A que distância está o Zeca?

© Alexandre Carvalho


Telefona-me o Viriato: quer umas palavras sobre o Zeca. Para um livrito, como ele lhe chama. Sobre o Zeca.

Um prefácio?, pergunto eu. Uma nota introdutória? Um louvor, uma análise crítica? Um testemunho pessoal? A que distância?

Não tenho o gosto de me dedicar a prefácios. Não os escrevo, e quando os leio é geralmente depois. Porque não me esqueço: muitos esparramaram antes do tempo o mistério-mesmo que eu me propunha descobrir. Pelo preço não-módico de um livro, achei fartura a mais. Bem intencionada, sim, decerto. Mas entre a luz directa do autor e a frincha que, machadada compreensiva, o prefaciador impõe, vai um abismo mais profundo que a própria velocidade da luz. Portanto, mais nada, luz ao Zeca.

Posto isto, o dilema: quem é o autor que – escuramente – prefacio? O Viriato, que tão apaixonado seguiu as voltas do Zeca, certamente um andarilho a trilhar os passos do andarilho, ou o próprio Zeca, que aparece aqui tão mais presente, tão mais contraditório, iluminado?

Mais uma vez, a luz. Mas aqui, desta vez, sem misticismo. Para o Viriato tratou-se só de erguer a lâmpada sobre as extraordinárias funções do Zeca, e nisso encontrar quem nós temos saudades de ser.

De facto, não somos ainda uma nação de biografados. Às vezes é um bem; mas muitas outras é pena. Porque parte da riqueza do objecto biográfico é a sua simples dimensão romanesca.

É certamente o caso do Zeca, material ficcional por excelência, porque uma vida singular, e a obra que lhe veio compor o caos, é certamente matéria-de-ouro para um livro que nunca-jamais em Portugal se escreverá. E ele, quereria?

O Zeca era um génio. Não gosto de empregar esta palavra levianamente, no sentido norte-ou-sul-americano do termo. Somos todos geniais. Pois. Mas o Zeca era mesmo genial. E muito queria que isto não fosse um consenso, mas um dado adquirido. A diferença é subtil, mas fundamental. Porque o livro do Viriato dá a conhecer muito melhor o Zeca, e mais: dá vontade de ouvi-lo e gozá-lo e perceber como é que ele foi capaz de unir tantas referências numa obra criativa única. Um dado progressivamente adquirido, como eu gostaria que fosse a vida. Por breve que se progrida, por curta que para nós, felizes nós, tenha sido a vida dele.

Mais sugestões de leitura

  • O grito de guerra dos genesOpen or Close

    Ernesto Guevara, chamado o Che, era um homem complexo e dinâmico — diferente de outros, lineares, cinzentos, sempre iguais de tão monotemáticos. Não falo do revolucionário, nem do homem de Estado, nem do pai de família, nem do amante, nem do aventureiro; falo do homem que continha em si todos esses homens... Repito: era um homem complexo, profundo, crítico e sumamente vital. O Che morreu muito jovem, mas morreu obcecado com a vida que ainda poderia construir-se; Fidel agarra-se à vida com unhas e dentes, ainda que apenas fale de morte.

    Ler Mais
  • Mais do que talentoOpen or Close

    Poucos saberão que, em meados da década de 80 do século passado, Paco de Lucia manifestou a alguns amigos o desejo de gravar um disco com Carlos Paredes. (...) A ideia de Paco, admirador de Paredes, foi acolhida com entusiasmo pela editora, mas esbarrou na recusa definitiva do músico português: «Tocar com Paco de Lucia? Nem pensar. Ele esmagava-me, oh amigo!»

    Diário de Notícias | 27.Fev.2014

    Ler Mais
  • Brancos costumesOpen or Close

    Uma sondagem publicada na última edição do «Expresso» revela que a maioria dos portugueses é favorável à reciprocidade de direitos entre cidadãos nacionais e brasileiros, mas está contra a extensão do mesmo princípio aos africanos oriundos das antigas colónias.

    TSF | 8.Out.1997

    Ler Mais
  • O homem que aprendeu a voarOpen or Close

    Um dos sítios mais bonitos do meu mundo fica nas Astúrias, numa aldeia de Villaviciosa, a norte da Cordilheira Cantárbica, aonde se chega atravessando longos quilómetros de túneis e de névoa. Perdida entre as montanhas e o mar, que não se vê dali mas está perto, Labares é um pedaço escondido do paraíso, deixado intacto pelo Criador para lembrar aos homens que é possível viver em harmonia. (...) Estamos com José Luis Posada, cubano nascido nas Astúrias, lutador lendário, pintor em plena actividade e homem de muitas memórias que reencontrei em Labares. Foi aqui, numa antiga escola primária, com vista para uma paisagem de montes e de silêncios, que Posada construiu o seu lugar de recolhimento do mundo, após 70 anos de andanças e de sonhos. Em Labares guarda as suas lembranças originais, sem rancor mas com nitidez. Muita da sua pintura regista as imagens e as sombras da guerra civil, metade da aldeia fuzilada pelas tropas franquistas

    Tempo Livre | Maio 2002

    Ler Mais