Oitavo andamento: da vida e da morte

– Já falaste um pouco disso, mas gostava de voltar ao tema: tu tiveste, há algum tempo, uns problemas de saúde que são do domínio publico, a tua vida esteve em perigo. Essa proximidade da morte alterou significativamente a tua maneira de olhar para o mundo?

– Claro, como com toda a gente que passa por isto. Quando nos confrontamos com a nossa real finitude, quando a gente se encontra com a morte – e eu estive perto dela por duas vezes – passamos a relativizar tudo. Foi muito óbvio, para mim...

– Alguma vez pensaste mesmo que ias morrer?

– Sim, sim, objectivamente. Cheguei a despedir-me da Maria Judite, que me sacudiu, não queria sequer colocar essa hipótese. Dizer isto não é conversa de circunstância: não devo a minha vida só à competência dos médicos, que foi grande, mas também, muito, à tenacidade da Maria Judite, que foi capaz de estar vinte e quatro horas sobre vinte e quatro a não me deixar morrer. De tal sorte que os médicos americanos, que não brincam em serviço, nos seus relatórios, davam a presença dela como indispensável. E tu sabes que os americanos não são muitos virados para essas questões afectivas. São pragmáticos, cirurgia é cirurgia, assistência é assistência. Mas perceberam muito cedo que a presença dela era fundamental. Portanto, o facto de não ter morrido mudou-me em muitas coisas. Passei a relativizar mais e passei também a ser mais egoísta, curiosamente. Eu pertenci àquele restrito número de pessoas que quis mudar o mundo. Não é que eu, ideologicamente, me tenha transformado num produto híbrido, mas tudo o que se passou no mundo me obrigou a uma mais profunda reflexão, sobretudo sobre as teorias políticas. Nem é sobre o modo como gerir o universo, é mais sobre a condição humana. Eu acho que o homem é um produto das circunstâncias, e temos a prova disso. As pessoas da minha geração viram, por exemplo, que nos dois ou três primeiros anos após o 25 de Abril, o comportamento do povo português era notável, era um povo que estava virado para qualquer coisa que queria ou pensava ir construir. E hoje percebe-se que, debaixo de um sistema económico neoliberal, é um povo estranho, um povo quase irreconhecível em muitos sentidos. Que torna as catedrais de consumo como um dos seus símbolos e que vê programas de televisão aberrantes. E, às tantas, isto vai fazendo mossa, vai descaracterizando este povo que tem coisas ainda tão bonitas e um capital precioso para ser aproveitado. Ora, há uns anos atrás, antes de eu estar a morrer, isto era capaz de ser uma coisa que me revoltava, e neste momento eu estava aqui a dar uma entrevista incendiária ao meu amigo Viriato Teles. Agora não vejo isso assim. Não baixei os braços, obviamente, mas já não vejo isso assim. Percebo que isto tudo é muito mais complexo, muito mais profundo, e reparto os meus afectos. Gosto muito de brincar com os meus netos, é uma boa maneira que eu tenho de olhar para o futuro, gosto muito das questões que eles me põem, gosto imenso que eles me gozem, porque eu sou o artista, não é? Eles gozam-me! E isso dá-me imenso prazer. Gosto de estar muito atento à vida dos meus filhos – sem interferir, obviamente, a vida é deles. E gosto muito de estar com a Maria Judite, é uma companheira insubstituível, uma pessoa que eu pressinto. Ela perdoa-me por eu não ser o melhor dos maridos, que não sou. Mas eu penso que nenhum artista é bom marido e que nenhuma artista é boa companheira, boa mulher, isso é muito difícil!

– Preocupa-te o envelhecimento?

– Não. É outra coisa que tenho estado a aprender, a envelhecer sem drama. Apenas com um senão, que não é pequeno: nos últimos anos perdi alguns amigos que morreram, e esse é o lado mais penoso do envelhecimento. Ainda há poucos dias perdi mais um amigo, anónimo, um amigo de há cinquenta anos, desde os tempos do liceu. E não estou refeito, todos os dias penso nele. Porque não é reciclável, tu não substituis um amigo de cinquenta anos. É um bocadinho de nós que se vai embora, cada amigo que desaparece são amputações. Esse lado é o lado mais desagradável do envelhecimento. O resto não! A história do condor – dói aqui, dói ali – isso faz parte da idade. Tenho gosto por certas coisas que estão subjacentes à amizade, e à respiração da vida, como um bom convívio à volta de uma mesa, com um bom vinho e uma boa comida, uma boa conversa, um bom livro, um bom disco, uma boa peça de teatro, um bom filme, um bom passeio, um bom serão de convívio entre amigos, à conversa. Trocarmos ideias, à procura de descobrir coisas, porque ninguém é dono da verdade absoluta. Esses estímulos eu tenho-os e agora sinto-os muito reforçados. Porque com esta apreensão da finitude, sou uma pessoa que aprendeu a morrer. Devo dizer-te que estou completamente disponível, sem drama. Direi como diz toda a gente: gostaria que fosse sem sofrimento. Acho que isso é legitimo, qualquer um diria uma coisa destas...

– «De repente, não mais que de repente», como dizia o Vinícius...


– É. Aliás, no meu caso, com o aneurisma, isto acabava rapidamente... De resto, não estou zangado com o Carlos do Carmo, não. Mas estou um bocado chateado com o mundo, isso estou. Como pertenço àquele grupo de pessoas que já viu a luz ao fundo do túnel, espanta-me como é que o homem destrói pelas suas próprias mãos o caminho da harmonia e do equilíbrio entre si. Espanta-me! A mim não me espanta o egoísta que quer dominar a troco do que quer que seja, é o chamado boi matreiro. O que me espanta é quem, em nome do bem, destrói o essencial. Isso faz-me muita confusão, porque é uma coisa que nos faz regredir.

– Nesse aspecto, embora estejamos no princípio do século XXI, chega a parecer que andámos uma série de anos para trás, não é?

– Mas a história está feita assim, tem avanços e depois tem recuos. O que custa é que nós somos uns egoístas, porque vivemos à volta de setenta e poucos anos, em média, e pedimos demais para o tempo que temos. Sobretudo se criamos expectativas. E a minha geração é uma geração que nasce num país sombrio, conhece depois um país que se anima, que desperta, mas depois constata que, ao longo destes anos de liberdade, a incompetência, a corrupção, o desmando e a impunidade transformaram este país num lugar triste e difícil. Não há fado que resista!

– Uma coisa que, a meu ver, esteve sempre presente na tua vida e no teu trabalho, foi a noção de que alguns valores são mesmo para respeitar. Isso mantém-se, não é verdade?

– Vamos lá a ver: eu não sou nenhum santo de capela, sou um homem cheio de defeitos, muito imperfeito. Felizmente muito imperfeito! Mas há determinadas coisas que eu prezo, que me habituei a viver de uma forma quase espartana. Naturalmente que, com tantos defeitos que tenho e com todos os anticorpos, fiz inimigos ao longo da vida. Mas nenhum amigo meu poderá jamais dizer que eu fui desleal ou filho-da-mãe com ele! Não está na minha natureza. O despeito, a inveja, é um defeito muito inerente à condição humana, mas que em Portugal se torna muito evidente. Mas é uma coisa que eu não conheço, não faz parte do meu léxico. Eu gosto tanto de ver as coisas caminharem, subirem, irem para a frente, que quando alguém faz qualquer coisa muito meritória, eu exulto. Seja na minha área seja em que área for. Eu não vivo no despeito de que alguém tem sucesso, alguém triunfa. Pelo contrário, acho isso formidável, porque é assim que o mundo avança. Vivo essas coisas com muita alegria e para mim são um estímulo, estimulam a minha actividade! Donde, sou fiel a alguns valores, continuo a ser. A lealdade, por exemplo, sou muito fiel à lealdade, não entendo a amizade sem lealdade, o que me torna, nos últimos anos – já depois deste volte face da minha vida – talvez mais moderado. Há uns anos atrás eu era mais radical, era uma pessoa que, se sentisse que alguém tinha fugido àquilo que eram as minhas expectativas, cortava radicalmente. Com o passar dos anos habituei-me a ser mais tolerante, e hoje dificilmente corto relações com quem quer que seja. Tenho muita dificuldade em esquecer quem me fez mal, mas perdoo, está na minha condição. E acho até muita graça a uma coisa que está a acontecer actualmente: algumas pessoas que me fizeram muito mal, tratam-me agora muito bem. Isso deslumbra-me, e pergunto-me porque será. Não é aquele caso de que quando a esmola é grande o pobre desconfia, mas será que é para resgatar a má consciência do mal que me fizeram sem eu lhes ter feito mal nenhum? Aí íamos parar a coisas muitos complexas... Eu fiz o meu ajuste de contas quando estava a morrer, lembro-me perfeitamente de ter feito o ajuste de contas comigo. Pensei: «Bom, vais morrer com os defeitos que tens, mas morres em paz.» Eu sentia-me a morrer em paz, não fiz melhor porque não sabia, mas contribuir directamente para o mal de alguém, voluntariamente – isso sei que não me aconteceu. É uma maneira de estar na vida como outra qualquer.

– Tu és um católico reconhecido e assumido...


– Não serei católico, cristão sim. Católico é mais espartilhado. Cristão sou, sou um homem de fé. Não me perguntes porquê, não descubro isso racionalmente, mas sou um homem de fé, continuo a ser. Como era, nunca deixei de o ser.

– A proximidade da morte aproximou-te mais da noção de Deus?

– Não, continuo a pensar que Ele é um gajo porreiro, e mais uma vez me protegeu. Estou a falar de Cristo, é um tipo especial com quem eu dialogo, a gente dá-se bem um com o outro. Às vezes zango-me com Ele, quando vejo assim umas coisas feias à nossa volta, penso assim: «Eh, pá!, este tipo anda distraído!» E Ele depois conversa comigo e diz-me: «Ah, tu sabes que eu não chego para tudo, também preciso de descansar um bocadinho de vez em quando, não chego para as encomendas!» É um pouco irracional o que te estou a dizer, mas é o modo que eu tenho de funcionar. Devo dizer-te que não vivi a questão da morte assim dessa forma. Embora acontecesse uma coisa muito curiosa: o meu amigo Zé Jorge Letria, uns dias antes de eu ir para a América para ser operado, tinha ido numa visita profissional a Gaza. Na altura, ele era vereador da Cultura da Câmara de Cascais e foi à Palestina numa visita de trabalho. Depois passou por Jerusalém e comprou dois terços. Deu um à mãe e trouxe-me o outro, dizendo: «Pá, isto está benzido, trouxe um para a minha mãe, já lho entreguei, e trouxe este para ti. Sabes que eu não tenho nada a ver com isto, mas foi a pensar em ti que o comprei.» E levei-o comigo para a sala de operações, esteve sempre por perto. Na primeira operação – eu fiz três – em que demorei muito tempo para acordar, mais do que o previsto, foi uma coisa que preocupou bastante os médicos... Mas o que eles diziam é que eu estava agarrado ao terço com uma força tal que eles não mo conseguiram tirar da mão! Até perguntaram à minha mulher se eu era muito religioso, a Judite explicou que não, apenas um crente normal. É um episódio, vale o que vale. Mas isto para te dizer que não se alterou nada, continuo a ser um homem da mesma fé. Acho que Ele tem sido generoso comigo, não pertenço àquele grupo infindável dos que passam o tempo a lamentar-se.

– E quando, um dia, como é inevitável, finalmente te encontrares com Ele, o que é que gostavas de Lhe dizer ou que Ele te dissesse?

– Olha: a gente já conversou tanto, que se calhar não tem muito mais... Gostava, depois, de ver se teria alguma capacidade, se Ele teria a generosidade de me aceitar para ajudar. Eu acho que Ele, sozinho, não dá conta do recado, precisa de uns ajudantes, das pessoas que querem bem aos outros, e que ajudem a dar volta a isto. E deve estar rodeado de pessoas dessas, só que não chegam para as encomendas, porque são sempre minorias, não é? De maneira que, olha, se Ele achasse que eu não estou completamente conspurcado, gostaria que me aceitasse para ajudá-Lo, no que eu pudesse e que Ele achasse que era viável eu fazer. Porque não sou nenhum santo com certeza...

In Carlos do Carmo, do Fado e do Mundo | Edição Sete Caminhos, 2003

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