Bocas de cena

Entrevistas | Campo das Letras 2003

Coerência interventiva

Quando se abalançou ao jornalismo, o jovem Viriato (tinha então 15 anos) escolheu bem: o Suplemento Juvenil do República, um diário que se impunha em Portugal graças a uma linha editorial avessa aos compromissos com o poder. Estava-se em 1973, a revolução dos cravos não fazia sequer parte do imaginário português, e essa era a altura em que o lápis azul da censura atacava forte, sem cerimónias, a produção dos homens dos jornais. (...) Das centenas de entrevistas realizadas, Viriato Teles seleccionou as dez que vai ler a seguir. Estiveram para ser doze, não por qualquer analogia com Cristo e os seus 12 apóstolos e a sua Última Ceia. Muitas foram, aliás, as últimas ceias de Viriato Teles (...)

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Como é que ele conseguiu?

A minha primeira impressão deste livro é a pesquisa exaustiva que o autor fez dos entrevistados. Quando a gente termina aquela leitura já estamos prontos para dar um mergulho na entrevista e já o fazemos com água na boca. Quase como quando um requintado cozinheiro envia para a mesa uma travessa apetitosíssima, suculenta, que a gente fica doido para devorar. Isso, para além do talento deste autor, que tem muito a ver com a honestidade profissional, do apuro e do contentamento de quem a escreve. (...) «Bocas de Cena» é um livro excelente com uma dezena de entrevistados inatingíveis, e a pergunta é: Como é que ele conseguiu?

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Saudosa tertúlia

Verdadeiro mestre de apresentações, Viriato Teles elabora, antecedendo as entrevistas, a descrição das personalidades, define-as biograficamente e expõem-nas no efeito que, presencialmente, lhe provocam . Também no decorrer das entrevistas, para além dos assuntos tratados, o jornalista faz o retrato dos entrevistados, retratos humanos totais, com alegrias e desencantos, projectos e nostalgias, ganhos e perdas. Como o autor já nos habituou, a prosa é quente, reveladora e cúmplice do leitor, como se também este fosse conhecido de Viriato Teles; mais um mistério só possível quando se tem a intuição de um grande escritor.

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A formiga que canta

+  A formiga que canta

Lisboa, 25 de Março de 1982. Faltam dez minutos para as onze da manhã e Léo Ferré espera-me no átrio do hotel onde combinámos encontrar-nos. Uma vez perguntaram-lhe: «Então tu dizes que és anarquista, mas cumpres horários e páras nos sinais vermelhos?» E ele: «Precisamente porque sou anarquista.» Apenas outra forma de dizer o que já tinha escrito: «Le désordre c’est l’ordre moins le pouvoir.» Pois é.

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Mãos de fala

+  Mãos de fala

Tem uns olhos grandes, profundos, penetrantes. E as mãos. As mãos que, em palco, criam um espaço próprio dentro do cenário, tornam-se, à conversa, num elemento do diálogo, tão intenso como cada vocábulo, cada sorriso, cada momento. Tem uns olhos grandes e chama-se Juliette Greco. Ou Jujube, segundo a sua autobiografia. É uma latina orgulhosa, e canta. Boris Vian, Jacques Brel, Prèvet, Ferré. “Canto sempre aquilo de que gosto e, por isso, não tenho canções preferidas”, frisa.

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Humana forma de vida

+  Humana forma de vida

«Eu não passei pela vida, a vida é que passou por mim», dizia. E assim, entre a sua estreia (aos 19 anos, no Retiro da Severa), e a sua última actuação pública, em 1994, Amália nunca deixou de se surpreender com o que a vida lhe deu. (...) Amália sobreviveu às transformações sociais e políticas do seu país, e quando deixou o mundo dos vivos, a 6 de Outubro de 1999, era já uma figura consensual. Pelos quatro cantos do mundo, por onde andou, a sua voz continua a fascinar, vencendo a morte. Porque é humana, como a sua história.

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A vida em alta velocidade

+  A vida em alta velocidade

O homem que agora se senta à minha frente está destinado a vencer a morte. Fala muito e em ritmo acelerado, mas nunca fala por falar. Os olhos não param quietos, mesmo quando se dirigem para nós. Pontua a conversa com gestos largos, próprios de quem sabe o que quer e tem pressa de o concretizar. A sua vida é um corrupio de cenas e emoções, poemas e paixões, amigos e bebedeiras. Olho-o e penso que poucos actores conseguem aguentar um ritmo de trabalho tão intenso como este Mário Viegas, mas menos ainda são capazes de que a essa intensidade corresponda uma tão grande dose de prazer.

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Tomai, isto é o meu corpo

+  Tomai, isto é o meu corpo

«Não podemos demorar mais de dez minutos.» Com estas palavras pouco animadoras, Marcel Marceau recebe-me à porta do camarim 105 do Casino Estoril, cerca de hora e meia antes do início do último dos dois espectáculos que apresentou no VIII Festival de Música da Costa do Estoril, que se realizou em Agosto de 1982. Ali, sem maquilhagem, é difícil reconhecer naquele homenzinho de 59 anos, os traços do “clown” que, em palco, assume as figuras ora ternas ora grotescas das suas personagens. Apenas os olhos vivos e a expressão sonhadora que se liberta ao longo da conversa revelam a identidade do mimo mais famoso do mundo.

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Do lado esquerdo da América

+  Do lado esquerdo da América


Nascido em Nova York a 3 de Maio de 1919, Pete Seeger é desde há meio século muito mais do que um mito da história da “folk song”. Militante da música como forma de alertar as consciências adormecidas, Seeger permanece como um símbolo de várias gerações de “insatisfeitos”, acreditando firmemente que vale a pena resistir. Norte-americano por nascimento, ele é, no entanto, uma das vozes que mais lucidamente se ergueram contra a massificação cultural imposta pelo poder político e económico dos Estados Unidos.

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O samba que veio do morro

+  O samba que veio do morro

«O samba é uma das músicas mais fortes do mundo, porque é o resultado de três raças: o africano, o português e o índio brasileiro. É por isso que o samba tem uma coisa que nenhuma outra música tem: um ritmo fora do comum, aliado a uma melodia e uma harmonia geniais. E isso deve-se à união maravilhosa entre a melodia portuguesa, o fado – que é um lamento lindo! – com o ritmo africano. O samba é mulato...» Baden Powell, Lisboa, 1982.

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O silêncio da terra

+  O silêncio da terra

«Não acredito muito nos pessoas que apenas se comovem quando ouvem falar de coisas de carácter político. Não basta fazer canções sobre a paz ou sobre a guerra, é preciso ter em conta também uma outra poesia que nos fale da beleza das paisagens, dos rios que correm, da natureza que se manifesta.» Em Março de 1985, Atahualpa Yupanqui esteve em Portugal para realizar dois concertos únicos por iniciativa da Embaixada da República Argentina. Nos palcos da Aula Magna, em Lisboa, e do Rivoli, no Porto, acompanhado apenas pela sua guitarra (“a la guitarra grave y honda que jumbrosa estremecida y soledosa, desvelada quiero referirme”), deu-se-nos, durante cerca de duas horas, o trovador maior das pampas, “payador” que foi perseguido e nunca desistiu de se interrogar, a ele próprio e a quantos o ouvem, a propósito dos sentidos possíveis da vida.

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Mais sugestões de leitura

  • Só me calham DukesOpen or Close

    A primeira vez que ouvi falar do Zeca já se dizia assim mesmo, Zeca, e não José Afonso. Cantava esplendorosamente o reportório do fado de Coimbra. Eu costumava não me intrometer nessas conversas tribais em que outros eram aparentemente exímios e tiravam todo o prazer da evocação dos grandes tenores e barítonos da escola local. Havia mesmo quem coleccionasse velhos discos de gramofone comprados a preços altos. A mim tanto se me dava: estava a tirocinar para utente nocturno do programa de jazz da Voz da América, vício que convinha não revelar aos então companheiros de esquerda, por sinal hoje bandeados na sua quase totalidade para a comarca de onde vem papel, papel a sério, sendo que vários deles até deputam, ó meu Deus!

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  • Percursos do marginal de sucessoOpen or Close

    Tinha 51 anos, era casado com a Sara e pai do João, calçava 43 e só não participou no Maio de 68 porque não estava lá. Era o Júlio Pinto e morreu no dia de aniversário da República. Abaixo o 5 de Outubro!

    Grande Amadora | 13.Out.2000

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  • Oitavo andamento: da vida e da morteOpen or Close

    – A proximidade da morte aproximou-te mais da noção de Deus?

    – Não, continuo a pensar que Ele é um gajo porreiro, e mais uma vez me protegeu. Estou a falar de Cristo, é um tipo especial com quem eu dialogo, a gente dá-se bem um com o outro. Às vezes zango-me com Ele, quando vejo assim umas coisas feias à nossa volta, penso assim: «Eh, pá!, este tipo anda distraído!» E Ele depois conversa comigo e diz-me: «Ah, tu sabes que eu não chego para tudo, também preciso de descansar um bocadinho de vez em quando, não chego para as encomendas!» É um pouco irracional o que te estou a dizer, mas é o modo que eu tenho de funcionar. (...) Acho que Ele tem sido generoso comigo, não pertenço àquele grupo infindável dos que passam o tempo a lamentar-se.

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  • O rasto do dinheiroOpen or Close

    Base das Lages, Açores, 17 de Março de 2003. Um primeiro-ministro de um país periférico europeu serve de conciérge a um trio de patifes que, três dias depois, dará início à invasão do Iraque. Ao país a que pertence e ao mundo que mal dá por ele o primeiro-ministro periférico jura que viu «provas inequívocas» da existência de um temível arsenal de destruição maciça na posse de Saddam Hussein. Meses depois, o primeiro-periférico é indigitado presidente da Comissão Europeia, e o mundo passa a conhecer-lhe o nome, já devidamente aparado para a ocasião: Barroso, José Barroso.

    Zoot | Verão 2008

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