Grândola no mundo

smaia.jpg

Unable to embed Rapid1Pixelout audio player. Please double check that:  1)You have the latest version of Adobe Flash Player.  2)This web page does not have any fatal Javascript errors.  3)The audio-player.js file of Rapid1Pixelout has been included.

Até hoje, Grândola continua a ser o tema de Zeca mais vezes gravado, contando com cerca de meia centena de versões registadas em disco*, algumas delas verdadeiramente preciosas – como a tocante recriação que dela fez Nara Leão, logo após o 25 de Abril, ou o magnífico arranjo instrumental de Charlie Haden incluído no álbum The Ballad of the Fallen, editado em 1982. Ou ainda a versão balanceada que Gregg Moore, músico norte-americano de alma alentejana, criou para os Macacos das Ruas de Évora, já no século XXI.

Mas o historial das versões de temas de José Afonso interpretados por outras vozes começa logo no início da década de 60 com um dos seus amigos mais chegados e que foi, com ele, o principal responsável pelo grande movimento de renovação da música portuguesa: Adriano Correia de Oliveira que, logo em 1961, grava Balada da Esperança (um tema que mais tarde será regravado por Zeca com o título Canção do Vai... E Vem) num primeiro EP de «fados de Coimbra».

De resto, Adriano terá sido também o primeiro intérprete de Menina dos Olhos Tristes (música de JA sobre poema de Reinaldo Ferreira), numa versão publicada, ao que tudo indica, em 1964 – cinco anos antes de Zeca a gravar. Refira-se ainda, a título de curiosidade, que este poema de Reinaldo Ferreira foi objecto de pelo menos mais duas adaptações, diferentes da que cantam Zeca e Adriano: uma por Luís Cília, em 1965 (publicada em França no disco “Portugal resiste”, edição Cercle du Disque Socialiste), e outra por Manuel Freire, editada em 1969. Ambas são por vezes referidas como sendo versões da música de Zeca, quando na verdade se trata de composições absolutamente distintas.

As primeiras edições de músicas de Zeca fora de Portugal surgem referenciadas logo em 1963, num disco gravado em França por Germano Rocha que inclui três temas de JA publicados pouco tempo antes: Os Vampiros, No Lago do Breu e Menino do Bairro Negro. Neste disco, surgem ainda com o acompanhamento tradicional do fado de Coimbra, a cargo de Ernesto de Melo e Jorge Godinho (guitarras), José Niza – identificado neste trabalho como Niza Mendes – e Durval Moreirinhas (violas). Dirigido ao público francês, a guitarra era aqui denominada como «guitarre portugaise» e a viola como «guitarre espagnole», tal como sucede no disco seguinte deste intérprete, onde se inclui outro tema de JA, Tenho Barcos, Tenho Remos.

Outro tema da mesma época – e que de certo modo pode considerar-se um dos primeiros êxitos de Zeca – é Menino d’Oiro, regravado em 1964 por um grupo que faz parte da pré-história do pop-rock lusitano: Os Titãs, que contavam na sua formação com aquele que muitos anos depois veio a ser um dos patrões da indústria discográfica portuguesa, Carlos Pinto. O grupo, que se assumia como uma espécie de versão lusa dos Shadows, veio a incluir alguns anos depois na sua formação o actual dirigente do Partido Socialista José Lello.

Logo após Abril de 74, as gravações por terceiros de temas de José Afonso sucederam-se, a par com as numerosas colectâneas de «canções revolucionárias» onde quase invariavelmente Grândola estava presente. É neste contexto, onde oportunidade e oportunismo frequentemente se confundiram, que surgem algumas gravações curiosas – e com certeza impensáveis noutras circunstâncias. Por exemplo: um disco de Shegundo Galarza integralmente preenchido por músicas de Zeca, José Mário Branco e Sérgio Godinho; uma versão luso-brasileira de Grândola, vila morena, por Roberto Leal; ou a senha da revolução tocada em compasso paramilitar pela Banda do Batalhão de Caçadores 5.

(...)

* Na selecção áudio incluída nesta página podem ouvir-se, além da versão original de José Afonso, as interpretações de "Grândola" por: Macacos das Ruas de Évora, Charlie Haden e Carla Bley, Nara Leão, Amália Rodrigues, Andrés Stagnaro, Betagarri, 365, Franz Josef Degenhardt, Gamma Ray Blast, Sandino e Van De Gekken.

Mais sugestões de leitura

  • Macacos à solta nas ruas do mundoOpen or Close

    Quem os ouve pela primeira vez não pode deixar de sentir um estremecimento prazenteiro. É impossível catalogar estes sons, simultaneamente tão estranhos e tão familiares, que revolvem o nosso imaginário misturando as lembranças de filmes antigos, histórias e memórias, tradições e sentimentos. À semelhança das filarmónicas tradicionais, preenchem qualquer ambiente festivo onde se encontrem, mas tal como qualquer jazzband vão sempre mais além na execução da música que dão a ouvir.

    Nota introdutória ao CD Macacos das Ruas de Évora | 2002

    Ler Mais
  • Viva quem cantaOpen or Close

    Não venho aqui para vos dizer que Pedro Barroso é o melhor cantor do mundo. Não venho falar de festivais ou de cantigas populares que certos divulgadores rádio-afónicos transformaram em produtos de consumo. Não venho sequer como mestre de cerimónias incumbido de apresentar um acto de variedades levado à cena num palco de ilusões.

    Introdução ao LP Do Lado de Cá de Mim de Pedro Barroso | 1983

    Ler Mais
  • CavaqueiraOpen or Close

    E era na tarde um fogo igual
    a tantos de tantos mais um jogo
    final de que afinal ninguém sabia.
    Era uma tarde um fogo que arde
    sem saber se animal se dono
    hão-de vencer um rogo alarve um grito.
    Ou então era saudade o que esperavas
    conta-me histórias conta-me as cidades
    se era verdade ou assim mesmo
    nada mais.

    Ler Mais
  • Uma bibliografia da MPPOpen or Close

    Opúsculo editado em 2001 por iniciativa da organização do Festival de Música Popular Portuguesa da Amadora. A bibliografia seleccionada e as fichas de leitura apresentadas não pretendem ser uma selecção exaustiva, mas sim um conjunto de referências que permitam compreender a música popular Portuguesa, no seu sentido Tradicional e Contemporâneo.

    Música Popular Portuguesa: Uma bibliografia
    CMA 2001

    Ler Mais