Entrevista a A Capital

© Pedro Lopes

«Onde é que está o 25 de Abril?» A partir desta interrogação, que se repete ao longo de todas as entrevistas, Viriato Teles, jornalista, de 47 anos, reconstrói a memória de um tempo que viveu com intensidade. Em 1974 tinha 16 anos, e de repente viu-se no meio de uma revolução. Oriundo de uma família com um historial de luta antifascista, participou activamente no «grande efe-érre-á» que então se passou. Com algumas ingenuidades, mas com muita autenticidade, diz. Hoje, não está arrependido, embora garanta que «não faria tudo da mesma maneira, porque a idade e a experiência obrigam-nos a repensar todas as coisas.»

À semelhança de Baptista-Bastos, não gosta de «palavras incolores nem indolores». Autor de vários livros, de que se destacam uma colectânea de poemas («Margem para Dúvidas»), duas «reportagens biográficas», sobre José Afonso («As Voltas de um Andarilho») e Carlos do Carmo («Do Fado e do Mundo»), e uma outra colectânea de entrevistas («Bocas de Cena») feitas quando trabalhava nos semanários «Se7e» e «O Jornal», acaba de publicar «Contas à Vida – Histórias do tempo que passa», uma reflexão a vinte vozes sobre a revolução de 25 de Abril de 1974 e os meses que se seguiram, o chamado PREC. O livro, que é hoje posto à venda, surge numa altura em que cumprem 30 anos sobre o apogeu do Verão Quente de 1975.

- «Contas à Vida» é um ajuste de contas ou um acto revivalista?

- Penso que não é nem uma coisa nem outra. O livro nasceu «de fora para dentro», como diria o Herberto Helder. Isto é: não surgiu por minha iniciativa, foi resultado de uma proposta que me foi feita pelos editores da Sete Caminhos. A ideia era reunir uma série de depoimentos de alguns protagonistas directos e indirectos da revolução. Mas eu estava cheio de trabalho: todos os dias me levantava às sete da manhã para ir para um estúdio de televisão onde passava uma média de doze horas por dia, tinha muito pouco tempo disponível. De modo que o «Contas à Vida» acabou por avançar mais lentamente do que desejava…

- E acabou por não ser um livro apenas sobre o 25 de Abril…

- O 25 de Abril foi o ponto de partida, mas o livro acaba por se expandir pela memória de todo o período que vai desde essa altura até ao 25 de Novembro de 75, o chamado Processo Revolucionário em Curso, o PREC.

- Como é que seleccionaste os entrevistados?

- Fiz uma lista de possíveis interlocutores, uma lista enorme: quando me dei conta, tinha para aí uns 40 ou 50 nomes possíveis. Cheguei a contactar alguns que depois acabei por não entrevistar, porque entretanto o livro foi ganhando uma dimensão muito maior do que o previsto…

- Porque é que só entrevistaste pessoas da área da “esquerda”?

- Isso não é assim tão linear. Já houve quem me perguntasse, a propósito do Edmundo Pedro: «Então tu entrevistaste esse reaccionário?» Para alguns leitores, haverá aqui entrevistados que são de direita, que têm – ou tiveram, na opinião deles – posturas de direita. Mas percebo o que queres dizer, e reconheço que todos estes protagonistas se situam à esquerda do espectro político português. E não tenho nenhum problema em assumir que, consciente ou inconscientemente, foi uma atitude deliberada: a Esquerda é a minha «família política», é o lado da vida com que me identifico. E, como afirmou aqui há uns meses um desses jovens intelectuais de direita que agora estão na moda, «o 25 de Abril é da Esquerda, a Democracia é de todos nós.» Ele tem razão.

- Uma das vertentes da democracia é o pluralismo, a diferença de opiniões…

- Claro que sim. E esse pluralismo também existe neste livro. As opiniões do Francisco Louçã ou do José Mário Branco são distintas, e por vezes opostas às do Edmundo Pedro ou do João Soares. O Fausto é assumidamente ateu e o Padre Mário é um crente convicto. São pessoas que têm diferentes perspectivas mas ambas são legítimas. O que eu não tenho é tipos como o Hermano Saraiva, por exemplo, que ainda este domingo, num diário de referência, dizia com o maior descaramento do mundo que «a liberdade acabou no 25 de Abril». O pluralismo não implica dar voz a mentirosos.

- Estás a dizer que o professor José Hermano Saraiva é mentiroso?

- Estou a dizer que o dr. José Hermano Saraiva, antigo ministro do regime fascista e professor liceal injustamente acusado de ser historiador, neste caso concreto mentiu: porque é um facto que a liberdade começou com o 25 de Abril, e dizer o contrário é mentira. Mas ultimamente há uma certa tendência para reescrever a História que, lamentavelmente, os jornais não contrariam como, em minha opinião, deviam. Repara: aqui há dias, noutro diário também referencial, havia um gajo que tinha o descaramento de dizer que em 1974-75 «Portugal viveu a pior ditadura da sua história»! Ora isto não é uma questão de diferença de opinião, é uma questão de ser ou não ser fiel aos factos! Factos reais, históricos, comprovados. Pode gostar-se ou não do que aconteceu durante o PREC. Tu vês isso neste livro: há opiniões radicalmente diferentes sobre o que foi essa altura, mas ninguém duvida de que esse foi o tempo de maior liberdade que se viveu em Portugal. E foi, eu sei que foi: eu estive lá. Não é uma questão de opinião, é uma questão de rigor.

- Não achas que teria sido interessante entrevistares o Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo?

- Certamente que sim. Ou o Pacheco Pereira, ou o Vasco Pulido Valente… São pessoas que têm ideias por vezes diferentes das minhas, mas com quem muitas vezes estou de acordo, até em termos de opiniões. E, sobretudo, que respeito pela inteligência. Como te digo, não divido o mundo dessa forma. Mas, repito, este livro foi feito noutra lógica. E além disso estou um bocado farto do jornalismo «politicamente correcto», em que a Esquerda se obriga a dar sempre voz à Direita, mesmo se o contrário raramente acontece: se um jornal só tiver cronistas de direita, ninguém se surpreende, mas se for o contrário parece que alguém está a cometer um crime. Ora este é um livro que eu quis que fosse assim, uma celebração da festa que vivemos há 30 anos. E não engano ninguém: os nomes vêm todos na capa, só compra quem quer.

- Ouviste muitas coisas inesperadas?

- Há aqui coisas que nunca tinham sido ditas em público. Por exemplo: que eu saiba, foi a primeira vez que o general Vasco Gonçalves reconheceu a interferência dos soviéticos no PREC. Ele aqui assume muito claramente ter tido conhecimento do teor da conversa entre Brejnev e Costa Gomes, em que o primeiro disse ao segundo que Portugal não podia ser um país socialista, em nome do acordo tácito estabelecido entre as superpotências da altura. O que talvez explique muita coisa, nomeadamente o recuo do PCP no 25 de Novembro.

- Não temes as reacções que possa suscitar uma entrevista tão «politicamente incorrecta» como a do Mário Alberto, por exemplo?

- Não. O 25 de Abril fez-se também para isso, para que cada um se possa exprimir livremente. E o Mário Alberto é um homem excessivo, toda a gente sabe. Isso é salutar, uma sociedade precisa de quem esteja disponível para lhe dar uns abanões, mesmo correndo o risco de chocar, caso contrário entramos num amolecimento mental que não é nada bom para a própria democracia. Foi isso que toda a vida fez o Luiz Pacheco, por exemplo, e é isso que faz o meu querido Mário Alberto. Mas ele não é o único «politicamente incorrecto», felizmente.

- Há coisas surpreendentes, e que certamente os teus entrevistados não diriam há 30 anos. O que o Fausto diz sobre a independência de Angola, por exemplo…

- Pois, ele diz que não houve independência, porque o povo não passou a ser mais feliz. É uma coisa que talvez choque uma parte da Esquerda, que ainda não se habituou ao facto de os antigos libertadores de Angola serem hoje um bando de cleptocratas. Mas é um facto que são.

- Neste livro, o Baptista-Bastos faz críticas muito duras aos jornais e aos jornalistas. Partilhas do ponto de vista dele sobre o estado da Informação?

- No essencial sim. A verdade é que, actualmente, há muitos jornalistas que não passam de pés-de-microfone, são os porta-vozes do poder que está ou do poder que segue dentro de momentos, como diria o Fernando Alves. Por alguma razão a televisão, no seu todo, perdeu um milhão de espectadores em dez anos. E também não é por acaso que hoje se lêem menos jornais do que antes do 25 de Abril, quando a censura estava institucionalizada. Os jornais preocupam-se mais em vender do que em informar – e acabam por não informar nem vender, porque dizem quase todos a mesma coisa. Os espaços de opinião são, sem dúvida, importantes, mas não podem substituir-se àquilo que é a essência do jornalismo: a notícia, a reportagem, as coisas que realmente interessam às pessoas. É isso que o público quer ler, e é isso que os jornais não dão porque cada vez mais se pratica entre nós um «jornalismo de cu sentado», feito a partir do noticiário das agências.

- Dedicas este livro ao teu filho «que nasceu em liberdade» e ao teu pai «que lutou por ela». É uma forma de estabeleceres uma ponte inter-geracional?

- Talvez, mas não pensei nisso. O meu filho nasceu vinte anos depois da revolução, e portanto esse facto histórico será para ele mais longínquo do que para mim é, por exemplo, a II Guerra Mundial. Dedicar-lhe este livro é talvez uma forma de transmitir um testemunho de um tempo que o pai viveu por dentro, e em que acreditávamos que podíamos ser donos do nosso destino.

- «O 25 de Abril será esquecido», diz o Tiago Rodrigues no prefácio. Achas que sim?

- Esse «esquecimento» é inevitável, quanto mais não seja porque os protagonistas vão desaparecendo, é a lei da vida. O Tiago fez uma excelente leitura deste livro, para mais tratando-se de alguém que ainda não existia em 1974. O importante é que não se esqueçam as razões profundas que levaram ao 25 de Abril. Que não nos esqueçamos de que houve um tempo em que o medo era real e visível. Não esquecer o passado é a única maneira de fazer um futuro melhor.

- Sei que, em Outubro, vais ter um novo livro. De que se trata?

- É uma longa reportagem feita a partir de Havana, que é uma das cidades da minha vida. Chama-se «A Utopia segundo Che Guevara» e vai ser publicada pela Campo das Letras, do Porto.

- Uma biografia do Che?

- Não. Digamos que é uma viagem pelo lado mais humano do Comandante, que revela alguns aspectos menos conhecidos da sua personalidade e da sua vida, das suas fraquezas e das suas glórias.

- Ainda acreditas na revolução?

- Acredito que o mundo tem de mudar, é inevitável.

 

A Capital | 27.Julho.2005

Mais sugestões de leitura

  • O general casernícolaOpen or Close

    O candidato da coligação PSD-PP à Câmara Municipal do Porto, general Carlos Azeredo, está a revelar-se uma autêntica caixa de surpresas. Num país tão carecido de ideias, ele corre o risco de se tornar o estratego-mor da extrema-direita mais boçal e troglodita, órfã de pai e mãe desde que o professor Salazar entregou as botas ao Criador.
    Primeiro foi o célebre artigo sobre o «ouro nazi», onde este militante da ordem unida se desdobrava em considerações sobre o carácter naturalmente agiota dos judeus – o qual, está-se mesmo a ver, esteve na origem do Holocausto. Entre aspas, na versão branqueadora de Azeredo.
    Ao que parece, o estado-maior do PSD não viu nisto nada de mais, o que se compreende: afinal, Hitler limitou-se a exterminar seis milhões de judeus, uma insignificância. Se a «solução final» tivesse sido concluída (ou seja, se em vez de apenas seis milhões, tivessem morrido todos) não haveria hoje ninguém para reclamar a verdade sobre o ouro roubado, o que seria um descanso para os anti-semitas em geral e para Carlos Azeredo em particular.

    TSF | 29.Out.1997

    Ler Mais
  • Eleições, mentiras e algum vídeoOpen or Close

    O putativo futuro primeiro-ministro, Santana Lopes, foi à Televisão defender a evolução na continuidade que seria a sua nomeação, se o PR seguisse os conselhos do PSD e do CDS e não convocasse eleições antecipadas. Diz Lopes que Sampaio deve deixar governar a maioria parlamentar, nomeando-o para o cargo deixado vago por Durão Barroso. E apresenta como razão maior o facto de também Sampaio ter desistido a meio do mandato de presidente da Câmara de Lisboa, sem que tal obrigasse a novas eleições.

    Para Consumo da Causa | 7.Jul.2004

    Ler Mais
  • O fumo e o fogoOpen or Close

    Acabo de ler esta história, e apetece-me acender um cigarro. Não é politicamente correcto dizê-lo, e menos ainda fazê-lo: o higienismo e a lei, ou vice-versa, dizem que fumar mata. Claro que a vida também mata, e em meio século de existência ainda não conheci ninguém que lhe conseguisse sobreviver. Mas isso não é preocupação dos legisladores, empenhados que estão em conseguir que morramos todos cheios de saúde.
    Pouco importa. Este aparente desacerto da prosa vem a propósito de mais uma ficção que Nuno Gomes dos Santos agora dá a conhecer em forma de livro.

    Prefácio a Reserva de Fumo, de Nuno Gomes dos Santos | 2009

    Ler Mais
  • Dos copos até à pontaOpen or Close

    Portugal, que como país de poetas já é o que se sabe, corre o risco de se tornar também num país de pensadores: Santana Lopes pensa no estrangeiro, Manuel Monteiro pensa devagar, José Magalhães pensa via internet, enquanto Vasco Graça Moura pensa que voltará e Carlos Carvalhas continua apenso.

    Catálogo da exposição Filosofia de Ponta, de Júlio Pinto e Nuno Saraiva | 1996

    Ler Mais