Que há-de ser de nós?

Seremos muitos
seremos alguém

José Afonso

1. Éramos muitos, mais de um milhão. Éramos jovens e pensávamos que mudar o mundo era uma tarefa ao alcance das mãos. A poesia estava na rua, ali mesmo ao nosso lado, e a revolução era para já.

O mundo corria num turbilhão e a maioria de nós não tinha sequer tempo para perceber que era protagonista de um happening - único, como é da natureza dos happenings - na história política do século XX: uma revolução com cravos em vez de tiros, que do dia para a noite nos propiciava a lenta aprendizagem da liberdade, a sedução de viver sem medo.

Hoje, esta conversa talvez soe a lugar comum. A liberdade banalizou-se e passou a ser dado adquirido, mesmo quando um assassino fardado de gnr suburbano nos faz pensar que o fascismo ainda não acabou. Há vinte anos tinhamos muito mais certezas, mas à cautela preferíamos, como o Mário-Henrique Leiria, continuar «a pau, sempre a pau».

2. Éramos muitos, impossível saber quantos. E hoje, onde é que estamos? Nós, os que tivemos o privilégio de participar na vertigem dos tempos da brasa em que todas as esperanças eram permitidas, em que lugar nos metemos ou deixámos que nos metessem?

Alguns aparecem de vez em quando, engravatados e infelizes, pedindo desculpa pelo tempo que perderam enquanto eram novos - eles que até podiam estar bem na vida se não tivesse sido a merda daquele idealismo radical, coisas que uma pessoa faz sem pensar nas consequências!

Outros desapareceram sem deixar rasto nem rosto. Mais tarde acabamos por saber que F montou uma empresa com um subsídio europeu, S libertou-se da família e fugiu com uma morena boazona, B está agarrado ao cavalo e vai acabar em primeiro, Y mudou de sexo e sente-se bem, Z deu em judite e não se mostra arrependido, X foi dentro e nunca mais voltou, J deu um tiro nos cornos a meio da noite, vá-se lá saber por quê.

Os mais bem sucedidos chegaram a ministros de pastas diversas, administradores de empresas, gestores públicos e privados, porta-vozes e comentadores políticos. Outros contentam-se em ser poetas, artistas ou vagabundos, deliberadamente colocados na margem da vida real. Essa mesma que apagou de vez a ideia do amor e uma cabana ou de qualquer outra fórmula mágica de felicidade alguma vez imaginada.

3. Éramos muitos, éramos todos. Depois crescemos. Alguns, definitivamente convertidos ao preto-e-branco da realidade, tornaram-se hirsutos e deixaram-se envelhecer mais cedo do que seria normal. Ser responsáveis já não lhes basta, agora querem acima de tudo ser respeitávieis.

Iluminados por uma verdade qualquer, tentam então impôr-nos a sua moral, sem se darem conta de que isso é em si mesmo uma imoralidade. E de repente damos connosco a olhá-los com um sentimento misto de pena e de desprezo: era isto o que nos prometeram, foi por isto que lutámos?

Sabemos que não. E também sabemos que, lá no fundo, nem eles próprios devem acreditar naquilo que dizem e fazem. Mas há que ganhar o respeito alheio, nem que seja à custa da dignidade própria. E ei-los transformados de repente numa espécie de cavalos-de-cortesias do regime democrático.

Mudam-se as árvores para que a floresta fique na mesma, que o importante mesmo é domesticar os sonhos segundo as regras de Bruxelas e manter as consciências em formato normalizado. É chato, mas há que respeitar as exigências da competitividade - ou nunca seremos grandes como os alemães, inteligentes como os ingleses e bonitos como as nórdicas em geral.

Para pequenos já bastam os belgas, subdotados temos os austríacos e de feios ficamos bem servidos com os gregos, coitaditos. Avante, pois, Portugal! Para a Europa, rapidamente e em força. Ou para a Bósnia, que nós não somos menos que os americanos. Ou seremos?

4. Éramos muitos, éramos tantos! E se calhar ainda somos, mas andamos distraídos. Da revolução (não falo da nossa, mas da outra, aquela que os burocratas se encarregaram de despedaçar) sobrou acima de tudo a prova de que não é possível obrigar as pessoas a serem felizes. Porque - é dos livros - a felicidade apenas se constrói até ser alcançada, deixando de o ser assim que outra vontade surge.

E no entanto ainda há quem não desista de lutar por ela, por vezes tão atabalhoadamente que o resultado acaba por ser o oposto daquele que desejavam. Mas continuam, conscientes de que o importante é o que se aprende, o que se vive. Eles sabem - nós sabemos - que a realidade não lhes deixa grande espaço de manobra, mas são teimosos e insistem. E resistem.

A única certeza é não haver certeza nenhuma e, por consequência, talvez nem esta seja a única certeza. Assim distribuímos angústias e afectos, mais dispostos a fazer perguntas do que a encontrar respostas. Foi isto que aprendemos nos anos de glória e é provavelmente isto o que de melhor temos para deixar aos filhos e aos netos. Orgulhosamente acompanhados, continuamos, estrada fora, na direcção de uma outra Utopia. Éramos tantos, que foi feito de nós?

Combate | 1996

Mais sugestões de leitura

  • Um disco, um estúdio, uma históriaOpen or Close
    A imagem é um retrato quase banal: um homem e uma caixa de viola numa estação de comboios, um relógio onde ainda não são duas horas, um cartaz na parede com o mesmo homem e a mesma viola, gente normal em volta. O homem da viola é Sérgio Godinho, a estação, lê-se no painel de azulejo sobre a porta, é Campolide. Há 35 anos, o homem, a viola e a estação tornaram-se num disco com dez canções sem tempo.
    Notícias de Campolide | Set.2014
    Ler Mais
  • À flor das cidadesOpen or Close

    Viriato escreve como se estivesse de partida para mais um combate que vai perder. Como se interminavelmente esperasse a amada num bar da Havana velha sabendo que a amada não vai empurrar os batentes. Viriato sabe que a revolução é um lírio da Mesopotâmia. Na interminável espera, Viriato escreve, talvez em toalhas de papel. Mas não desespera.

    Ler Mais
  • O fado das águiasOpen or Close

    O Benfica está em crise e o país real acompanha, ansioso, as angústias, as dúvidas e o sofrimento das águias da Luz. Vão longe os dias em que «ser benfiquista era ter na alma a chama imensa», como cantava o incomparável Luís Piçarra. Mas isso era no tempo em que quem não era do Benfica, não era bom chefe de família. Agora, com a instituição familiar em notório declínio, como poderia o Benfica navegar noutras águas que não as do desencanto?

    TSF | 15.Out.1997

    Ler Mais
  • Maria Teresa HortaOpen or Close

    Uma mulher que gosta de ser mulher e por isso não se conforma com aquilo que dizem ser o destino das mulheres. E por isso luta, e por isso escreve, e por isso grita. Eis Maria Teresa Horta, mulher e escritora que a partir dos anos 60 se afirmou como uma voz central da poesia portuguesa, pela coragem de romper com estereótipos e tabus que pareciam inquestionáveis.
    O corpo, o prazer, o sexo, eram então coisas sobre as quais uma senhora não deveria falar, muito menos em público. E por isso quando, em 1972, se junta a Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa para a publicação das Novas Cartas Portuguesas, o escândalo foi tremendo: o livro foi apreendido e as autoras levadas a julgamento.

    Ler Mais