Ler jornais é saber demais

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Cada vez me custa mais a entender aquela teimosa mania que o professor Cavaco tinha de não ler jornais. É verdade que os jornais, por regra, estão cada vez mais pardos e menos interessantes. E é um facto que certos jornalistas são tão vergonhosamente ignaros e tão desprovidos de sentido ético, que até já pensei requerer a nova carteira profissional na categoria de «artista de variedades».

Mas ainda assim, eu, que sou teimoso, continuo a ler jornais. Será um vício, talvez, mas o que hei-de fazer? Ontem mesmo, por exemplo, fiquei a saber pelo Diário de Notícias que a polícia não serve só para reprimir, de acordo com o terá dito o ministro Jorge Coelho. O que significa que, lá no fundo, a polícia deve ter alguma utilidade, ainda que ninguém, nem sequer o ministro, saiba dizer em rigor qual é.

A verdade, porém, é que o mundo está cheio de coisas que a razão pura e simples não consegue explicar. Deve ser por isso, aliás, que no mesmo Diário de Notícias de ontem, nem uma página inteira chegou para o ministro Pina Moura conseguir demonstrar, na prática, aquilo em que consiste o «governar à esquerda» do Partido Socialista. Ao longo de não sei quantos mil caracteres, o ministro da Economia falou do FMI, da «dimensão política e social dos mecanismos de integração económica e financeira», da «empregabilidade», da «competitividade», essas coisas. E ficámos a saber que o PS «governa à esquerda» porque «transformou num círculo virtuoso emprego e convergência nominal». Pois.

Se, em vez do Diário de Notícias, Pina Moura tivesse escolhido «Os Filhos da Nação», não tenho dúvidas de que o impacto da sua mensagem seria radicalmente diferente. Não que se percebesse melhor, mas seria pelo menos mais divertido.

Aliás, o recurso aos espaços televisivos poderia ser uma boa solução para explicar ao povo essa coisa da moeda única, que nos está a entrar no bolso não tarda nada.

O ministro das Finanças poderia muito bem utilizar o «Big Show Sic» ou «A Roda dos Milhões» para nos contar como é que vai ser a nossa vida quando o escudo passar à história. No entanto, Sousa Franco acha que os portugueses já sabem de cor e salteado a lição do Euro. E acha também que o Governo não tem obrigação de explicar essas coisas aos mortais comuns.

O pior é que o ministro das Finanças é bem capaz de ter razão. Assim como assim, o povo não ía entender nada. E, mesmo que entendesse, o mais provável era que mudasse de canal.

Às tantas, o melhor é Sousa Franco fazer como Pina Moura e passar tudo a escrito - neste caso, de preferência, num jornal de pouca circulação.

TSF | 21.Jan.1998

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