A quinta dimensão

Era o mês de Outubro, em Lisboa e no resto do mundo. Nessa manhã de pouco sol, Aristides acordou com vaga sensação de que a Terra inteira estava a enlouquecer à sua volta. Devagarinho, de forma quase imperceptível, sentia crescer nos seus ouvidos o zumbido característico da loucura. Pensou que podia ser só uma impressão passageira e que dentro de minutos, tudo regressaria à normalidade.

O seu lado previdente ainda tentou avisá-lo: talvez fosse ele, Aristides, quem estava a ficar louco. E lembrou-se das histórias que lhe contavam ou que lia, uma vez por outra, nos jornais, histórias de pessoas como ele que, dum momento para outro, começavam a acreditar que todos os outros estavam a passar-se para o lado de lá. Mas a verdade é que, desta vez, tudo parecia perigosamente mais real.

Era. O Aristides apercebeu-se disso enquanto se barbeava, no momento exacto em que a telefonia lhe anunciou criação de um novo código jurídico para a defesa dos superiores interesses do País. Ou seria o contrário, o que, bem vistas as coisas, dá rigorosamente no mesmo. Fosse o que fosse, era dito por uma voz sem rosto, em idioma português corrente, voz de ministro, economista, secretário de Estado ou director-geral, daqueles a quem cabe a ingrata tarefa de acalmar os populares de cada vez que os governos se decidem por um novo imposto, pelo aumento do tabaco ou do bifes ou por um novo acordo com os americanos. Falava também, de identidade nacional e integração europeia, coisas complicadas até para um cérebro vivido como o de Aristides.

O locutor identificou a voz eloquente com um nome que nada significava. Para Aristides, os nomes não importavam desde que decidira passar a designar os ministros, secretários e subsecretários de Estado simplesmente pelas funções que exerciam: o das Finanças, o da Saúde, o do Emprego, o Disto, o Daquilo. Era mais simples e não implicava qualquer esforço de reciclagem de cada vez que havia alterações no elenco governativo. Desta vez, porém, ficou espantado a reparar que, já no fim do discurso, o homem deixava de falar como as pessoas, passando a emitir ruídos estranhos, muito parecidos com um qualquer problema aerofágico.

«Deve ser uma avaria técnica», pensou Aristides, que aprendeu desde pequenino a ser optimista. E procurou não pensar mais nisso. Vestiu-se, saiu e fechou a porta como de costume. Chegou ao escritório à hora habitual, cumprimentou os colegas e sentou-se, pronto para cumprir mais uma jornada de trabalho.

O chefe apareceu, como sempre, às dez em ponto. Vinha calado e sorumbático, como acontecia de cada vez que tinha más notícias para transmitir aos subordinados. Aproximou-se de Aristides e disse qualquer coisa. Depois, virou costas e foi para o gabinete de vidro onde, dia após dia, controlava o funcionamento e a eficácia da sua secção.

Aristides ficou mudo e quedo, tentando descodificar o que estava a acontecer. O chefe falara-lhe exactamente como o homem da telefonia, com os mesmos sons estranhos e ininteligíveis. Olhou para os colegas, à espera de uma reacção, mas não houve nenhuma. Era como se tudo aquilo fosse absolutamente normal, absolutamente real.

«Acalma-te», disse para si próprio. «Vais ver que está tudo bem.»

Pelos vistos, não estava. À hora do almoço, aconteceu-lhe a mesma coisa, desta vez com o homem do restaurante de que era cliente havia anos. Aristides já nem sequer protestou quando, em vez de uma dose de arroz malandro lhe trouxeram três pastéis de nata e uma imperial. Cada vez menos optimista, ainda pensou que talvez fosse da mudança do tempo. Saiu para a rua, tentando respirar normalmente. Sentia-se invulgarmente nervoso e, durante toda a tarde, procurou em vão concentrar-se no trabalho que tinha para fazer.

O pior foi quando teve a triste ideia de perguntar à Alice, sua vizinha de secretária há mais de dez anos, se queria jantar com ele essa noite. A rapariga olhou para ele, esbugalhada, como se tivesse acabado de ouvir a mais perfeita barbaridade do século. Os outros colegas suspenderam, igualmente espantados, o trabalho rotineiro. Aristides começou a sentir-se incomodado.

«Desculpem», disse. «Eu não queria...»

Alice olhou para os colegas, os colegas olharam para ele e, de repente, desataram todos a falar daquela forma estranha e enrugada, com os mesmos ruídos que já conhecia do rádio, do chefe e do homem do restaurante. Francamente atrapalhado, Aristides tentava, desesperadamente, compreender o que estava a passar-se à sua volta.

Foi nessa altura que dois homens pequeninos, vestidos de branco, entraram no escritório, ameaçadores. Pegaram nele e levaram-no, indiferentes aos seus protestos. Os outros grunhiram de alívio e o escritório regressou à normalidade.

As últimas notícias que tive do Aristides são francamente animadoras: já aprendeu a dizer frases elementares, como «aarght grthnhc frokp», e os médicos estão muito optimistas quanto à sua recuperação.

Se7e | 1988

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