Viagem à Utopia do Che

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Che. Este é talvez o monossílabo mais controverso de sempre e que nos quatro cantos do mundo não precisa de tradução. Volvidos quarenta anos da sua morte (assinalados a 9 de Outubro), Ernesto Guevara de la Serna ainda é repulsa e paixão, arrogância e fraternidade, morte e libertação, horror e esperança, frémitos sanguíneos opostos que, todavia, desaguam na mesma palavra: fascínio.

Su nombre ardió como um pajar /Y la ceniza se esparció. /(Un viento fiero la tomó. /Por los caminos la llevó), versa uma cantiga do cancioneiro guevariano em celebração do voo idealista de Che que continua a alimentar as sociedades com fome de sonhos.

Na busca do El Comandante das cinzas fertilizadoras, encontrámos um livro singular escrito por um português raro: o jornalista Viriato Teles é o repórter que vai ao interior da utopia para dela nos dar conta no portentoso «A Utopia segundo Che Guevara», editado há dois anos pela Campo das Letras.

«Histórias De Um País Cercado», «A Utopia Segundo Che Guevara», «Discursos Directos» e «Vinte e Cinco Canções para o Che» são os quatro capítulos que em 251 páginas nos dão uma visão histórica de Cuba, esclarecendo-nos porque foi aquele território o palco propício para a odisseia épica do guerrilheiro argentino.

E Viriato Teles está em todo o lado, com o melhor que isso tem: em Havana, captando, para nos oferecer, as cores e os sons seculares; na Sierra Maestra, interpretando o berço e a mística da revolução mais romântica da História; junto dos que privaram com Che, ouvindo-os para nos dar a ouvir o que têm a dizer; na garupa de todos os ecos do guerrilheiro para nos convidar à reflexão; na investigação minudente que intercepta fotografias, cartas e outros escritos do próprio Che, e que acolhe cantigas escritas para ele; na revolução mental que nos proporciona ao dar-nos diversas visões recolhidas sobre a Revolução cubana; na elegância das palavras, a um mesmo tempo objectivas e apaixonadas, que enformam uma prosa ardente para fazerem deste livro um objecto de culto.

O sacrifício de um amor absoluto

«Vale a pena morrer por uma coisa sem a qual não vale a pena viver», escreveu o uruguaio Eduardo Galeano. Che «acabou por morrer como desejava: a combater», diz-nos Viriato Teles, acrescentando: «O sacrifício será, então, “a quota a pagar pela liberdade que construímos”. Para o che não existem, neste aspecto, quaisquer dúvidas: “Nós, os socialistas, somos mais livres porque somos mais completos e somos mais completos por ser mais livres”, garante. Será este o princípio que guiará toda a sua existência, até ao momento da redenção final em La Higuera», donde vieram imagens do seu cadáver, com os «olhos teimosamente abertos, como que recusando a morte, eram tudo menos a imagem de um homem vencido.

Morto o homem, ficava uma lição de vida que o tornou uma lenda. «O amor em primeiro lugar. Um amor terrível, absoluto. E um espírito de despojamento capaz de proporcionar uma entrega sem limites à revolução», escreve Viriato Teles, completando a sua argumentação com palavras do próprio Che:

«Acredito que a luta é a única solução para os povos que combatem pela liberdade e sou coerente com os meus princípios, escreveu, em 1965, na carta de despedida aos pais, antes de partir para o Congo. Muitos chamar-me-ão aventureiro – e sou-o, mas doutro género, daqueles que arriscam a vida para provar aquilo que acreditam.».

Porquê revisitar Che?

Em Che havia «algo de divino porque era simplesmente um homem», escreve Baptista-Bastos no prólogo. Nas actuais sociedades que se esvaziam no individualismo e no défice de utopias colectivas, Che ainda é um exemplo e uma motivação para a aventura partilhada do Sonho; por outro lado, ao imprimir na cultura de resistência a luta como motivo primordial do acto de existir, convida-nos à meditação da vida em toda a sua dimensão. É assim que entendemos o que nos diz Viriato Teles:

«Dignidade. Eis a palavre-chave para definir a vida e a obra de Ernesto Guevara de la Serna, o Che. Aventureiro, sonhador, irrealista – antes e depois da sua morte foram vários os epítetos com que a direita clássica e a esquerda oficial tentaram, no final dos anos 60 e princípios dos 70, domar as multidões de jovens que, fascinados pelo exemplo do comandante guerrilheiro, exigiam “a imaginação no poder (…) Agora, que o mundo se normalizou e o salve-se quem puder dita a ordem e o progresso da comunidade global, que futuro pode haver para um projecto alternativo de organização social? Nestes tempos de incerteza, revisitar os lugares e as pessoas do universo guevariano não deve ser praticado nem como exercício de saudosismo, nem como um exorcismo inconsequente. O socialismo por que lutou Guevara não era o dos tanques de praga, Budapeste ou Tiannanmen. A cidade sem muros nem ameias que Zeca cantou e foi o propósito da luta do Che, mesmo dissimulada pelas incertezas quotidianas, permanece – ai de nós se assim não fosse! – como objectivo maior no horizonte da Humanidade.»

Kaminhos | 21.10.2007 | Republicado em Com Livros | 17.5.2008

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