Tentações assepticamente correctas

fidelporto2_400.jpg

A lógica do «politicamente correcto» torna-se cada vez mais sinónimo daquilo a que já se chama o «pensamento único». Na prática, trata-se de um filho bastardo do fim da guerra fria ou, se quisermos ser mais rigorosos, é uma submissão descarada à «nova ordem» que o neo-liberalismo dominante pretende impôr ao mundo.

O mais grave de tudo é que esta lógica de enquadramento político dito «normal» parece cada vez mais condenada a alastrar pelas consciências e a tomar conta dos sentimentos e, até, das convicções de cada um.

Exemplo disso foi o muito que se escreveu a propósito da visita de Fidel Castro a Portugal, por ocasião da Cimeira Ibero Americana que decorreu no Porto há um par de semanas. A detenção, em Londres, na mesma altura, do antigo ditador chileno Augusto Pinochet foi mesmo pretexto, então, para o estabelecimento de comparações com o presidente cubano.

Porque, segundo o pensamento neo-liberal, não haveria grandes diferenças entre Fidel e Pinochet. Ambos correspondem, para os cultores da lógica politicamente correcta, ao perfil dos ditadores – e, ao que parece, ninguém está grandemente interessado em encontrar as diferenças que possam existir entre um general latino-fascista que promoveu um sangrento golpe de estado no Chile para assegurar a continuidade do domínio económico norte-americano sobre o seu país, e o antigo barbudo da Sierra Maestra que dirigiu uma luta guerrilheira para livrar Cuba desse mesmo domínio.

O mais grave, porém, é quando a estrutura do pensamento único começa a alastrar, mesmo junto daqueles que, pela sua idoneidade, deveriam estar a salvo destas tentações.

Foi o que aconteceu no artigo de João Carreira Bom, publicado no Diário de Notícias do último domingo. A propósito da humilhação pública de Pinochet em Inglaterra, Carreira Bom escreve uma crónica deliciosamente irónica, em que começa por dizer que «se Pinochet tivesse dotado o Chile de bons hospitais, nunca teria sofrido as agruras do cárcere», para logo de seguida acrescentar que «quando alguém de um país pobre se desloca a um país rico para uma operação cirurgica, desclassifica os médicos, os hospitais e o sistema de saúde do país onde vive».

E vai por aí o artigo, esclarecendo que tudo isto acontece porque «o Chile de Pinochet se distinguiu mais a matar do que a salvar vidas».

Mas, quase mesmo no final, nem Carreira Bom resistiu a alinhar pela bitola dos politicamente correctos. Diz ele que «os ex-estadistas têm de aprender a lição, chamem-se eles Fidel Castro ou representem o capitalismo liberal».

Uma vez mais, a lógica da comparação entre Pinochet e Fidel Castro volta a marcar o tom do discurso. E, como diria o diácono Remédios, nem sequer havia necessidade: é que, pelo menos esse risco o dirigente cubano não corre – o sistema de saúde é mesmo uma das coisas de que o seu país mais se pode orgulhar.

RCS | 8.Nov.1998

Mais sugestões de leitura

  • Um pássaro igual a tiOpen or Close

    Com Zeca e os seus companheiros aprendemos, ainda, que é muito menos fácil formular perguntas que encontrar respostas. Que as veleidades da ‘vida artística’, na qual ele nunca se encaixou, são como os foguetes de romaria, que desaparecem no ar após um instante de brilho e que, portanto, o importante é estar vivo, ter como única certeza a inquietação permanente. Há coisas assim, que parecem impossíveis. Depois vêm as inevitáveis cortesias-de-velórios, mas quanto a isso estamos conversados. Afinal somos um país de homenagens póstumas, não é? Que o digam o Adriano, Jorge de Sena, Fernando Pessoa. Que o diga agora o Zeca, ele que foi sempre tão dado a encolerizar-se com estas coisas.

    Ler Mais
  • O grito de guerra dos genesOpen or Close

    Ernesto Guevara, chamado o Che, era um homem complexo e dinâmico — diferente de outros, lineares, cinzentos, sempre iguais de tão monotemáticos. Não falo do revolucionário, nem do homem de Estado, nem do pai de família, nem do amante, nem do aventureiro; falo do homem que continha em si todos esses homens... Repito: era um homem complexo, profundo, crítico e sumamente vital. O Che morreu muito jovem, mas morreu obcecado com a vida que ainda poderia construir-se; Fidel agarra-se à vida com unhas e dentes, ainda que apenas fale de morte.

    Ler Mais
  • Primeiros passosOpen or Close

    Dá-me o teu braço
    e um abraço
    do tamanho da alegria.

    Ler Mais
  • Que gente é esta?Open or Close

    A agressão de que Manuel Rocha foi vítima, em Coimbra, é sobretudo reveladora do estado a que chegou não apenas o país, mas sobretudo o povo que vive nele. Os que nessa noite passaram ao largo da agressão ao músico são da mesma massa dos que, na véspera, voltaram a escolher o cinzentismo e a mesquinhez em formato presidencial. Não, não é contra Cavaco que estou. O que me irrita é mesmo esse «Portugal rançoso, supersticioso e ignorante, que tarda em deixar a indolência preguiçosa» de que fala o Baptista-Bastos. É essa, afinal, a mais triste evidência do episódio de Coimbra-B. A mão que elegeu Cavaco não foi a mesma que agrediu Manuel Rocha. Mas foi, com certeza, a que não se ergueu para o defender.

    Ler Mais