As palavras e os números

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A celebração do cinquentenário da Declaração Universal dos Direitos Humanos foi, como era de esperar, motivo para as mais diversas intervenções de figuras mais ou menos públicas.

O Prémio Nobel José Saramago não deixou passar a oportunidade e, como era de esperar de um humanista atento, aproveitou o discurso perante a Academia Sueca para lembrar que quase metade da riqueza do mundo está nas mãos de 225 impérios financeiros, enquanto mais de metade da população do planeta vive com carências elementares.

Esta verdade tão simples, mas tão incómoda, não agradou a Vasco Pulido Valente que, na sua coluna dominical do Diário de Notícias, desatou a questionar Saramago sobre os números. Porquê 225 e não 226?, interrogava-se Pulido Valente. E por que diz o Nobel que esses 225 detém 47 por cento da riqueza? Quem foi que lhe disse?, questiona a Valente criatura.

Não deixa de ser curioso que o Prémio Nobel da Literatura seja questionado não pelas palavras que diz e escreve, mas pelos números que apresenta.

É verdade que os números incomodam. Sobretudo estes números, a que Saramago poderia ter juntado outros, igualmente reais e terríveis.

Poderia ter dito, por exemplo, que todos os anos, morrem de fome e de carência de cuidados médicos mais de 50 milhões de pessoas, na sua maioria crianças. Ou que mais de mil milhões comem apenas o indispensável para não morrer de fome, porque mais de metade da população do planeta vive com menos de 2 dólares por dia.

Saramago poderia ter acrescentado que dezenas de milhões de crianças e jovens vivem, comem e dormem nas ruas, 300 milhões de crianças nunca terão da infância outra recordação que não seja o não seja o trabalho precoce. E que mais de 1200 milhões de homens e mulheres estão desempregados.

Saramago poderia ter dito tudo isto e falaria tão claramente verdade como quando referiu os 225 detentores de 47 por cento da riqueza do mundo.

O espanto de Pulido Valente é, obviamente, o espanto de quem tem do mundo a ideia fluorescente de Beverly Hills e de Wall Street. “Onde é que Saramago leu isto?”, interroga, embasbacado, o ex-deputado. O mesmo que, ainda há bem pouco tempo, confessava perante o parlamento não fazer a mínima ideia de quanto é o salário mínimo nacional.

RCS | 16.Dez.1998

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