Repórter no encalço do Che

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A gente conhece o Viriato Teles há muitas luas, ou não fosse ele um andarilho inveterado dos jornais e com diversos saltos pelos livros. Tudo o que o Viriato escreve é para ler. Homem da cepa séria dos jornalistas que não se perverteram... Daqueles que não se deixam arrebitar pelas alcatifas dos gabinetes ministeriáveis, daqueles que não iludiram a sua condição de ser de esquerda, da esquerda mais utópica, que é essa mesmo que vale para nós!

Olho para o Viriato amigo e desato a pensar em todos os corifeus que após o 25 de Abril eram de esquerda – era bem – e hoje dão lições de social-democracia com copo na mão e pança avantajada assente na secretária. Por isso digo que os textos do Viriato são para ler na sua textura não serviçal. Autêntica.

Nestes termos da conversa podia entrar num capítulo para discutir... Um autor direitista é para escorraçar, mandar às malvas? Só consideramos os de esquerda? Qual quê! Primeiro interessa-me o peso da escrita e se o autor for da condição de não dobrar a cerviz, tanto melhor, direita ou esquerda. Quem pode renegar um Ezra Pound ou um Celine? Eu não.

Pois o Viriato acabou de lançar para a rua A Utopia segundo Che Guevara. A escrita é a de um repórter, como ele avisa em preâmbulo: «As páginas que se seguem não são mais do que o caderno de um repórter que não tem a pretensão de fazer História, mas simplesmente deseja relatar o que viu, o que ouviu e o que, eventualmente, descobriu na sua faina profissional.»

Com o dedo no índice... Um primeiro capítulo aborda as histórias de um país cercado, onde Hemingway, Marx e Rimbaud são chamados à colação. Seguem-se mais três grandes temas, desde a Utopia segundo Che Guevara, passando pelos discursos directos – Félix Guerra, William Gálvez, Aleida Guevara e Canek Sánchez Guevara –, para tudo ser concluído com um capítulo onde despontam vinte e cinco canções para o Che. E nós apostados em cantar.

Desta empreitada à maneira de Viriato consta ainda um prefácio rubricado por Baptista-Bastos. Palavras fortes de BB, como sempre bem nos habituou, e escolho esta passagem: «(...) A ruptura começa em nós próprios: ser de Esquerda não nasce de uma convicção - obedece a um comportamento que, dia a dia, vamos aprendendo e, porventura, melhorando-o. Também isso Viriato Teles no-lo diz. Sem precisar de se servir das "mitologias" barthesianas para estabelecer o confronto entre aquilo que Che Guevara desejou e aquilo que as circunstâncias determinaram.»

Este é seguramente um livro que não interessa a certa gentalha, como aquele cavalheiro que preside ao CDS que há pouco tempo alcunhava o Che de terrorista. Faço ainda minhas as palavras de Baptista-Bastos, nestes termos escorreitos: «O homem cuja face grandiosa lembra a de um Cristo estigmatizado, ainda hoje faz tremer muita gente, ainda hoje faz estremecer o coração de mihões. Havia nele algo de divino porque era simplesmente um homem.»

Epicur | Março-Abril 2006

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