tempo o acesso aos jornais era, malgré tout, bastante mais difícil do que nos dias de hoje, quanto mais não fosse porque havia uma instituição chamada Censura, que se mostrava particularmente atenta às fogosidades juvenis. Mas isso são outras histórias.

Voltando ao Zeca: continuei a seguir-lhe o rasto e quis o destino que nos reencontrássemos, agora de modo mais consistente, um par de anos depois desse primeiro encontro fortuito em Aveiro, algumas centenas de quilómetros mais a sul. Eu dava os primeiros passos no jornalismo profissional e mantinha uma colaboração regular com uma revistinha que fez história a partir do Porto – o Mundo da Canção, ou MC, para os mais íntimos  – e coube-me a agradibilíssima tarefa de o entrevistar.

Lembro-me bem da minha chegada a Azeitão, num sábado de manhã, e da forma como o Zeca me recebeu: de pijama e com a barba por fazer, naquele seu jeito tão sem-cerimónia que chegava a ser desconcertante. Lembro-me de como ele procurava esquivar-se a falar de música porque havia outras coisas sobre as quais lhe dava muito mais gozo discorrer: as conversas na serra da Arrábida com o Ti Zé Pastor, a gente simples do país real no meio de quem se sentia sempre em casa, o Zé da Merda «que alugava bolas à malta» no Campo de Santa Clara, a vida vivida com intensidade e paixão. Lembro-me, também, do grande sentido de humor, uma das suas características mais vincadas e que ele nunca abandonou – nem mesmo quando a doença começou a (do)minar o seu dia-a-dia.

Recordo, por exemplo, a maneira como sorria matreiramente ao lembrar aventuras juvenis coimbrãs e o surripianço de livros, em que foi iniciado por um grande mestre dessa arte marginal, o também poeta, e amigo comum, Luís Pignatelli: «Tinha a mania de ir à biblioteca dos padres, onde, além de castiçais e relicários, havia livros.»

Esta e outras histórias ficaram registadas nessa primeira entrevista, de que saiu também uma foto (de Fernando Negreira) que viria a ser utilizada mais tarde no disco «Fados de Coimbra e Outras Canções», o último gravado para a editora de Arnaldo Trindade: o Zeca de capote alentejano ao ombro e saco de viagem na mão, a caminho da camioneta que havia de levá-lo a Lisboa, de onde partiria até às Caldas da Rainha para uma das suas famosas sessões termais que frequentava para tentar amenizar a sinusite e a hipocondria.
Depois disso (e «isso» foram dois ou três fins-de-semana de vai-vem entre Lisboa e Azeitão, tempo necessário para que eu considerasse a entrevista como pronta a sair) passámos a encontrar-nos com mais regularidade, quase sempre sem marcação nem «agenda» prévia, ao sabor dos acasos e das lutas. Tive, entretanto, o ensejo de o entrevistar mais uma série de vezes, para o Se7e e para O Jornal. De um par dessas «conversas profissionais» nasceu a primeira versão destas Voltas de um Andarilho, publicada pela primeira vez em 1983.

De todos os momentos e todas as histórias que partilhámos, há obviamente alguns mais inesquecíveis do que outros. Como por exemplo o dia em que fui com o Fernando Assis Pacheco visitá-lo a Azeitão, em vésperas do concerto do Coliseu, e quase nos perdemos no meio de um nevoeiro sebastianico. Ou a tarde em que me telefonou, irado, porque a campanha do candidato presidencial Mário Soares, em pleno confronto de segunda volta com Freitas do Amaral, se tinha apoderado do seu «Natal dos Simples» sem dizer água-vai. Ou o modo como ficou sensibilizado quando lhe contei do cançonetista famoso que me tinha procurado para dizer que era «um filho-da-puta igual aos outros», mas que sabia da doença do Zeca e estava disponível para contribuir mensalmente com uma prestação pecuniária regular e até nem se importaria de ajudar a organizar um espectáculo de solidariedade, mas que não queria nenhuma publicidade em volta desse assunto.

De todas estas minhas memórias do Zeca se fez este livro. E, apesar de notoriamente curtas em comparação com as de muitos outros companheiros, sei que ainda fica muito por contar. Mas não posso, nem quero, deixar de recordar o quase desconhecido movimento em que nos envolvemos por ocasião do surto grevista polaco, em inícios dos anos 80, que foi o primeiro prenúncio do derrube do «socialismo real». Um episódio pouco importante e que na altura foi ignorado por quase toda a gente, mas que não deixa de ser motivo de orgulho para todos os envolvidos.

Em plena «crise de Gdansk», com o sindicato Solidariedade de Lech Walesa a tornar-se o pólo de todas as atenções, houve em Portugal uma escassa meia centena de cidadãos lúcidos, de vários quadrantes políticos e sociais, para quem a razão não estava nem do lado dos apoiantes nem dos detractores da alegada «central sindical» polaca. O Zeca era um deles, e foi quem me desafiou para reunir (com o Fausto, o Carlos Loures, o Orlando Costa e mais uns quantos malandrins) em casa do Carlos Leça da Veiga para a elaboração de um documento a que chamámos «Que a lição da Polónia não seja em vão» . No texto, de modo involuntariamente premonitório, alertávamos para as consequências de um movimento popular que a esquerda desse tempo teimava em menorizar e de que a Igreja Católica e toda a direita europeia não hesitavam em apoderar-se – com resultados que poderiam ser dramáticos, como alguns anos depois veio a verificar-se, ultrapassando aliás as nossas expectativas.

O «comunicado» que então elaborámos, resultado de várias horas de discussão desinteressada, seria olimpicamente ignorado tanto pelos órgãos de comunicação dos vários quadrantes como pelas organizações políticas da época, incluindo aquelas onde pontificavam muitos dos nossos amigos. Nenhum nos disse, mas suponho que todos (ou quase) nos devem ter tomado por «um grupo de maluquinhos» armados em analistas de ocasião. Que eu saiba, o papelinho apenas foi divulgado nos espectáculos d’A Barraca, e a coisa não teve mais repercussões públicas.

Meia dúzia de anos depois, a queda do Muro de Berlim e todo o estardalhaço que se seguiu deram-nos razão. Mas, nessa altura, já era tarde de mais. E o Zeca já não estava cá para ver…
 

In As Voltas de um Andarilho, ed. Assírio & Alvim
23.Fev.2013

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