Luta de clics

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O ministro Sousa Franco anunciou esta semana ao mundo que o elevado nível de vida dos portugueses é uma realidade estimável pela quantidade de telemóveis em circulação.

A revelação é sem dúvida surpreendente e arrisca-se mesmo a pôr em causa os conceitos de bem estar definidos, uns por Marx, outros por Adam Smith, mas todos eles vulgarmente aceites como verdadeiros pelos economistas de todas as tendências.

Com Sousa Franco, ficámos a saber que o mundo não se divide  em classes, mas em redes telefónicas.
No entanto, com o fim anunciado da História e, sobretudo, com o avanço imparável da tecnologia,  levantam-se algumas questões que podem obstar à aplicação do novo paradigma do progresso social defendido pelo ministro das Finanças.

Segundo este conceito, os utentes da rede fixa corresponderão à outrora chamada classe operária?
Mas, a ser assim, qual o papel das modernas e dispendiosas centrais digitais, manifesto sinal exterior de riqueza de uma certa burguesia intemporal? Não será mais correcto reduzir o proletariado aos utilizadores exclusivos de cabines telefónicas?

E então, se o uso e posse de telemóvel são sinal de boa qualidade de vida, será correcto comparar o explorado utente de um pré-pago – desses que dão por nomes tão curiosos como Mimo, Boomerang ou Vitamina T – ao privilegiado assinante de classe executiva?

Definitivamente, as telecomunicações não parecem ser o forte da sabedoria de Sousa Franco. E, a menos que marque outro indicativo, o mais certo é que acabe como as chamadas de valor acrescentado: só no fim, na hora das contas, é que se percebe o que custou.

RCS | 17.Nov.1998

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