Do lado esquerdo da América

© Joaquim Lobo

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«É absolutamente necessário que cada país faça hoje a sua música e que lute por ela, sem se deixar subjugar pelas modas que aparecem em outros países. Essa será a melhor forma de luta contra o pior dos imperialismos: o imperialismo cultural.»

Nascido em Nova York a 3 de Maio de 1919, Pete Seeger é desde há meio século muito mais do que um mito da história da “folk song”. Militante da música como forma de alertar as consciências adormecidas, antigo companheiro de grandes nomes como Woody Guthrie, Alan Lomax, Lee Hays e Malvina Reynolds, alvo privilegiado das perseguições de McCarthy no período da Guerra Fria, Seeger permanece como um símbolo de várias gerações de “insatisfeitos”, acreditando firmemente que vale a pena resistir. Norte-americano por nascimento, ele é, no entanto, uma das vozes que mais lucidamente se ergueram contra a massificação cultural imposta pelo poder político e económico dos Estados Unidos.

A sua opção pelo lado esquerdo da vida é antiga e assumida em todos os sentidos. Estudou sociologia porque queria ser jornalista, mas não arranjou emprego e acabou a cantar. Antes ainda da II Guerra Mundial, foi um activista incansável na luta contra as ideias nazi-fascistas que então ensombravam o mundo. Na década de 40 continuou a cantar a raiva e o inconformismo, primeiro com os Almanac Singers, depois com os Weavers, dois grupos que tiveram uma importância fulcral no desenvolvimento da “folk” mais comprometida. E em 1955 enfrentou uma investigação da Comissão de Actividades Antiamericanas que lhe valeu uma série de acusações e um processo judicial que se arrastou até 1972.

Esteve em Portugal uma única vez, em finais de 1983, com Toshi, sua mulher e eterna conselheira, para realizar um concerto no Pavilhão dos Desportos de Lisboa. Fora dos circuitos habituais da indústria de espectáculos, veio a convite de um grupo de jornalistas e cantores (para que conste: António Macedo, Daniel Ricardo, João Paulo Guerra, José Barata Moura, José Jorge Letria, Rúben de Carvalho e Sérgio Godinho) e trouxe consigo a bagagem que o acompanha há décadas: a poesia de José Martí feita “Guantanamera”, o lamento dos negros e dos pobres do seu país, as palavras dos exilados de todas as nações latino-americanas dominadas pelas ditaduras fascistas, a voz dos resistentes ao apartheid na África do Sul. Mais do que um concerto foi um encontro. Do cantor de “We Shall Overcome” com o Portugal de “Grândola, Vila Morena” – conforme podia ler-se, com toda a justiça, no livro-programa do espectáculo.

Numa tarde de sábado, um dia depois do concerto, fui encontrá lo num recanto de um hotel de Lisboa, com Toshi e os amigos da comissão promotora do concerto. Pete fala devagar, com a calma tranquila de quem acredita que, qualquer dia, o mundo será finalmente um bom lugar para viver. Sorri, a cada momento, os olhos perdidos num lugar qualquer desse futuro em que acredita e por que luta como um cavaleiro andante.

– O que mais me preocupa em termos musicais é a quantidade enorme de músicos que há por esse mundo fora e que pretendem imitar a música norte-americana. No entanto, se lhes dissermos isso, eles negam que estejam a copiar seja o que for. “Estamos apenas a fazer música moderna”, dizem eles.

Em Lisboa, Pete cantou para seis mil, deixando nos ouvidos de cada um os versos quentes de “We Shall Overcome”. E deslumbrou-se perante o património do Museu da Marinha e o happening da Feira da Ladra, que visitou na manhã a seguir ao concerto. Conheceu José Afonso, que foi ver o seu espectáculo, falou com estudantes da Faculdade de Letras, onde pronunciou uma conferência e cantou, e espantou-se perante «a imensidão de coisas bonitas que existem neste pequeno país». Simples, como as suas canções, divertiu-se, nas ameias do Castelo de São Jorge, como se fosse um descendente de Afonso Henriques.

“Inesquecível” é o mínimo que se pode dizer desse espectáculo mágico no Pavilhão dos Desportos, de que resultaria o LP “Pete Seeger Ao Vivo em Lisboa”, editado poucas semanas depois pela Rádio Triunfo – e recentemente republicado em CD, nos EUA, com o título “Live in Lisbon”. “Inesquecível” foi também o adjectivo utilizado pelo velho trovador para definir os seus contactos com os novos amigos portugueses. Seeger é assim. Muito longe das superstars que o seu país é pródigo a produzir, sem nada de comum com as vedetas da cantiguinha-penso-rápido.

Não é novidade para ninguém que Pete Seeger representa uma outra face da América, bem diferente da realidade colorida dos estúdios de Hollywood e onde o sonho americano é, frequentemente, um pesadelo. Foi a voz desse país que esteve em Lisboa, através do último Quixote do rio Hudson, verdadeiro especialista na arte da comunicação com o público – e o do Pavilhão era jovem, na sua maioria, a provar que a esperança e o sonho não têm idade.

– Não me surpreendeu essa quantidade de gente nova que foi ao concerto – diz-me Pete Seeger. – Há seis anos estive em Barcelona e tive uma audiência semelhante. Mesmo na América do Norte isso acontece. E sinto-me muito orgulhoso por saber que o meu público é uma combinação de gente de todas as idades...

A mulher de Pete, Toshi Otha, sorri com cumplicidade: «Isso é por cantares há 44 anos: abranges três gerações...» Três gerações, diz Toshi. Com Pete, andaram os pioneiros do Congress of Industrial Organizations (CIO), antes de a organização ter capitulado perante os interesses dos patrões. Com ele andaram Bob Dylan e Arlo Guthrie, antes do misticismo. Andou Joan Baez, antes do “novo” Vietname. Que significa para Pete Seeger ser um cantor de protesto, nos Estados Unidos?

– Hoje há diferentes géneros de cantores de protesto. Há músicos de jazz, por exemplo, que fazem um tipo de música e desenvolvem uma actividade muito diferente daquela que tinha o Woody Guthrie. Cantores de protesto? É difícil dizer o que são, acho que era preciso escrever um livro para o explicar... Até há uma porção deles que não gostam desse termo, acham que é uma expressão que limita a sua actividade...

Toshi, de novo:

– Penso que tens razão, Pete, mas não te esqueças que a música country é, quase por excelência, um género de canção de protesto. Como o são alguns tipos de reggae e de blues...

Cabe aqui um parêntesis para explicar que Toshi Otha Seeger não é uma mulher qualquer. Não será, aliás, por acaso que as referências de Pete a “my wife” são uma constante do seu discurso, nos palcos e fora deles. Nos ensaios, Toshi é a conselheira permanente do marido para as questões de sonoplastia e iluminação, enquanto Harold Leventhal, o road manager de Seeger, permanece praticamente calado. Nos espectáculos, é Toshi quem observa as reacções do público perante cada um dos temas. No hotel, é ela quem “decide” se Pete está disponível ou se vai descansar.

É necessário conhecer a história da vida de Pete para se compreenderem as razões desta ligação tão cúmplice e tão duradoura. Na realidade, Toshi nunca se limitou a ser “a mulher” de Pete Seeger. Ela esteve sempre presente nos momentos mais difíceis do seu trabalho, apoiando o ao longo de todo o processo a que foi sujeito pela Comissão de Actividades Antiamericanas. A casa onde vivem, em Beacon, foi construída por ambos, quando Seeger não era ainda o “mito” em que a sua música e a sua luta o transformaram. Juntos viveram Pete e Toshi, na música e no dia-a-dia, de tal forma que hoje será difícil imaginar o trabalho desenvolvido pelo velho trovador sem a participação da mulher que, ao longo de todos estes anos, mais de perto conviveu com ele. As conclusões ficam para quem as quiser tirar. Fechar parêntesis.

Falar com Pete Seeger não é nunca um acto formal, como podem ser as entrevistas tradicionais. O cantor prefere a conversação, «essa forma maravilhosa de aproximar as pessoas», recusando sempre as opiniões definitivas. Faz perguntas sobre as coisas que mais lhe interessam: a comunicação social, a música portuguesa, a sua função histórica no nosso país.

– Infelizmente sei pouco sobre o que se passa a esse respeito – diz. – Sei apenas que há música em Portugal, mas desconheço quase tudo o que tem a ver com ela. Sei que há uma velha tradição musical, o fado, mas não conheço mais nada. Tenho pena de não ficar aqui o tempo suficiente para aprender mais coisas...

A “aprendizagem”, no entanto, começou com Júlio Pereira, Guilherme Inês e Zé da Ponte, que o acompanharam na interpretação de alguns temas do concerto de Lisboa. Pete não esconde a sua admiração pelos companheiros de circunstância:

– São músicos muito experientes – afirma. – Gostei muito de trabalhar com eles e sinto que estão aptos para tocar com qualquer músico, seja em Moscovo, em Chicago ou no Rio de Janeiro...

Antigo militante do Partido Comunista dos Estados Unidos, Seeger define-se como «um ianque de esquerda» aberto ao diálogo com gente de todos os sectores. «Sou branco, sou ianque e ando pelo mundo a cantar as canções dos negros norte-americanos», disse ele na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde foi acolhido calorosamente como grande mestre da vida. «Não deixem que os estudos estraguem a vossa educação» pediu aos estudantes. Mais tarde, dir-me-ia:

– Porque tenho agora 64 anos e as pessoas sabem o que fiz na minha vida, estou em boa condição para dizer coisas e cantar canções que nunca pude cantar. Eu costumo dizer a quem quer saber a minha ideologia: “Espero que vocês pensem que sou comunista”. Quando tinha sete anos, li muitas coisas sobre os índios americanos e a sua forma de vida, em que não havia ricos nem pobres e todos trabalhavam para um objectivo comum. E pensava, nessa altura, que seria bom se as pessoas pudessem viver assim. Mais tarde, descobri que se tratava daquilo a que as pessoas chamam o comunismo. Portanto, acho que sou comunista desde os sete anos... Se me perguntarem o que penso sobre o regime que se pratica na União Soviética... Bom, acho que tem coisas boas e más, como acontece um pouco por todo o mundo. E eu procuro aprender com tudo o que se passa à minha volta e transmitir isso através das canções.

As canções. Pete Seeger sabe que a sua força reside aí e procura demonstrar que uma canção de amor pode ser tão revolucionária como um tema heróico ou até uma música religiosa:

– Uma das minhas favoritas é o hino “Amazing Grace”. É uma bonita canção. Foi escrita por John Newton, que era comandante de um navio de escravos. E um dia, no meio do mar, decidiu voltar para trás e levar aqueles homens para as suas casas. A partir daí, tornou-se pastor de uma igreja cristã e escreveu este hino, o “Amazing Grace” que, hoje, muitos milhões de pessoas cantam e amam. Eu também. E o facto de o cantar não me impede de, imediatamente a seguir, cantar “A Internacional” no francês original. Porque penso que é também uma boa canção. E, depois, sou muito capaz de cantar o “Old Time Religion”, por exemplo, que é uma canção satírica onde se fala de Afrodite, Zaratustra, druidas, Hare-Krishna... e, no entanto, eu estou afastado de todas as religiões: das religiões políticas, das cristãs e das outras. Novas e velhas. Porque todos defendem, por palavras, a sua religião e prometem coisas que não podem transformar em realidade. Os maometanos e os cristãos matam-se uns aos outros, os comunistas ameaçam-se mutuamente na China e na União Soviética, os anarquistas da nova esquerda batem se contra os anarquistas da velha esquerda... Como poeta e como cantor, penso que nós somos o contrário das crenças religiosas.

Para Pete Seeger, o grande perigo do futuro não reside na possibilidade de uma guerra nuclear, mas sim na ameaça ao sistema ecológico, e algumas das suas canções reflectem esse receio e apelam à necessidade de reencontrar a harmonia entre o Homem de hoje e a Natureza de sempre:

– Penso que o meu pai tinha razão quando me disse, antes de morrer, que a “religião” mais perigosa do mundo é a dos modernos países industriais. A evolução dos conhecimentos tem também esse perigo. Quando um homem decide estudar Física, acredita que isso é uma coisa boa. Mas se o mundo for destruído em resultado dos produtos químicos e das suas experiências, como podemos nós dizer que isso é bom?

A esperança, essa, continua. Como garante Pete Seeger quando lhe pergunto se existe no mundo a tal “esquerda nova” de que ele falava:

– Acredito que em cada ano existe uma esquerda nova. Marx foi a esquerda nova de há cem anos, mas Lenine foi a esquerda nova de há 60 anos. E aqueles que, em 1960, se proclamavam da ‘nova esquerda’ podem já não ser tão ‘novos’ assim nos dias de hoje. Confesso que tenho uma visão um tanto ecuménica destas coisas. E lamento profundamente que as pessoas de esquerda não falem tanto umas com as outras como seria de desejar. Gostaria de ver os anarquistas e os socialistas em diálogo. Fiquei fascinado quando isso aconteceu entre marxistas e cristãos, na Nicarágua. Em Portugal isso também acontece?

In Bocas de Cena | Ed. Campo das Letras, 2003 (Primeira publicação no Se7e | 1983)

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