O poder e o local

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Os portugueses foram a votos, desta vez para eleger os representantes do chamado «poder local» – designação que só se compreende se aceitarmos que há poderes não localizáveis, o que é tanto mais verdade quanto maior é a sua dimensão.

Por exemplo: alguém sabe onde fica o FMI? E o Banco Mundial, alguém lhe conhece uma agência que seja, ou mesmo uma simples caixa de multibanco? E no entanto ninguém duvida de que são eles, os donos do dinheiro, quem realmente manda no nosso destino colectivo, deixando para gente simples como António Guterres e Pinto da Costa a ilusão de uma autoridade que já não existe sequer nas super-esquadras.

Durante anos ouvi dizer que as eleições autárquicas são diferentes das outras, que o que conta aqui são as pessoas, mais do que os partidos. Não é verdade, como o demonstra a tendência bipolarizante do último domingo. O país dividiu-se, PS para um lado, PSD para o outro, deixando a CDU e o PP nas franjas do sistema.

Os comunistas, apesar da fama de bons gestores municipais, deixaram-se adormecer à sombra de umas quantas vitórias que, de tão anunciadas, pareciam inevitáveis. E foi o que se viu na Amadora, em Vila Franca ou no Montijo.

Os populares, por seu lado, viram-se reduzidos à ínfima expressão autárquica – e até o seu principal baluarte dos últimos 23 anos, a Câmara de Aveiro, passou para as mãos de um socialista.

É certo que o PS e o PSD também tiveram as suas derrotas, como aconteceu com a neo-liberal Zita Seabra, que, depois de um ambíguo «rumo à vitória», acabou por revelar-se uma  verdadeira candidata com paredes de vidro.

Mas nada disto representa uma verdadeira novidade eleitoral. Não houve um único presidente eleito pelo MRPP, pelo PSR ou mesmo pelo PSN – o que teria piada e seria uma prova radical de que os portugueses estão fartos dos políticos tradicionais. Em vez disso, decidiram agir de acordo com o «politicamente correcto» e distribuiram a generalidade dos municípios pelo PS e pelo PSD. Um verdadeiro bodo aos ricos, foi o que foi. De tal modo que até Macário Correia conseguiu ser eleito em Tavira.

O povo, já se sabe, gosta da estabilidade. Revoluções, crises políticas, vazios de poder, são coisas que não animam particularmente os portugueses, mais dados à manutenção da vidinha, como diria o O'Neill, do que a qualquer reviravolta digna desse nome.

Os 40 por cento de abstencionistas que se verificaram este ano são a prova disso mesmo. Podiam votar em branco ou contestar o sistema desenhando no boletim de voto um artefacto das Caldas. Em vez disso, porém, quase metade dos eleitores preferiram ficar a ver o Buereré e os jogos de futebol da liga espanhola. Afinal, a política é para os políticos e a nossa política é o trabalho, não foi assim que nos ensinaram?

Foi por estas e por outras do mesmo género que o professor Salazar ficou 40 anos no poder, de onde só saiu quando deixou de haver cadeiras disponíveis.

E é por estas e por outras que o poder autárquico, durante anos olhado como algo que podia marcar a diferença relativamente ao poder geral, corre o risco de se tornar, na prática, um poder ausente em parte incerta, tal e qual o FMI. Que é como quem diz: um poder rendido aos quartéis generais dos partidos. Que, como se sabe, estão todos em Lisboa.

TSF | 17.Dez.1997

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