O silêncio da terra

© Joaquim Bizarro

Em Março de 1985, Atahualpa Yupanqui esteve em Portugal para realizar dois concertos únicos por iniciativa da Embaixada da República Argentina. Nos palcos da Aula Magna, em Lisboa, e do Rivoli, no Porto, acompanhado apenas pela sua guitarra (“a la guitarra grave y honda que jumbrosa estremecida y soledosa, desvelada quiero referirme”), deu-se-nos, durante cerca de duas horas, o trovador maior das pampas, “payador” que foi perseguido e nunca desistiu de se interrogar, a ele próprio e a quantos o ouvem, a propósito dos sentidos possíveis da vida. A voz firme de quem acredita na possibilidade de uma viagem pelo “sistema solar da memória” onde, em cada momento, se encontram “os homens de obscuro destino, os braços operários, os heróis das socavas, o arrieiro que despedaça o seu grito no abismo, o trovador desvelado e sem sossego”, de que falou o escritor e musicólogo chileno Washington Benevides.

De Yupanqui, nascido Héctor Roberto Chavero em 1908, toda a gente conhece velhos clássicos como “Duerme Negrito”, “Basta Ya” ou “El  Payador Perseguido”. A sua obra discográfica é, no entanto, muito mais extensa e, desde sempre, de difícil (e muitas vezes impossível) obtenção em Portugal. Editados na quase totalidade pela mítica editora francesa Le Chant du Monde, os registos fonográficos de Atahualpa podem encontrar-se, em versões originais de importação, em algumas discotecas mais ou menos especializadas. Destes, destacam‑se, naturalmente; “Ayres Indianos”, “Campo Abierto”, “Soy Libre, Soy Bueno”, “Campesino/Duerme Negrito”, “Preguntitas Sobre Dios”, “Regresso del Pastor”, “El Payador Perseguido”, “Camino del Indio” e “Canción para Pablo Neruda”. 

De (ainda) mais difícil obtenção são os romances e as novelas de Atahualpa Yupanqui, ao que se sabe sem nenhuma edição em português. Para os eventuais interessados com possibilidades de aquisição fora de portas, aqui se citam alguns dos títulos considerados fundamentais: “El Camino”, “Piedra Sola”, “El Canto Del Viento”, “Cerro Bayo” e “Guitarra”. O tema de fundo, nos livros como nas cantigas, é ainda e sempre o trabalho, a vida e os anseios do povo a que pertence o velho inca. O resto, tudo, é Atahualpa Yupanqui, o músico, o poeta, o sonhador, companheiro de Violeta Parra e Carlos Puebla, construtor de desejos e veículo de paixões. E foi, em Lisboa e no Porto, a concretização desse encontro breve e desejado. Com os nomes, as cores e os sons, infinitos, do silêncio.

Porque o silêncio é um elemento essencial da música de Yupanqui. Paradoxal? Nem tanto, para quem conhece a sua tranquila firmeza, no palco e fora dele. Cantador, lutador, sonhador. Perseguido no seu país, antes e depois da sua passagem pelo Partido Comunista Argentino (entre 1945 e 1953), acabaria por ser reconhecido pelo mundo, sobretudo após ter sido “descoberto” pelos europeus, nos anos 50 – em boa parte graças a Edith Piaf, que se rendeu ao fascínio da sua arte e o convidou a participar nos seus recitais parisienses.

Em Lisboa e no Porto, Atahualpa Yupanqui falou, cantou, emocionou e emocionou-se. A sua figura de índio velho e sábio, destaca-se pela sua dignidade e pelo ar austero. Sentamo-nos frente a dois cafés, que se faz tarde e há muito para viver. O espectáculo vai começar.

* * *

– Não acredito muito nos pessoas que apenas se comovem quando ouvem falar de coisas de carácter político. Não basta fazer canções sobre a paz ou sobre a guerra, é preciso ter em conta também uma outra poesia que nos fale da beleza das paisagens, dos rios que correm, da natureza que se manifesta.

A severidade do velho “payador” argentino, em contraste com a decoração tipicamente europeia do bar do hotel em que nos encontramos, acentua a força das suas palavras. Atahualpa Yupanqui, uma vida inteira dedicada à pesquisa e à divulgação das mais puras tradições culturais andinas, fala com a convicção de quem se sabe possuidor de razões tão antigas como a própria civilização de que descende. Cita-me Eça de Queiroz e Pablo Neruda, fala da música e das tradições culturais portuguesas, coloca questões. 

Não foi fácil chegar à conversa com o criador de “Campo Aberto”, avesso a entrevistas e amigo da discrição, no palco e fora dele. «Prefiro discutir o meu trabalho a falar de mim», diz-me. «O cantor‑espectáculo não me interessa absolutamente nada. Importante é a cultura, a preservação das tradições que representam a vida de um povo.» Ainda assim, poucas horas depois de aterrar na Portela sentava-se frente a frente com um repórter cheio de questões. De certo modo, esta primeira e única visita a Portugal do poeta das pampas, então já com 77 anos, correspondeu a um “reencontro”, a confirmação de um conhecimento já adquirido e um desejo enorme de saber mais coisas:

– Diz‑se, geralmente, que eu sou um defensor daquilo a que vocês chamam a cultura latino‑americana. Erradamente, quanto a mim, que prefiro designá‑la por cultura euro‑índia. Mas o que mais me interessa são as culturas de todos os povos, que se expressam quer pela música, quer pela poesia, e que reflectem a forma de sentir da gente de cada país. A música portuguesa, por exemplo, não é uma música de escravos, é uma música de amor à paisagem e, sobretudo, à tradição. A forma como se toca a guitarra em Portugal é extremamente doce, belíssima. Ouvi muita música portuguesa, e não apenas de Amália Rodrigues. Ouvi muitas guitarras portuguesas, muito bem tocadas, canções extremamente bem cantadas, onde é patente a ligação dos portugueses à terra, ao mar, à aventura... Isso é tanto ou mais importante do que a canção de carácter meramente político. Uma coisa é o ódio ao mundo, outra o amor pela terra. E eu penso que se deve cantar com amor e não com ódio...

Foi esse amor que trouxe Yupanqui a Portugal. O desejo de conhecer nova gente, de falar com aqueles que por cá mais se aproximam do seu pensamento. Logo à chegada manifesta um interesse muito especial pela obra e pela vida de José Afonso – para quem, três dias depois, no Porto, há-de escrever uma “salutación” em forma de poema, de que adiante se falará. E interroga-nos, depois, sobre a literatura portuguesa:

– Vocês tiveram colónias, foram um país dominador. Quem escreveu a história desse período? Interessa‑me esse tipo de literatura, que fale das coisas feitas durante esses 500 anos de império colonial. É  essa uma das coisas que eu espero descobrir aqui, em Portugal. Saber quem são os poetas que falam da dor dos povos. Não de uma dor ‘política’, a propósito dos ianques ou da União Soviética. Interessam-me as coisas anteriores, aquela parte da vossa história que se tornou quase uma lenda. Interessa‑me saber o que aconteceu no tempo de Fernão de Magalhães, conhecer a literatura que ficou desse tempo de domínio lusitano sobre o mundo.

Para Atahualpa Yupanqui, a “explicação” do período colonial é uma dívida ainda não saldada de Portugal para com o mundo: 

– Essa é uma tarefa que vos compete, aos jovens intelectuais. Mais importante ainda do que a preocupação e a solidariedade para com os países da América Latina.

Nascido em 31 de Janeiro 1908 na localidade de Juan de la Peña, em Perganimo, na província argentina de Buenos Aires, de uma família de escassos recursos económicos, Roberto Chevero soube aproveitar em pleno os resultados da sua vivência juvenil plena de dificuldades e de trabalhos difíceis. As experiências desse período seriam mais tarde o leit motiv da maior parte das suas composições, todas elas fortemente enraizadas na vida e nas tradições socioculturais do povo argentino. 

Muito cedo Atahualpa iniciou um trabalho de recolha e tratamento do folclore dos Andes, que acabaria por ser a matéria‑prima de um dos seus mais importantes trabalhos em disco, “Ayres Indianos”. Antes disso, no entanto, Yupanqui trabalhara com um igualmente célebre grupo de  música popular de Buenos Aires, Los Hermanos Abalos, que pouco tempo antes de Atahualpa passaram também pelos palcos de Lisboa. A função primeira do agrupamento era tentar captar as atenções do público para a música crioula, e já então Atahualpa procurava entender a canção como «um denunciador de injustiças e despertador de consciências». 

Com a chegada de Juan Domingo Péron ao poder, em 1946, e a promulgação de sucessivas leis de protecção à música argentina que se lhe seguiu, a actividade de vários grupos populares e tradicionais teve um enorme incremento e acabaria por propagar‑se  mesmo aos países vizinhos. Mas isso não era suficiente para Yupanqui que estava consciente das insuficiências e reais motivações políticas do peronismo. Decidiu, então, prosseguir o seu trabalho, ainda de uma forma quase solitária, tornando-se um verdadeiro payador – cantor popular que retoma a tradição dos trovadores ambulantes – e nunca desistindo da função social que sabia caber‑lhe. 

As perseguições e as proibições acentuaram‑se a partir de então, com maior ou menor intensidade consoante as frequentes mudanças políticas que ocorriam no seu país. Essa permanente insegurança levou‑o a fixar residência primeiro no Uruguai, onde trabalhou como camponês para poder sobreviver, e mais tarde em França, onde casou e se estabeleceu definitivamente como músico em meados dos anos 60, promovendo os seus próprios recitais e gravando os discos que haveriam de proporcionar o reconhecimento devido à sua obra.

Fixou-se em Paris e não noutra cidade qualquer, porque, como ele mesmo explica, «geograficamente, a capital francesa é um ponto mais central». E também porque é um centro cultural de enorme atracção, onde é possível encontrar bibliotecas abertas de dia e de noite, sempre disponíveis para quem pretende frequentá‑las. Sorri:

– Por alguma coisa se lhe chama a Cidade das Luzes. Não, certamente, porque tenha muita luz eléctrica, mas porque ali é possível, realmente, ter acesso a uma outra luz mais importante, a luz da cultura. E, para quem queira deitar‑se tarde, há também essa “Paris canalha”, acesa ao longo de toda a noite, toda essa cidade de boémia em que eu não acredito muito. Se Paris cresce ano após ano é, essencialmente, porque é uma cidade que se levanta cedo.

Para Atahualpa Yupanqui seria importante uma maior aproximação entre os vários povos da Europa. Diz: 

– Gostaria muito de estabelecer maiores contactos com os europeus, até porque há actualmente novos mercados intelectuais e poéticos, interessados nos valores que dão ao mundo a sua verdadeira importância. Sabias que, na América Latina, há mais de 300 escritores que continuam a utilizar as línguas indígenas originais? E que há ainda grupos de teatro profissionais que preservam essa cultura antiga? São os trabalhos deste género que interessa defender, se queremos que o mundo não perca a sua memória colectiva.

Para tanto, acentua Yupanqui, é necessária disponibilidade para a reflexão a para a pesquisa, “sem a preocupação de criar produtos meramente artísticos, meramente. espectaculares”. Daí a importância dada pelo poeta aos silêncios de que a sua obra é testemunho:

– A flor do campo, para ter aroma, não tem que disfarçar‑se de bonita nem de terna. Limita‑se a ser flor e a ter aroma. Esta é uma verdade vegetal. E eu gosto muito dos homens que têm uma verdade, que não tem obrigatoriamente que ser a verdade das maiorias. É, muitas vezes, uma verdade que se encontra em cada um de nós. Em silêncio.

«O silêncio, eis uma das palavras‑chave da obra de Atahualpa Yupanqui. O silêncio, através do qual o tempo se torna o suporte da comunicação, o silêncio para compreender e respeitar o povo e a sua música, a natureza, o público.» Claude Worms, crítico e jornalista de “Le Guitarriste Magazine”, definiu assim o extenso trabalho do músico argentino, para quem a vida, o companheirismo e a própria solidão se entrecruzam numa mesma atitude perante a vida. 

Autor de mais de 1200 canções e com alguns livros de ficção publicados em diversos países, Atahualpa Yupanqui procurou sempre que a dimensão política, a que naturalmente a sua obra está associada, não apagasse o trabalho artístico propriamente dito:

– De todas as canções que escrevi, há apenas talvez uma dezena que pode ser considerada de temas “engagées”. Mas são essas que toda a gente cita quando quer iniciar uma conversa comigo, como se o meu trabalho não incluísse mais nada. Eu não tenho palas nos olhos, gosto de ver tudo, sem quaisquer limitações. 

O compromisso primeiro de Atahualpa foi, assim, assumido para com as tradições culturais e musicais do seu país. É a ele que a Argentina deve, em primeiro lugar, a divulgação, extrafronteiras, das “zambas”, das “chacareras”, do “baileciton”, o “malambolo”. A finalidade de tudo isso? Para o músico sul‑americano era apenas uma tentativa de «libertar as origens artísticas, os valores culturais e a realidade social dos povos sujeitos a todas as práticas de exploração.»

Esta luta, necessariamente difícil e por vezes aparentemente inglória, está também na origem da opção que levou Roberto Chavero a escolher o nome de Atahualpa Yupanqui, referência que pretende condensar e  homenagear as suas origens índias. Atahualpa, “Don Ata” como lhe chamam com um misto de carinho e de respeito muitos dos seus compatriotas, é a imagem total desse passado heróico e doloroso do seu povo. Em palco e fora dele, sempre discreto e sempre omnipresente, em constantes lições de mestre sobre a vida, a poesia e a música que proporciona a quem ouve.

* * *

À margem da conversa, uma nota quase final, para dizer que, no Porto, Atahualpa Yupanqui escreveu um poema a que chamou “Salutación á José Afonso”. O original deste testemunho de afectos seria, dias depois, enviado ao próprio Zeca por Avelino Tavares e Mário Correia, dois históricos dos bastidores da música popular portuguesa a quem o poeta das pampas incumbiu da tarefa. Dizia assim: 

Ya no estoy en tu piedra, hermano Afonso.
Como un viento en mi pampa
llegué lleno de cantos enamorados y selvajes.
Aquí quedan algunos, cerca de tus olivos,
junto a los rios, trepando calles
y caminos duros. Duros como los hombres y las cosas.
Cómo no amar la tierra, compañero?
Si en el aroma fuerte de la hierba
te saluda en la tarde la paloma escondida.
La mano del amigo es tu estandarte.
Tan hondo como el mar es el amor del pueblo.
Donde quiera que vayas, la poesía amanece
como una novia inacabable y tierna.
A mi América vuelvo, José Afonso.
Te abrazo, hermano, y al combate vamos.
Somos hechos de lúz y polvareda.

Como não amar a terra, companheiro? Com a serenidade dos velhos índios, Don Atahualpa passou toda a vida escrevendo e descrevendo esse amor total em poemas, milongas e coplas. «Bebendo silêncio», como afirmou outro músico argentino, León Gieco. 

Compondo e cantando até ao fim, Yupanqui veio a morrer em Nimes, França, a 23 de Maio de 1992, durante uma digressão pelo país que o acolheu. Tinha 84 anos, fazia-se acompanhar apenas pela guitarra e sonhava converter-se num folclorista anónimo cuja obra fosse adoptada pelo povo a que pertencia.

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