Pipi de camarão

Mais de 15 toneladas de supostas moelas de galinha estão, desde a passada segunda-feira, retidas no porto de Leixões por suspeita de serem oriundas de Hong Kong, segundo noticiou ontem o Público.

De acordo com a notícia, um total de 15 mil 447 quilos de miúdos de frango terão sido descarregados de um navio vindo de Roterdão e foram retidas pelas autoridades portuguesas por suspeita de estarem contaminados com o virus H5 N1, responsável pelo recente surto da chamada «gripe das aves» que provocou vários mortos em Hong Kong.

Notícia posterior, divulgada ontem à tarde por algumas estações de rádio, revelava que, afinal, as moelas eram camarões e a sua origem era a Améria do Sul e não a antiga colónia britânica na China.
Mesmo admitindo que houve um erro inicial de apreciação que levou os técnicos a confundir as populares vísceras de frango com camarões de Espinho e a China com a América do Sul, esta não deixa de ser uma notícia alarmante.

Preocupa-me sobretudo a possibilidade implícita de um prato tão genuinamente lusitano como os pipis ser confeccionado a partir de aves nascidas e criadas no outro lado do mundo. Se é possível alguém importar moelas de Hong Kong, quem nos garante que, um dia destes, não estaremos a comer leitão da Bairrada produzido na Tailândia, tripas à moda do Porto feitas na Malásia ou alheiras de Mirandela fabricadas no Brasil?

Perante este cenário, deixa de ser possível acreditar que a mioleira que celebrizou o ministro Gomes da Silva fosse oriunda da Europa. Na verdade, é bem mais provável que se tratasse da massa cinzenta de uma vaca sagrada indiana do que de uma qualquer vaca louca europeia.

Depois de o strogonoff ex-soviético ter sido derrotado pelo hamburguer norte-americano e de a saborosa mas mal parecida fruta lusitana ter perdido terreno em favor das insípidas maçãs insufladas de Espanha, só faltava mesmo acabarem-nos com os pipis.

Por este andar, dentro de pouco tempo estaremos todos a beber vinho do Dão feito na Alemanha, água das pedras engarrafada na Sibéria e bagaço caseiro produzido na Argentina. Às tantas, sem nos darmos conta, hão-de servir-nos vitela de Lafões vinda directamente dos Alpes, queijo de Serpa fabricado em Marrocos e sopa de cação feita no Luxemburgo.

E, o que é o pior de tudo, há-de haver alguém a querer convencer-nos de que a pizza é um prato tipicamente transmontano e a coca-cola uma bebida inventada pelos monges de Singeverga.

Razão tinha o professor Salazar, que criava as suas próprias galinhas nos quintais de São Bento e só comia as batatas e as couves que D. Maria lhe trazia da praça. Pelo sim pelo não, acho que vou dedicar-me ao cultivo de espécies simples de vegetais e de uns quantos galináceos na varanda do meu prédio. Pode não ser muito prático, mas pelo menos fico com a certeza de que ninguém me vai servir moela chinesa por pipi lusitano.

TSF | 7.Jan.1998

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